Justiça solta adolescente de caso em padaria e inclui família em proteção
Um adolescente de 17 anos, apreendido como suspeito de matar três mulheres em uma padaria de Ribeirão das Neves, na Grande BH, é solto após oito dias. A Justiça revoga a internação provisória nesta quinta-feira (12/2/2026) por falta de provas e determina a inclusão do jovem e de seus familiares em um programa de proteção.
Decisão muda rumo de investigação sobre triplo homicídio
A decisão marca uma guinada no caso que choca a região metropolitana desde 4 de fevereiro de 2026, quando três mulheres são mortas a tiros dentro de uma padaria. O adolescente é apreendido no dia seguinte à chacina, tratado como principal suspeito e enviado para internação provisória, medida equivalente à prisão para menores de 18 anos.
O quadro começa a mudar quando a defesa apresenta álibis e questiona a fragilidade das provas. A juíza responsável revoga a internação ao reconhecer que não há elementos concretos que sustentem a acusação contra o jovem. A única testemunha ocular sobrevivente não o reconhece como autor dos disparos em depoimento formal na delegacia.
O advogado Gilmar Francisco, que representa o adolescente, afirma que a decisão já era esperada diante do que considera um erro de origem. “A defesa recebeu essa decisão com alívio, pela soltura do menor, mas não com espanto porque não tinham provas contra ele”, diz. Ele sustenta que o cliente não está na cena do crime, apresenta álibis e não mantém qualquer vínculo com o homem de 30 anos que surge agora como principal suspeito.
O Ministério Público e o Judiciário concordam com a necessidade de proteção urgente. O despacho determina ofício imediato ao Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), responsável por acolher o jovem e seus parentes. A família, segundo a defesa, recebe ameaças de morte desde o dia seguinte ao crime.
Fragilidade das provas expõe falha do sistema de segurança
O caso evidencia a distância entre a reação inicial do aparato de segurança e a apuração mais cuidadosa exigida em crimes graves. O adolescente é apontado em um boletim de ocorrência com base em relatos de testemunhas não identificadas, somados ao histórico de ocorrências de menor potencial ofensivo no passado. A combinação basta para justificar a apreensão emergencial, mas não resiste ao escrutínio posterior.
O próprio advogado descreve o caso como um exemplo de como o sistema falha em duas frentes. “Tecnicamente falando, tanto o Judiciário quanto o sistema de segurança falharam. O assassino estava solto e cometendo outros crimes, inclusive uma tentativa de homicídio em uma oficina mecânica”, afirma. Ele estuda processar o Estado por danos morais e materiais decorrentes da internação considerada indevida.
Enquanto o jovem passa oito dias sob custódia, a polícia avança sobre outra linha de investigação. Um homem de 30 anos, com registros anteriores e boletins de ocorrência em seu nome, é preso em flagrante por posse ilegal de arma na quarta-feira (11/2). A Polícia Civil informa que ele passa a ser tratado como principal suspeito do triplo homicídio na padaria e que não há qualquer relação entre ele e o adolescente.
A mudança de foco expõe um intervalo em que o verdadeiro autor permanece em liberdade. Nesse período, segundo a defesa, ele teria tentado matar outra pessoa, em uma oficina mecânica. O episódio alimenta o debate sobre a pressa em apontar culpados, o peso de antecedentes em decisões judiciais e a capacidade do Estado de proteger, ao mesmo tempo, a sociedade e os direitos individuais.
A investigação segue em curso, e o adolescente continua formalmente sob apuração. “Há um procedimento, mas, ao fim, a decisão deve contemplar sua absolvição”, projeta o advogado. Ele insiste que o cliente “não é executor, mentor intelectual, não estava na cena do crime, tem álibis”. A tese da defesa se apoia no não reconhecimento pela testemunha sobrevivente e na ausência de vínculo com o novo suspeito.
Proteção, reparação e próximos passos do caso
A inclusão do jovem no PPCAAM altera completamente a rotina da família. Eles deixam o endereço atual e são levados para local mantido em sigilo, com previsão de acompanhamento psicológico, suporte social e monitoramento constante. A medida busca afastar o risco imediato, em um cenário em que ameaças de morte se intensificam após a divulgação do caso.
A proteção reforçada também mostra como a exposição precoce de um suspeito pode produzir danos difíceis de reverter. Em poucos dias, o adolescente passa de suposto autor de uma chacina a alvo de ameaças e símbolo de um possível erro judicial. Mesmo com a soltura, a marca da acusação ainda o acompanha, ao menos até a conclusão do inquérito.
O episódio reacende a discussão sobre mecanismos de checagem antes de prisões em casos de grande repercussão, sobretudo quando envolvem menores de idade. Entidades de defesa de direitos humanos cobram, em episódios semelhantes, protocolos mais rigorosos para reconhecimento de suspeitos, cruzamento de informações e preservação da identidade até que haja elementos consistentes.
No campo institucional, o caso tende a pressionar a Polícia Civil e o Ministério Público a detalhar, nas próximas semanas, as provas que ligam o homem de 30 anos ao triplo homicídio. A identificação da arma, eventuais laudos balísticos, imagens de câmeras e novos depoimentos devem indicar se a mudança de suspeito se consolida ou se outros nomes entram na mira.
A defesa do adolescente, por sua vez, prepara a estratégia para tentar limpar a ficha do cliente e discutir uma possível ação de responsabilidade civil contra o Estado. Em paralelo, famílias das três vítimas aguardam respostas definitivas e cobram punição exemplar ao verdadeiro autor. A solução do caso, agora, depende de a investigação responder a uma pergunta central: como evitar que um erro inicial se repita no próximo crime de grande comoção.
