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Keiko Fujimori assume liderança parcial na eleição presidencial do Peru

Keiko Fujimori assume nesta segunda-feira (13) a liderança parcial da eleição presidencial no Peru, após uma votação marcada por atrasos e prorrogação em seções eleitorais. Com 37% das urnas apuradas, ela aparece à frente do empresário conservador Rafael López Aliaga, em um cenário de forte polarização e incerteza sobre o segundo turno.

Virada nas apurações em meio ao caos logístico

A contagem preliminar divulgada pelo organismo eleitoral ONPE mostra Fujimori com 17,17% dos votos válidos, contra 16,97% de López Aliaga. O quadro inverte o resultado da noite de domingo (12), quando o empresário liderava a apuração, apesar de pesquisas de boca de urna apontarem a vantagem da filha do ex-presidente Alberto Fujimori.

A mudança ocorre enquanto o país ainda digere as falhas na organização do pleito. Em Lima e em outras regiões, eleitores encontram portas fechadas na manhã de domingo, por falta de mesários, atraso na montagem das seções e ausência de material básico de votação. O contraste entre a disputa apertada no topo e a precariedade da infraestrutura eleitoral alimenta queixas de candidatos e desconfiança entre parte do eleitorado.

Diante da pressão, o Conselho Nacional Eleitoral decide estender a votação. As seções que não conseguiram funcionar no domingo ganham um dia extra e passam a receber eleitores até esta segunda. A medida tenta preservar o direito ao voto e reduzir o risco de contestação do resultado em uma eleição sem favorito claro.

Piero Corvetto, chefe do ONPE, admite falhas na capital. Segundo ele, 13 seções eleitorais em Lima não conseguem abrir por completa falta de material. O problema atinge 52.251 eleitores, número revisado para baixo em relação ao dado anterior, que superava 63 mil pessoas. “Ficou acertado que as instalações serão as mesmas e que a eleição será realizada no mesmo horário, das 7h às 18h, a fim de garantir o direito constitucional ao voto dos eleitores mencionados, distribuídos em 187 seções eleitorais”, afirma.

Ao pedir que mesários e cidadãos retornem às urnas, Corvetto tenta conter a narrativa de fraude. Até agora, não há evidência de manipulação deliberada, mas o acúmulo de atrasos e remendos reforça a percepção de um sistema sob estresse, em um país que convive há anos com crises políticas sucessivas.

Direita se organiza contra a esquerda em cenário fragmentado

Keiko Fujimori explora esse ambiente de desgaste institucional para reafirmar seu discurso de ordem e confronto com a esquerda. Em declaração nesta segunda-feira, ela exibe confiança nos números da contagem rápida. “Os resultados da contagem rápida são um sinal muito positivo para o nosso país, porque, como salientei durante o debate, o inimigo é a esquerda”, diz.

Para a candidata, o dado mais relevante não é apenas a vantagem mínima sobre López Aliaga, mas a possibilidade de que nomes à esquerda fiquem fora do segundo turno. “Isso é confirmado pelos resultados da contagem, já que eles não avançariam para o segundo turno — e isso, repito, é positivo para todos os peruanos”, afirma. A fala deixa claro o objetivo de consolidar uma frente conservadora, mesmo à custa de aprofundar a divisão política.

O pleito se desenrola em um Peru cansado de escândalos, mudanças frequentes de governo e disputas entre Executivo e Congresso. Nos últimos anos, o país vê presidentes destituídos, renúncias e prisões que minam a confiança nas instituições. Keiko, ela própria alvo de processos e períodos de detenção preventiva em investigações de corrupção, tenta converter sua trajetória em narrativa de resistência e experiência acumulada.

A fragmentação eleitoral reforça esse quadro. Nenhum dos principais candidatos se aproxima dos 50% exigidos para vencer no primeiro turno. Um segundo turno em 7 de junho se torna praticamente inevitável e adiciona semanas de incerteza a um país que é o terceiro maior produtor mundial de cobre e depende da estabilidade política para atrair investimentos em mineração e infraestrutura.

O resultado final também interessa a potências estrangeiras. O Peru está no centro de uma disputa silenciosa por influência entre Estados Unidos e China na América do Sul. Washington busca conter o avanço de Pequim em setores estratégicos, enquanto empresas chinesas ampliam presença em projetos de mineração, energia e logística. A orientação do próximo governo terá impacto direto nessas parcerias e na posição do país em fóruns regionais.

Incerteza prolonga tensão política e econômica

A disputa voto a voto entre Fujimori e López Aliaga deixa o mercado em compasso de espera. Investidores acompanham de perto os comunicados do ONPE e as reações dos candidatos, atentos a qualquer sinal de contestação do processo. Em um país altamente dependente da exportação de cobre, a combinação de instabilidade política, aumento da criminalidade e pressão internacional tende a pesar sobre decisões de longo prazo.

Os mais de 52 mil eleitores afetados diretamente pela falta de material em Lima simbolizam um desafio maior: a capacidade do Estado de garantir eleições confiáveis em meio a crises sucessivas. A extensão do horário de votação atenua parte do problema, mas não elimina a sensação de improviso. Em bairros periféricos e regiões mais pobres, o cansaço com a política tradicional convive com o medo de uma guinada radical, à direita ou à esquerda.

Keiko Fujimori tenta se apresentar como a opção capaz de barrar projetos de esquerda e, ao mesmo tempo, restaurar previsibilidade para a economia. López Aliaga busca o mesmo eleitorado conservador, com um discurso ainda mais duro em temas de segurança e costumes. Caso o segundo turno reúna ambos ou oponha um deles a um nome mais à esquerda, o país tende a assistir a uma campanha agressiva, marcada por ataques pessoais e pela disputa em torno do legado do fujimorismo.

Organismos internacionais e observadores estrangeiros monitoram também o comportamento das instituições peruanas. A forma como o ONPE, o Conselho Nacional Eleitoral e o Judiciário lidam com recursos, denúncias e pedidos de recontagem será decisiva para a aceitação do resultado. Qualquer percepção de favorecimento pode reabrir feridas recentes e estimular protestos de rua, em um ambiente já saturado pela violência urbana e pela queda na confiança na política.

Rumo ao provável segundo turno em junho

Com a apuração ainda em curso e a votação estendida em dezenas de seções, o país avança para uma reta final tensa. A confirmação oficial dos dois nomes que devem disputar o segundo turno em 7 de junho pode levar dias, a depender do ritmo de chegada das atas e da análise de eventuais contestações.

Enquanto isso, Keiko Fujimori tenta transformar a liderança parcial em capital político para costurar apoios à direita e ao centro, antes mesmo da definição formal do cenário. López Aliaga resiste, reivindica o espaço de principal alternativa conservadora e mantém o discurso de endurecimento contra a criminalidade e a corrupção. A esquerda, momentaneamente fora do foco, busca reagrupar forças e evitar uma eleição decidida apenas entre variantes do mesmo campo ideológico.

O Peru entra nas próximas semanas com mais perguntas do que respostas. Quem chegará ao segundo turno? Que coalizões serão possíveis em um Congresso fragmentado? Como o próximo governo vai equilibrar a pressão por segurança, a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China e a necessidade de estabilidade para um setor mineral vital para a economia global? O desfecho dessa eleição ajuda a definir não só o rumo do país, mas também o peso de sua voz na política regional.

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