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Junta quebrada em trilho causa acidente com 39 mortos na Espanha

Uma junta quebrada nos trilhos provoca o descarrilamento de dois trens de alta velocidade perto de Adamuz, no sul da Espanha, em meados de janeiro, e deixa ao menos 39 mortos. Técnicos apontam desgaste antigo em uma conexão entre seções de trilho como peça-chave para explicar o desastre. Autoridades evitam cravar causas, mas praticamente descartam erro humano.

Falha invisível em trilho recém-reformado

O choque entre os dois trens ocorre em um trecho que, segundo o governo espanhol, passa por uma reforma completa em maio do ano passado. A poucos quilômetros de Adamuz, na província de Córdoba, a cerca de 360 quilômetros ao sul de Madri, uma peça metálica que une duas seções de trilho se desgasta em silêncio. A folga aumenta a cada composição que passa, sem que as equipes de manutenção percebam o risco.

Peritos que trabalham no local descrevem o ponto quebrado como o centro da investigação. A peça, conhecida tecnicamente como talão de junção, funciona como um elo entre barras de aço que formam a via. Fotografias divulgadas pela Guarda Civil mostram um vão visível no trilho vertical, numerado pelos investigadores como cena de crime. Para um técnico ouvido sob condição de anonimato, “a junta defeituosa é fundamental para determinar a causa exata do acidente”.

A descrição desmonta, ao menos por ora, a hipótese mais comum em tragédias ferroviárias: a de erro de condução. O presidente da Renfe, Álvaro Fernández Heredia, que opera o segundo trem a descarrilar, afirma à rádio Cadena Ser que é cedo para apontar responsáveis, mas antecipa uma linha de defesa. Segundo ele, o acidente ocorre em “condições estranhas” e “o erro humano está praticamente descartado”.

Enquanto a via cede, a rotina oficial segue. Em 15 de janeiro, a Hitachi Rail, fabricante do modelo envolvido no desastre, inspeciona o trem da Iryo como parte da manutenção de rotina. A empresa não detecta anomalias e libera a composição. O trem é um Frecciarossa 1000, mesmo modelo em operação na rede de alta velocidade italiana, projetado para circular a mais de 300 km/h.

Como o descarrilamento se transforma em tragédia

Quando o trem operado pela privada Iryo passa pelo trecho defeituoso, nada indica uma falha iminente. Os primeiros vagões atravessam o vão sem sair dos trilhos. O oitavo e último vagão, porém, perde o alinhamento, sai da via e arrasta consigo o sétimo e o sexto. O conjunto invade a faixa contrária em alta velocidade, no momento em que um trem da Renfe se aproxima no sentido oposto.

Os vagões descarrilados atingem a composição da estatal espanhola com força suficiente para empurrá-la para fora da linha. Parte do trem cai em um barranco, o que amplia o número de vítimas e transforma o acidente em um dos piores desastres ferroviários recentes da Europa. O saldo preliminar sobe para 39 mortos e dezenas de feridos, em um país que investe pesadamente em trens de alta velocidade desde os anos 1990.

As imagens do local, com carros retorcidos e trilhos deformados, passam a circular enquanto as equipes de resgate ainda trabalham na retirada de passageiros. A cena contrasta com o discurso de modernização que acompanha o sistema ferroviário espanhol nas últimas décadas, considerado uma vitrine tecnológica da União Europeia. O choque entre promessa de eficiência e falha de infraestrutura alimenta a cobrança por responsabilidades.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez desembarca na região na manhã de segunda-feira, ao lado do ministro dos Transportes, Óscar Puente. Sánchez cancela a viagem ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, e sinaliza prioridade política para o caso. Puente, diante das câmeras, lembra que o trem da Iryo tem menos de quatro anos de uso e que a linha é reformada integralmente há menos de um ano. A combinação de tecnologia recente, manutenção em dia e falha grave no trilho expõe um ponto cego da fiscalização.

Responsabilidade em disputa e confiança em xeque

A investigação oficial fica a cargo da Comissão Espanhola de Investigação de Acidentes Ferroviários (CIAF), ligada ao Ministério dos Transportes. Até o momento, nem a CIAF nem a administradora da infraestrutura, Adif, respondem a pedidos formais de comentário. O silêncio alimenta dúvidas sobre o protocolo de inspeção de vias recém-reformadas e sobre a periodicidade de checagem de juntas e conexões, peças pequenas que podem desencadear colapsos de grandes proporções.

As operadoras envolvidas, Iryo e Renfe, tentam se afastar da imagem de negligência enquanto aguardam laudos. No bastidor, a disputa tende a se concentrar em três frentes: a qualidade da obra de reforma, o padrão de manutenção aplicado ao trecho e a responsabilização pela junta defeituosa. A presença da Hitachi Rail, responsável pela fabricação do trem, acrescenta um elemento industrial à equação, ainda que, até agora, as evidências apontem para a via, não para o material rodante.

Em termos econômicos, a tragédia ameaça a confiança no modelo de alta velocidade espanhol, que serve de vitrine em licitações internacionais e atrai operadores privados como a própria Iryo, controlada majoritariamente pelo grupo ferroviário estatal italiano Ferrovie dello Stato. A discussão sobre padrões de segurança tende a extrapolar fronteiras. Países que operam o Frecciarossa 1000 e redes semelhantes podem rever cronogramas de inspeção de trilhos, juntas e soldas, mesmo sem indícios de defeitos estruturais no trem.

No curto prazo, o impacto recai sobre passageiros que dependem da ligação entre Madri e o sul do país. A interrupção parcial da linha, somada ao temor de novas falhas, pressiona o governo a oferecer alternativas de transporte e prazos claros para a retomada total do serviço. A imagem de um sistema rápido, confiável e competitivo com o transporte aéreo entra em xeque, com reflexos sobre tarifas, demanda e planos de expansão.

Investigação técnica e pressão política

Os próximos dias são decisivos para a definição de responsabilidades. A CIAF analisa fragmentos da junta quebrada, registra medições da folga entre os trilhos e cruza os dados com históricos de manutenção. Peritos procuram responder uma pergunta central: em que momento o desgaste atinge um nível que deveria ter disparado um alerta e interrompido a circulação no trecho?

A resposta interessa não só às famílias das vítimas, mas também a governos e reguladores de outros países europeus. Protocolos de inspeção, hoje baseados em conjuntos de normas técnicas e auditorias periódicas, podem ganhar camadas adicionais de controle, com sensores, monitoramento remoto e limites mais rígidos para o tempo de uso de determinadas peças. A discussão sobre quem paga essa conta, operadoras ou Estado, tende a dominar o debate político.

Enquanto laudos não ficam prontos, a Espanha tenta equilibrar luto e pragmatismo. O governo promete transparência, mas ainda não detalha mudanças concretas na fiscalização. As empresas, por sua vez, reforçam discursos de compromisso com a segurança, sem antecipar eventuais revisões de procedimentos. O contraste entre a rapidez dos trens e a lentidão das respostas institucionais mantém aberta a principal questão deixada pelos trilhos quebrados em Adamuz: quem deveria ter visto a falha antes que ela matasse 39 pessoas?

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