Júpiter é menor e mais achatado do que a Nasa calculava
A Nasa anuncia nesta quarta-feira, 4, que Júpiter é ligeiramente menor e mais achatado nos polos do que se acreditava. A conclusão vem de dados inéditos da missão Juno, que revisam com precisão o tamanho do maior planeta do Sistema Solar.
Um gigante redesenhado em poucos quilômetros
O ajuste parece mínimo, mas muda o mapa de referência da astronomia planetária. O novo raio equatorial de Júpiter passa de 71.492 quilômetros para 71.488 quilômetros. O raio polar, mais sensível ao achatamento, cai de 66.854 para 66.842 quilômetros, uma diferença de 12 quilômetros em relação à estimativa usada por quase meio século.
Júpiter continua a ser, de longe, o maior planeta do Sistema Solar, mas a sua “silhueta” fica mais precisa. Para a equipe da missão Juno, esses números valem mais do que a simples curiosidade sobre o tamanho do planeta. “A ocultação de rádio é usada para ‘enxergar’ através das densas e opacas nuvens da atmosfera de Júpiter, a fim de compreender sua estrutura interna”, afirma a agência ao explicar a técnica que permitiu a revisão.
Como a Juno atravessa as nuvens de Júpiter
Os novos valores nascem de um esforço acumulado ao longo de anos. Pesquisadores analisam dados de ocultação de rádio registrados em 13 sobrevoos de Juno, sonda lançada em 2011 que orbita o planeta desde 2016. Nesses eventos, o sinal de rádio enviado pela nave para a Terra passa pela atmosfera de Júpiter e sofre pequenas distorções, que revelam detalhes invisíveis a olho nu.
Ao medir como essas ondas se curvam e se atrasam ao cruzar camadas de gás e nuvens, os cientistas conseguem reconstruir com mais fidelidade a fronteira física do planeta. O estudo incorpora também os efeitos dos ventos zonais, correntes intensas que circulam paralelas ao equador e moldam as faixas coloridas da atmosfera joviana. Esses ventos influenciam a distribuição de massa e, portanto, a forma exata do planeta.
As estimativas em vigor até agora vinham de uma era anterior da exploração espacial. Eram baseadas em apenas seis experimentos de ocultação de rádio realizados pelas sondas Pioneer e Voyager, na década de 1970. A diferença de meio século de tecnologia e volume de dados ajuda a explicar por que alguns quilômetros fazem tanta diferença num gigante gasoso com mais de 140 mil quilômetros de diâmetro.
Por que um raio mais preciso importa para outros mundos
A revisão da forma de Júpiter não afeta apenas os livros didáticos. A Nasa define o novo raio do planeta como um “padrão essencial de calibração” para o estudo de exoplanetas gigantes, mundos gasosos que orbitam outras estrelas. Quando esses planetas passam na frente de sua estrela, telescópios medem uma pequena queda de brilho. A profundidade e a duração dessa queda revelam o tamanho aproximado do planeta, mas a interpretação depende de modelos baseados em exemplos que conhecemos bem.
“Ter uma forma mais precisa ajudará os astrônomos a interpretar melhor os dados de planetas observados passando em frente à sua estrela hospedeira muito além da nossa vizinhança cósmica”, afirma a Nasa. Em outras palavras, o ajuste de 4 quilômetros no equador e 12 quilômetros nos polos de Júpiter aperta os parafusos das ferramentas usadas para estimar o tamanho e a estrutura de mundos gigantes que jamais veremos em detalhe.
Um modelo mal calibrado pode levar a erros em cascata. Diferenças no raio afetam estimativas de volume, densidade média e até da composição interna presumida de um planeta. Esses parâmetros, por sua vez, influenciam teorias sobre como esses corpos se formam, quanto calor retêm e como suas atmosferas evoluem ao longo de bilhões de anos. Em exoplanetas, são essas pistas que orientam a busca por ambientes estáveis e, em casos específicos, pela possibilidade de vida em luas que orbitam gigantes gasosos.
O que muda para a exploração espacial daqui para frente
As novas medidas alimentam diretamente as simulações usadas por missões atuais e futuras. Instrumentos em operação, como o Telescópio Espacial James Webb e observatórios terrestres de grande porte, dependem de modelos de trânsito planetário mais refinados para aproveitar ao máximo seus dados. Um Júpiter ligeiramente redesenhado serve como laboratório de teste para ajustar esses cálculos.
A própria Juno segue como peça central nesse processo. A sonda continua a sobrevoar Júpiter em órbitas muito alongadas, cruzando diferentes latitudes e altitudes. Cada novo sobrevoo oferece a chance de repetir medições e verificar se os números recém-divulgados resistem ao escrutínio. A missão também abre caminho para futuras sondas, destinadas às luas geladas do planeta, que carregam oceanos subterrâneos e entram, cada vez mais, no radar da busca por ambientes potencialmente habitáveis.
A revisão do raio de Júpiter expõe ainda uma dimensão menos óbvia da exploração espacial: quanto mais a tecnologia avança, mais o Sistema Solar deixa de ser um cenário estático. Distâncias que pareciam definitivas nos anos 1970 cedem lugar a um retrato em constante atualização. A pergunta agora é por quanto tempo os novos números de Júpiter permanecerão como padrão, até que outra geração de sondas volte a redesenhar, em poucos quilômetros, o mapa do maior planeta que conhecemos.
