Ciencia e Tecnologia

Júpiter é menor e mais achatado do que indicavam medidas oficiais

Júpiter encolhe alguns quilômetros nas contas dos astrônomos em 2026. Uma nova análise de dados da sonda Juno revela que o maior planeta do Sistema Solar é ligeiramente menor e mais achatado do que se pensava, o que obriga a rever números usados em livros, bancos de dados e modelos científicos no mundo todo.

Revisão milimétrica do maior planeta

A revisão nasce de um estudo publicado na revista Nature Astronomy, com base em medições recentes feitas pela missão Juno, da Nasa. Em operação desde 2016, a sonda orbita Júpiter e, nos últimos dois anos, intensifica a coleta de dados sobre a atmosfera e o campo gravitacional do gigante gasoso. Com isso, cientistas conseguem medir o planeta com uma precisão inédita.

Os resultados mostram que o raio equatorial de Júpiter é 4 quilômetros menor do que se aceitava até agora, enquanto o raio polar encolhe 12 quilômetros. O planeta continua imenso, com cerca de 70 mil quilômetros de raio, mas as novas contas deixam claro que ele é um pouco mais achatado do que indicavam as estimativas anteriores. Para os pesquisadores, essa diferença aparentemente modesta é tudo menos irrelevante.

“Em planetas gigantes, alguns quilômetros a mais ou a menos não são mero detalhe geométrico. Eles carregam informação sobre a estrutura interna e a dinâmica da atmosfera”, afirma, no artigo, um dos autores do estudo. O ajuste numérico, ainda que pequeno, mexe com uma peça central da astronomia: o tamanho oficial do maior planeta do Sistema Solar.

Como a Juno enxergou o que faltava

Para refinar as medidas, a equipe recorre ao método de ocultação de rádio. O processo é menos intuitivo do que uma simples fotografia, mas rende informações mais finas. A Juno emite sinais de rádio em direção à Terra. Esses sinais atravessam a atmosfera de Júpiter, são ligeiramente desviados e atrasados pelo gás denso do planeta e chegam às antenas de rastreamento em solo.

Ao analisar como a atmosfera curva e desacelera as ondas de rádio, os cientistas conseguem reconstruir o caminho percorrido e localizar, com grande precisão, o ponto em que o sinal começa a ser afetado pelo planeta. Esse limite define uma espécie de “superfície de referência” do gigante gasoso, equivalente ao nível do mar na Terra. A partir daí, é possível calcular o raio equatorial e o raio polar com uma margem de erro muito menor do que a disponível em décadas anteriores.

O método exige observações repetidas, em diferentes órbitas e ângulos. A Juno, que completa uma volta ao redor de Júpiter em pouco mais de um mês, fornece essa cadência. As passagens rasantes, a poucas dezenas de milhares de quilômetros do topo das nuvens, tornam o planeta um laboratório de precisão. “É como se tivéssemos passado um paquímetro cósmico em torno de Júpiter”, resume outro pesquisador no texto científico.

As medições anteriores, baseadas em técnicas menos sensíveis e em modelos teóricos mais simplificados, superestimavam o tamanho do planeta em alguns quilômetros. Com a nova análise, a equipe revisa os parâmetros e consolida valores que deverão servir de referência para futuras missões e estudos de comparação com outros mundos gigantes, como Saturno, Urano e Netuno.

Impacto em modelos, bancos de dados e sala de aula

A correção não muda o lugar de Júpiter no pódio planetário, mas altera contas que vão do livro didático a modelos sofisticados de física planetária. O raio de um planeta entra em equações que estimam massa volumétrica, distribuição de materiais em seu interior, intensidade do campo gravitacional e até o comportamento dos ventos na atmosfera superior. Um erro de poucos quilômetros pode parecer ínfimo diante de 140 mil quilômetros de diâmetro, mas se torna relevante quando essas contas alimentam simulações de alta precisão.

Na prática, bases de dados astronômicos usadas por observatórios, universidades e agências espaciais precisarão ser atualizadas nos próximos meses. Materiais educacionais que trazem tabelas com o tamanho dos planetas também tendem a ser revisados em novas edições. O ajuste atinge ainda catálogos internacionais mantidos por instituições como a Nasa e a União Astronômica Internacional, que reúnem parâmetros oficiais do Sistema Solar.

O novo grau de achatamento reforça a imagem de Júpiter como um planeta em rotação extrema. O gigante dá uma volta em torno do próprio eixo em cerca de 10 horas, o que espalha sua massa para a região equatorial. O fato de o raio polar encolher três vezes mais do que o equatorial, nessa revisão, indica que esse efeito de rotação e a forma como o interior do planeta responde a ele ainda guardam nuances que os modelos tentam reproduzir.

“Cada ajuste ajuda a afinar a orquestra de parâmetros que usamos para entender não só Júpiter, mas todos os planetas gigantes, dentro e fora do Sistema Solar”, diz o artigo. Ao calibrar melhor o gigante vizinho, astrônomos ganham uma régua mais confiável para interpretar observações de exoplanetas com tamanhos e massas semelhantes, observados apenas como pontos de luz ao redor de outras estrelas.

O que vem depois da nova medida

A revisão de 2026 tende a abrir caminho para novos estudos específicos sobre o interior de Júpiter. Com o tamanho ajustado, grupos de pesquisa podem refazer modelos que descrevem o núcleo do planeta, a distribuição de hidrogênio metálico em grandes profundidades e o papel das camadas intermediárias na geração do intenso campo magnético joviano. Essas simulações ganham importância em um momento em que a missão Juno se aproxima do fim planejado e a comunidade discute qual será o próximo passo na exploração do maior planeta do Sistema Solar.

As novas medidas também devem influenciar a concepção de futuras sondas que orbitem ou sobrevoem Júpiter e outros gigantes gasosos. Trajetórias, manobras de aproximação e estratégias de comunicação dependem de parâmetros físicos finos, que agora passam por ajuste. Em publicações técnicas, os autores do estudo sugerem que métodos semelhantes de ocultação de rádio sejam aplicados de forma sistemática a outros mundos, inclusive em missões já em curso, como as que estudam Marte e Saturno.

No curto prazo, o impacto mais visível para o público deve aparecer nas próximas versões de enciclopédias, sites de divulgação científica e livros escolares que tratam do Sistema Solar. O planeta que por décadas ocupa um espaço quase imutável nas ilustrações ganha um pequeno retoque de escala. A ciência mostra que, mesmo em corpos estudados há séculos, ainda há espaço para ajustes. A pergunta que permanece é quantos outros detalhes milimétricos ainda escapam aos instrumentos atuais, à espera de uma próxima geração de sondas para serem medidos.

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