Justiça manda prender suspeito de estuprar e matar jovem em Juatuba
A Justiça de Minas Gerais expede mandado de prisão contra Ítalo Jefferson, 43, suspeito de estuprar e matar a jovem Vanessa Lara de Oliveira, 23, em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, dois dias após o crime, ocorrido em 9 de fevereiro de 2026. O homem, que tem longo histórico criminal e deixou o regime semiaberto domiciliar há menos de dois meses, está foragido.
Crime brutal expõe falhas na progressão de pena
O mandado de prisão é emitido pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) em 11 de fevereiro, depois que a Polícia Militar relata a suspeita de estupro seguida de morte. Vanessa desaparece na segunda-feira, 9, e é encontrada morta no dia seguinte em Juatuba, onde trabalhava em uma unidade do Sistema Nacional de Emprego (Sine) para uma empresa terceirizada. A rotina interrompida de uma jovem que custeia com o próprio salário a faculdade de psicologia se transforma em símbolo da sensação de insegurança na cidade.
Ítalo Jefferson cumpre, até dezembro de 2025, pena em regime fechado na Comarca de Patrocínio, no Alto Paranaíba, por uma série de crimes: roubo, estupro, atentado violento ao pudor, furto, tráfico de drogas e resistência. As condenações, somadas, chegam a 38 anos, 10 meses e 29 dias de prisão. Desse total, 23 anos, 11 meses e 19 dias já haviam sido cumpridos. Em setembro de 2025, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) desclassifica o crime de tráfico para uso de drogas, o que leva à extinção da pena de oito anos aplicada por esse delito.
Três meses depois, em dezembro, o juízo de Patrocínio recalcula a pena total e concede a Ítalo progressão para o regime semiaberto domiciliar, com alvará de soltura cumprido em 20 de dezembro de 2025. Em janeiro de 2026, o processo é remetido à Comarca de Juatuba, depois que o sentenciado indica endereço na cidade. Menos de dois meses após deixar a prisão, ele se torna o principal suspeito do assassinato de Vanessa.
Moradores de Juatuba relatam que Ítalo é conhecido na região por assediar mulheres. Segundo informações repassadas ao jornal Estado de Minas, ele circula pelo bairro e causa medo entre moradoras, mesmo sob o regime semiaberto domiciliar. A presença de um condenado por estupro e outros crimes violentos em liberdade supervisionada reacende o questionamento sobre a fiscalização desse tipo de medida e a capacidade do Estado de acompanhar de perto condenados de alta periculosidade.
Suspeito foge após suposta confissão por telefone
A narrativa que chega à polícia combina relatos de populares e da própria família de Ítalo. Pessoas que estão no local onde o corpo de Vanessa é encontrado apontam aos policiais o nome do suspeito e o endereço de seus parentes. Militares seguem até a casa indicada, em Juatuba, e encontram o primo, o cunhado e a mãe do homem. Os familiares contam que Ítalo aparece na residência na segunda-feira, 9, sujo de barro, arranhado e com a roupa manchada de sangue.
Aos parentes, ele diz que usou drogas com uma mulher, houve briga e esse seria o motivo do estado em que chega em casa. Depois do banho, pede R$ 200 à mãe, afirmando que pretende ir para o Centro de Belo Horizonte “para morar na rua”. A família entrega à Polícia Militar o short que ele usava naquele dia, com manchas de sangue, peça que segue para perícia da Polícia Civil. O resultado do laudo deve apontar se o material é compatível com o DNA de Vanessa.
Enquanto os policiais ainda estão na casa, na terça-feira, 10, o telefone toca. Do outro lado da linha, segundo o registro oficial, está o próprio Ítalo. Ele fala com familiares e, em seguida, assume a autoria do crime diante dos militares. Diz que está no Centro de Belo Horizonte, para onde teria fugido após a morte da jovem. Depois da confissão, desliga. Não volta a atender as ligações, e desde então permanece em paradeiro desconhecido.
O corpo de Vanessa é localizado na tarde de terça-feira, dia 10, um dia depois do desaparecimento. Ela havia sido vista pela última vez no Sine de Juatuba, onde presta serviço para uma empresa terceirizada. Família e amigos passam horas procurando por notícias, enquanto a informação se espalha pelos grupos de mensagens da cidade. “Ela trabalhava para pagar a faculdade de psicologia”, relata um parente ao Estado de Minas, resumindo o projeto de vida interrompido.
Pressão por mudanças e busca por respostas
A notícia de que o principal suspeito já tinha condenações por estupro e atentado violento ao pudor acende o debate sobre progressão de regime para criminosos sexuais reincidentes. Especialistas em segurança e operadores do direito cobram, há anos, critérios mais rígidos e monitoramento efetivo para quem deixa o regime fechado. O caso de Juatuba ganha força nesse discurso ao expor, de forma concreta, o risco de falhas na avaliação de periculosidade e na fiscalização do cumprimento das condições impostas pelo Judiciário.
A comunidade local reage com revolta e medo. Moradores se organizam em grupos de apoio, discutem rotas mais seguras e combinam horários para evitar circular sozinhos à noite. Mulheres relatam, em redes sociais, assédios anteriores na região e pedem mais policiamento ostensivo, iluminação adequada e respostas rápidas às denúncias. Em conversas reservadas, integrantes da área de segurança reconhecem que o sistema de acompanhamento de presos em regime semiaberto domiciliar é frágil e desigual entre as cidades.
O mandado de prisão expedido pelo TJMG determina a regressão cautelar de Ítalo para o regime fechado. Na prática, a decisão anula o benefício que ele obtém em dezembro e busca garantir a recaptura do suspeito. A Polícia Militar e a Polícia Civil reforçam as buscas na Região Metropolitana de Belo Horizonte, com atenção especial ao Centro da capital, região mencionada pelo próprio foragido na ligação em que teria confessado o crime.
A investigação ainda busca esclarecer em detalhes como Vanessa é abordada, em que local exato o crime acontece e se há participação de outras pessoas. Imagens de câmeras de segurança, depoimentos de testemunhas e laudos periciais devem compor o inquérito. A família da jovem aguarda respostas sobre cada etapa do trajeto percorrido por ela desde a saída do trabalho até o ponto onde o corpo é encontrado.
Foragido, suspeito vira teste para sistema penal
O caso de Juatuba tende a ultrapassar os limites da cidade e do estado. O histórico de 38 anos de condenações, a progressão ao semiaberto domiciliar em dezembro de 2025 e o crime registrado menos de dois meses depois alimentam a pressão por mudanças na legislação e na forma como o Judiciário aplica benefícios penais. Entidades ligadas aos direitos das mulheres cobram prioridade na apuração e proteção mais rígida para potenciais vítimas de agressores reincidentes.
Ítalo Jefferson continua foragido, e o avanço da investigação deve orientar próximos passos do Ministério Público e do próprio TJMG. A recaptura do suspeito é vista por autoridades como ponto crucial não só para a responsabilização pelo assassinato de Vanessa, mas também para a credibilidade do sistema penal. A cidade de Juatuba acompanha o caso em alerta, enquanto o país observa, mais uma vez, até onde a combinação de falhas na punição e na vigilância de criminosos perigosos pode custar vidas.
