Júnior Mano desiste de Senado e declara apoio à reeleição de Cid Gomes
O deputado federal Júnior Mano (PSB) anuncia, nesta sexta-feira (13), em Nova Russas (CE), que abre mão de disputar o Senado em 2026 para apoiar a reeleição de Cid Gomes (PSB). A decisão é apresentada como gesto de lealdade política e tentativa de reforçar a frente governista no Ceará.
Lealdade pública e recuo calculado
O movimento é revelado em um evento público na cidade natal do parlamentar, no interior cearense. Diante de aliados e lideranças locais, Mano afirma que considera a reeleição de Cid um “processo natural” na política do estado e se dispõe a ceder espaço na disputa majoritária. O gesto contrasta com sinalizações anteriores de que o senador poderia não buscar novo mandato em 2026.
No palanque, o deputado adota um tom de devoção política ao ex-governador. “Se o senhor tiver preparado e quiser ir para a reeleição, não vai quebrar uma palavra comigo não. Estou junto com o senhor, para o que der e vier, onde for. Estarei no PSB para a gente montar as políticas públicas”, declara. Em seguida, reforça o vínculo pessoal e político com o senador. “Você é um cara que me deu a mão, os braços e as pernas, e agradeço. Gratidão a gente paga com gratidão”, afirma.
A fala ocorre em meio às articulações antecipadas para a eleição de 2026, quando duas cadeiras do Ceará no Senado entram em disputa. O nome de Júnior Mano vinha sendo testado como possível sucessor de Cid numa das vagas da base governista. A manifestação pública de apoio redesenha o tabuleiro antes mesmo da definição oficial das chapas.
O recuo também preserva o espaço de Mano dentro do PSB, partido ao qual se filia após longa trajetória por siglas como o extinto Patriota e o PL, legenda da qual é expulso em 2024. No novo partido, ele se aproxima de Cid e de outros caciques regionais, numa tentativa de se consolidar como quadro de projeção estadual.
Investigação da PF muda peso político do apoio
A estratégia de alinhamento ganha outro contorno após 2025, quando a Polícia Federal passa a investigar um suposto esquema de desvio de emendas parlamentares ligado ao nome do deputado. Segundo relatório acessado pelo PontoPoder, o dinheiro público abasteceria a compra de votos em municípios cearenses e envolveria ao menos outros quatro deputados federais do estado. Nenhum deles aparece como indiciado no documento até agora.
A defesa de Júnior Mano nega qualquer irregularidade, critica as conclusões da PF e fala em vazamento seletivo de informações. Advogados de outros investigados, como o empresário Bebeto, dizem que só se manifestam nos autos. Enquanto o inquérito avança, o capital político do deputado sofre desgaste, e a aposta no apoio a Cid funciona também como tentativa de ancorar sua trajetória em um nome de maior densidade eleitoral.
Parlamentares e dirigentes partidários ouvidos reservadamente avaliam que a desistência, ainda que informal, reduz o nível de conflito interno na montagem das chapas proporcionais e majoritárias em 2026. Ao sair da fila do Senado, Mano tende a concentrar esforços na renovação de seu mandato na Câmara ou em negociações para ocupar espaços em alianças regionais. O cálculo leva em conta não apenas a força eleitoral de Cid, mas também o impacto das investigações sobre a competitividade de uma candidatura ao Senado.
O gesto de Mano fortalece o argumento de que o PSB pretende manter, no Senado, figuras de alta capilaridade no estado. Cid, ex-governador, acumula quase duas décadas no centro das disputas cearenses, com passagens pelo Executivo e pelo Legislativo e influência sobre prefeitos e lideranças municipais. A possível reeleição preserva esse eixo de poder, num momento em que partidos testam novos nomes para 2026.
Reorganização do tabuleiro e próximos passos
A sinalização de Mano pressiona outras forças políticas a revisarem seus planos. Pré-candidatos ao Senado no campo governista passam a calibrar discursos e alianças considerando a presença de Cid na corrida. Na oposição, dirigentes veem a movimentação como alerta de que a base tenta chegar a 2026 com palanque mais coeso, em meio a disputas nacionais e à disputa pelo governo estadual em 2026.
Analistas ouvidos por lideranças partidárias avaliam que o gesto de lealdade tem duplo efeito. Num primeiro momento, reforça a imagem de Mano como aliado disciplinado, o que pode garantir espaço em negociações internas, mesmo sob o desgaste das investigações federais. Num segundo, consolida a leitura de que Cid ainda é peça central na política cearense, capaz de atrair apoios mesmo quando admite, em público, não ter certeza sobre disputar a reeleição.
A decisão final sobre candidaturas só deve se cristalizar nos próximos meses, com as convenções partidárias e a definição oficial das chapas. Até lá, o gesto de Júnior Mano funciona como marcador de posição no jogo sucessório e como teste para medir a disposição de Cid em permanecer no Senado. A dúvida que fica, em Brasília e em Fortaleza, é se o tabuleiro continuará estável quando as investigações avançarem e o calendário eleitoral apertar.
