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Kassab admite frustração de Leite e sela aposta do PSD em Caiado em 2026

Gilberto Kassab admite nesta segunda-feira (6) que Eduardo Leite fica decepcionado com a escolha do PSD por Ronaldo Caiado como candidato à Presidência em 2026. O dirigente, porém, exibe cuidado ao elogiar o governador gaúcho e projetar seu futuro no comando do país.

Kassab expõe ferida interna, mas afaga o gaúcho

O presidente nacional do PSD fala em tom calculado no 68º Congresso Estadual de Municípios, em São Paulo, diante de prefeitos e vereadores de diferentes partidos. Ao ser questionado sobre o sentimento de Leite após a definição da pré-candidatura de Caiado, Kassab não tenta dourar a cena. Ele diz acreditar que o governador do Rio Grande do Sul sai triste e frustrado da disputa interna.

Na sequência, o dirigente se apressa em cercar o aliado de elogios. “O Eduardo é muito bem preparado, muito inteligente. Tenho dito sempre que será presidente da República, porque poucas pessoas estão na vida pública com a sua idade e têm a sua capacidade, cultura, formação e experiência como gestor”, afirma. A frase, dita diante de uma plateia que acompanha de perto a sucessão de 2026, funciona como recado para dentro e para fora da sigla.

Leite, de 40 anos, governa pela segunda vez um estado chave do Sul, com cerca de 11 milhões de habitantes e peso decisivo em disputas presidenciais recentes. Desde o início do ano, ele trava uma disputa silenciosa com Caiado e com o governador do Paraná, Ratinho Jr., pela indicação do PSD ao Planalto. O movimento ganha corpo depois que o partido amplia sua bancada federal e passa a ser cortejado por diferentes campos políticos.

No fim de março, Ratinho Jr. decide abandonar a corrida e anuncia que pretende concluir o mandato no Paraná, que termina em 31 de dezembro de 2026. A retirada abre espaço para um duelo direto entre Leite e Caiado, ambos com redes de apoio regionais consolidadas. Nos bastidores, lideranças da legenda apontam o histórico nacional do goiano e sua relação com o agronegócio como fatores decisivos para a escolha.

Caiado vira aposta nacional, Leite é guardado para o futuro

Kassab deixa claro, em São Paulo, que o partido fecha questão em torno de Caiado. “Ele tem uma história, bons serviços em todas as missões que teve. Estamos muito motivados e otimistas em relação à performance dele nessa pré-campanha”, diz o presidente do PSD, ao destacar o currículo do ex-senador, ex-deputado e atual governador de Goiás, no comando do estado desde 2019.

A declaração pública consolida um movimento de meses. Desde 2023, Kassab testa o nome de Caiado em pesquisas internas e em conversas com dirigentes regionais. Levantamentos recentes, como o Atlas citado por aliados do partido no Paraná, mostram o goiano competitivo em cenários de segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que alimenta o discurso de que o PSD pode liderar uma terceira via robusta em 2026.

Nesse tabuleiro, Leite perde a disputa imediata, mas não perde relevância. Ao projetar o gaúcho como “futuro presidente da República” em um evento com forte presença de prefeitos, Kassab sinaliza que pretende preservá-lo para próximos ciclos eleitorais. O governador vem de uma reeleição apertada em 2022 e atravessa, em 2026, o desafio de reconstruir o Rio Grande do Sul após sucessivas crises fiscais e climáticas, o que reforça seu currículo de gestor.

O gesto do presidente do PSD mira dois públicos. Para a militância ligada a Leite, funciona como aceno de que o partido não fecha as portas ao projeto nacional do gaúcho, mesmo após a derrota interna. Para aliados de Caiado, indica que a cúpula quer evitar rachas regionais, especialmente no Sul, onde o PSD tenta ampliar o número de prefeituras nas eleições municipais de outubro e garantir palanques competitivos para 2026.

A forma como Kassab equilibra o discurso revela a preocupação em conter a narrativa de que a escolha por Caiado isola Leite dentro da sigla. Um racha entre as duas alas teria potencial de atingir bancadas estaduais, influenciar alianças em capitais estratégicas e reduzir o tempo de TV e rádio em 2026, um ativo decisivo em campanhas presidenciais desde a redemocratização em 1985.

Unidade em teste e disputa presidencial no horizonte

A consolidação de Caiado como pré-candidato transforma o PSD em peça central nas negociações para a sucessão de 2026. A legenda, que elegeu dezenas de deputados federais em 2022 e governa estados como Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul, passa a negociar alianças com partidos de centro e centro-direita. A estratégia inclui atrair setores do agronegócio, do empresariado urbano e de prefeitos que hoje orbitam diferentes campos ideológicos.

O humor de Leite, descrito por Kassab como “triste” com a decisão, entra nesse cálculo. Um governador insatisfeito pode liberar aliados locais para buscar outros projetos presidenciais, inclusive do campo governista ou da oposição ao PSD. A fala pública do presidente do partido, ao exaltar as credenciais do gaúcho, tenta neutralizar esse risco e manter o palanque sulista alinhado à campanha de Caiado.

Nas próximas semanas, dirigentes do PSD pretendem transformar o gesto simbólico em gestos concretos. Estão na mesa convites para que Leite assuma papel de destaque na coordenação programática da legenda ou na formulação de propostas para a área fiscal e de reconstrução de estados em crise. A ideia é vinculá-lo a temas de alcance nacional, preparando terreno para 2030, sem ofuscar Caiado em 2026.

A forma como o partido administra essa transição interna ajuda a definir o tom da campanha presidencial. Se Leite se engaja e transfere parte de seu capital político para o colega goiano, o PSD chega mais forte à largada oficial, prevista para agosto de 2026, com palanques integrados no Sul e no Centro-Oeste. Se a frustração prevalece, a legenda corre o risco de repetir divisões que marcaram outras siglas em disputas recentes.

O recado de Kassab, em meio à plateia de gestores municipais, aponta para uma tentativa de costurar essa unidade desde já. As próximas movimentações de Leite e de Caiado, dentro e fora do partido, vão mostrar se o afago público ao governador gaúcho basta para cicatrizar a ferida aberta pela escolha do candidato ao Planalto.

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