Justiça decreta prisão de João Lima por agressão à esposa na Paraíba
A Justiça da Paraíba decreta, neste sábado (24), a prisão do cantor de forró João Lima por agressões físicas e psicológicas contra a esposa, Raphaela Brilhante. A decisão ocorre após uma semana de violência, registrada em vídeo, e depois de a vítima procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em João Pessoa.
Imagens expõem ciclo de violência dentro de casa
As cenas gravadas dentro da casa do casal, na Paraíba, mostram o cantor agarrando a esposa, dando tapas no rosto e imobilizando o corpo dela com força. Em um dos trechos, João Lima sobe sobre a vítima e a mantém presa no chão, enquanto ela tenta se desvencilhar, em claro descontrole emocional e físico.
O vídeo circula entre investigadores e autoridades desde o início da semana e se torna peça central no inquérito aberto pela Polícia Civil. A corporação confirma que as agressões ocorrem ao longo de vários dias, na semana anterior ao registro da denúncia, mas só chegam oficialmente à Delegacia da Mulher na manhã de sábado, 24 de janeiro de 2026.
No depoimento, Raphaela descreve não apenas as agressões físicas, como tapas e apertos, mas também ataques psicológicos constantes. Segundo o relato à polícia, o marido entrega uma faca a ela e a incentiva a tirar a própria vida. A cena, narrada em detalhes, é tratada pelos investigadores como uma escalada grave de violência doméstica e de ameaça à integridade emocional da vítima.
A denúncia indica ainda que, dias após o episódio mais intenso, o cantor vai até a casa da sogra e faz novas ameaças. De acordo com o boletim de ocorrência, ele afirma que a mulher “não teria paz” e que “iria acabar com a vida dela”. As falas reforçam, para os investigadores, um padrão de intimidação e controle que ultrapassa a discussão de casal e entra no campo do crime previsto na Lei Maria da Penha.
Casamento recente e histórico de agressões
João Lima e Raphaela estão juntos há cerca de dois anos. O casamento acontece no ano passado, em 2025, e marca, segundo o depoimento da vítima, o início de um “ciclo de violência”. A expressão, comum em estudos sobre violência doméstica, aparece na fala de Raphaela não como conceito acadêmico, mas como resumo de um cotidiano de medo, brigas e agressões recorrentes.
Ela afirma à polícia que essa não é a primeira vez que apanha do cantor. Relata discussões que terminam em empurrões, xingamentos, humilhações e controle financeiro. A sequência de episódios, somada às ameaças com a faca e às frases sobre morte, pesa na avaliação do Ministério Público e da Justiça sobre o risco que ela corre se permanecer desprotegida.
Ao analisar o pedido da Delegacia da Mulher, o juiz Bruno César Azevedo Isidro, em plantão judiciário do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJ-PB), concede medida protetiva de urgência para Raphaela. A decisão impede o cantor de se aproximar da vítima e de manter qualquer contato com ela, inclusive por redes sociais ou telefone, e serve de base para a decretação da prisão.
Na nota divulgada neste sábado, a defesa de Raphaela reforça o caráter contínuo da violência e enquadra o caso em um cenário mais amplo de agressões contra mulheres no país. “Agressões físicas, psicológicas, morais e financeira são inaceitáveis e o autor deverá arcar com as consequências do rigor da lei protetiva da mulher”, diz o texto assinado pelos advogados.
O comunicado cita ainda os números recordes de feminicídios registrados em 2025 no Brasil como sinal de alerta. “Em um país que ostenta recorde de feminicídios registrados em 2025 é passada da hora de não mais aceitarmos que homens abusivos se sintam confortáveis em tratar nossos corpos como se fossem objetos.” A fala busca ligar a experiência individual de Raphaela a uma violência que se repete em milhares de casas, longe das câmeras.
Reação da Justiça e peso simbólico do caso
A decretação da prisão ocorre em regime de plantão, menos de 24 horas após o registro formal da denúncia, e é vista por promotores e delegados como recado direto a agressores. O processo, agora, segue para o Ministério Público da Paraíba, que deve analisar o inquérito e decidir pela apresentação da denúncia criminal nas próximas semanas.
A defesa da vítima afirma que trabalha, neste primeiro momento, para “fazer cessar imediatamente todas as agressões por ela sofrida” e que o caso será “encaminhado ao Ministério Público da Paraíba para que seja oferecida a denúncia e o judiciário imponha medidas protetivas em favor de Raphaela”. A estratégia, segundo pessoas próximas à investigação, mira tanto a responsabilização criminal quanto a proteção continuada da jovem.
O episódio ganha repercussão porque envolve um artista conhecido no circuito de forró da região, com presença em festas e casas de show na Paraíba e em estados vizinhos. A exposição de um ídolo local em vídeos de agressão dentro de casa abre espaço para um debate incômodo sobre bastidores do mundo artístico, contratos, agendas e a responsabilidade de produtores e contratantes ao lidar com casos de violência doméstica.
Especialistas em direitos das mulheres ouvidos pela reportagem avaliam que decisões rápidas de prisão em flagrante ou por mandado, como a de João Lima, ajudam a romper a sensação de impunidade que ainda marca muitos casos de violência doméstica. Em 2025, o Brasil registra recordes de feminicídios e de medidas protetivas, o que indica tanto o aumento de denúncias quanto a persistência de relações marcadas por controle e agressão.
A CNN Brasil tenta contato com a defesa do cantor João Lima. O espaço segue aberto para manifestações da equipe jurídica, da assessoria de imprensa ou de familiares do artista sobre as acusações e a decisão judicial.
Próximos passos e pressão por responsabilização
Com a prisão decretada e a medida protetiva em vigor, o inquérito da Polícia Civil entra em fase de coleta detalhada de provas. Além dos vídeos que registram as agressões, os investigadores devem reunir laudos médicos, registros de atendimento psicológico, mensagens de celular e eventuais testemunhos de vizinhos, familiares e pessoas próximas ao casal.
O Ministério Público recebe o caso após a conclusão dessa etapa e pode oferecer denúncia com base na Lei Maria da Penha, incluindo crimes como lesão corporal, ameaça e violência psicológica. Se a Justiça aceitar a denúncia, João Lima se torna réu em ação penal e passa a responder formalmente pelas agressões, em um processo que pode levar meses até sentença.
A defesa de Raphaela aposta no efeito pedagógico da repercussão pública. “A sociedade precisa se conscientizar de que as vítimas devem ser protegidas e os agressores punidos”, diz a nota. Para movimentos de defesa de direitos das mulheres, cada caso que chega à mídia mostra outras vítimas que ainda não conseguem registrar ocorrência ou pedir ajuda.
Organizações que atuam na Paraíba destacam que mecanismos como o 190, o 180 e as Delegacias da Mulher funcionam como portas de entrada para romper ciclos de medo, especialmente em relações recentes, como a de um casamento de pouco mais de um ano. O desafio agora é garantir que a proteção concedida a Raphaela se sustente no tempo, sem brechas para novas ameaças.
O caso de João Lima segue sob investigação e ainda não tem data para denúncia formal. A exposição do vídeo, a atuação da Justiça e a resposta do Ministério Público vão indicar se a reação institucional ao episódio será exceção ou sinal de mudança mais profunda no enfrentamento à violência doméstica no país.
