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Keiko promete expulsar imigrantes e aproximar Peru dos EUA às vésperas da eleição

Favorita na disputa presidencial de domingo, Keiko Fujimori promete expulsar imigrantes em situação irregular, atrair investimentos dos Estados Unidos e reforçar o eixo da direita na América Latina, em meio à escalada da criminalidade e à disputa de influência com a China no Peru.

Direita em ascensão e promessa de “ordem”

Na reta final da campanha, em Lima, a candidata de 50 anos usa a crise de segurança como eixo central do discurso. Em entrevista exclusiva à agência AFP, Keiko se compromete a “recuperar a ordem” nos primeiros 100 dias de um eventual governo e associa de forma direta a onda de crimes à presença de imigrantes em situação irregular no país andino.

As pesquisas divulgadas no domingo, último dia permitido para sondagens, apontam Keiko com cerca de 15% das intenções de voto, ligeiramente à frente de rivais fragmentados em um cenário com 35 candidatos. O desempenho seria suficiente para levá-la a um quarto segundo turno em junho, após derrotas nas disputas de 2011, 2016 e 2021.

A narrativa de “mão dura” tenta responder ao cansaço de uma população que vive sob instabilidade política crônica. Em dez anos, o Peru tem oito presidentes, quatro deles destituídos pelo Congresso, dois pressionados a renunciar e um ex-líder de esquerda, Pedro Castillo, derrubado em 2022 após tentativa de fechar o Parlamento. O fujimorismo, mesmo sem o comando do Executivo, segue como uma das forças mais influentes da Câmara.

Keiko agora diz ter aprendido com o confronto permanente que marcou sua atuação recente. Afirma que buscará uma postura mais conciliadora com o Congresso bicameral que será eleito neste domingo, o primeiro desde 1990, quando o país abandona o modelo unicameral. “Também cometi erros, ao ter momentos de muita confrontação. E com isso aprendemos […] a priorizar o diálogo e a fomentar consensos”, reconhece.

Expulsões, militares nas prisões e o legado do pai

O ponto mais controverso do programa é a política migratória. A comunidade estrangeira mais numerosa do Peru é a venezuelana, com cerca de 1,6 milhão de pessoas. Desse total, 14% não possuem residência autorizada. Para esse grupo, Keiko promete expulsão sumária. “Expulsaremos os cidadãos sem documentos e esperamos que […] seja possível fazer um corredor humanitário para que os que […] foram forçados a sair de seu país possam retornar”, afirma.

Organizações de direitos humanos alertam que políticas de expulsão em massa podem atingir refugiados e solicitantes de asilo, mas o tema ganha tração nas ruas, embalado por relatos de sequestros, extorsões e assassinatos. A candidata amarra esse discurso a medidas de endurecimento penal: pretende pedir ao Congresso autorização para enviar militares às prisões e reativar tribunais com “juízes sem rosto” para julgar crimes graves.

O mecanismo remete diretamente ao governo de seu pai, Alberto Fujimori, no poder entre 1990 e 2000. Os tribunais com magistrados anônimos se tornam símbolo de um Estado que prioriza a eficiência repressiva em detrimento de garantias legais mínimas. Críticos apontam violações de direitos, sentenças arbitrárias e uso político da Justiça. Keiko minimiza as críticas e tenta resgatar a memória de firmeza diante da violência. “Meu pai trouxe ordem, crescimento econômico e […] trabalhou com os setores mais populares. Tenho o sarrafo lá no alto e espero superá-lo”, diz.

O legado divide o país desde o fim do regime. Alberto Fujimori é lembrado por derrotar a guerrilha maoísta Sendero Luminoso, mas também por violações de direitos humanos e corrupção, que resultam em condenação a 25 anos de prisão. No fim de 2023, o ex-presidente sai da cadeia por decisão do Tribunal Constitucional, em choque frontal com a Corte Interamericana de Direitos Humanos, que se opõe à medida. Keiko agora defende a saída do Peru do sistema interamericano, o que aprofundaria o atrito com organismos multilaterais.

Guinada a Washington e disputa com a China

A agenda de segurança se entrelaça a uma guinada geopolítica. Em Lima, Keiko busca se apresentar como parceira confiável de Washington em um momento em que o ex-presidente Donald Trump tenta recompor influência na região e conter a China. “Meu papel, caso eu seja eleita presidente, será motivar os Estados Unidos a voltarem a participar mais ativamente” na economia peruana, afirma, em um comitê de campanha.

O Peru é hoje a segunda maior plataforma de investimentos chineses na América Latina, atrás apenas do Brasil. Entre 2005 e 2025, o país recebe pelo menos US$ 29 bilhões de empresas da China, de acordo com o monitor China Global Investment Tracker, em setores como mineração, energia e infraestrutura. Esse peso consolida Pequim como principal parceiro comercial de Lima e limita a margem para uma mudança brusca de rota.

Keiko aposta em um discurso de reequilíbrio, não de ruptura. Menciona a necessidade de aumentar a presença de capital americano para reduzir riscos de dependência e cita explicitamente o movimento de líderes de direita na região. “A América Latina está girando para uma corrente na qual se prioriza a liberdade, os investimentos e recuperar o controle e a segurança”, diz, ao listar Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador, e Rodrigo Paz, na Bolívia. “Faltam Colômbia e Peru”, conclui, ao se colocar como peça que falta nessa engrenagem.

O cálculo é claro: um alinhamento político-ideológico com Washington e com governos conservadores vizinhos pode facilitar a chegada de investimentos, blindar o país de novas crises políticas e oferecer ao eleitorado uma imagem de previsibilidade. Ao mesmo tempo, a guinada corre o risco de tensionar acordos com a China e expor o país a uma disputa entre potências que não controla.

Eleição fragmentada e incertezas no dia seguinte

O cenário interno é igualmente volátil. Atrás de Keiko, aparecem o comediante Carlos Álvarez, o ex-prefeito de Lima Rafael López Aliaga, o empresário de mídia Ricardo Belmont e o esquerdista Roberto Sánchez, herdeiro político de Pedro Castillo. Nenhum deles ultrapassa um dígito folgado nas pesquisas, o que reforça a dispersão de votos e amplia o peso do eleitor indeciso na reta final.

Mais de 27 milhões de peruanos vão às urnas neste domingo para escolher o novo presidente e, pela primeira vez em mais de três décadas, deputados e senadores. A volta do Congresso bicameral é apresentada como antídoto contra decisões intempestivas, mas a memória de um Parlamento hiperfragmentado e conflitivo ainda pesa. A própria Keiko tenta se afastar da imagem de obstrucionismo que ajuda a derrubar presidentes recentes.

A estratégia de campanha cruza nostalgia e promessa de renovação. “O tempo está colocando as coisas em seu lugar e, hoje, quando o Peru sangra pelos delinquentes e os extorsionistas, o que pedem é um Fujimori, aqui estou!”, declara, em frase que busca transformar o sobrenome, por anos associado a autoritarismo, em sinônimo de segurança. Ao mesmo tempo, insiste no discurso de aprendizado e diálogo, em tentativa de acenar ao centro e reduzir rejeição histórica.

Se vencer, Keiko chega ao poder após três derrotas eleitorais, a morte do pai em 2024 e a libertação polêmica do ex-presidente no fim de 2023. Terá diante de si um país dividido, dependente do apetite chinês por minerais, pressionado por Washington, sob olhar atento de organismos internacionais e da vizinhança. A eleição deste domingo indica o rumo, mas deixa em aberto a principal questão: o Peru está disposto a pagar o preço político e social de um novo experimento fujimorista em nome da promessa de ordem?

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