Juiz do Tribunal de Impostos e Taxas é resgatado após sequestro em SP
O juiz e auditor fiscal Samuel de Oliveira Magro, do Tribunal de Impostos e Taxas de São Paulo, é resgatado pela Polícia Civil na manhã desta terça-feira (20) após passar quase dois dias em cativeiro. Ele é sequestrado na noite de domingo (18), na avenida Rebouças, zona oeste da capital, e consegue acionar a polícia ao usar uma palavra secreta em ligação para o companheiro.
Ligação com palavra secreta desencadeia operação
A noite de domingo termina de forma abrupta para Samuel, magistrado ligado à Secretaria Estadual da Fazenda. Ele dirige pela avenida Rebouças, nas proximidades da rua Oscar Freire, quando é abordado por criminosos. O grupo domina o juiz, leva o carro e o conduz para um cativeiro na divisa entre São Paulo e Osasco, região de circulação intensa, mas longe de olhares atentos.
Nas horas seguintes, o magistrado permanece sob vigilância de sequestradores que, segundo a polícia, o obrigam a autorizar o acesso ao próprio apartamento. O síndico do prédio recebe uma mensagem de Samuel liberando a entrada para uma vistoria. O procedimento destoa da rotina do condomínio e acende o primeiro alerta entre pessoas próximas. Não há sinal de arrombamento ou invasão, o que reforça, para os investigadores, a hipótese de coação dentro do cativeiro.
A reação decisiva ocorre quando Samuel consegue falar por telefone com o companheiro, Paulo. A conversa, em tese corriqueira, carrega um código combinado pelo casal para situações de risco. Ao ouvir a palavra secreta, Paulo entende que algo está errado e procura imediatamente a polícia. “Ele usou a senha que a gente tinha combinado. Na hora eu soube que ele estava em perigo”, relata Paulo a investigadores, segundo informações apuradas pelo g1.
O alerta chega à Delegacia Antissequestro, vinculada ao Departamento de Operações Policiais Estratégicas, e ao Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos. As equipes começam a rastrear sinais, cruzar dados de localização e montar a rota provável do carro e dos suspeitos. As quase 36 horas entre o sequestro e o resgate são de trabalho contínuo, com monitoramento de possíveis movimentações financeiras e tentativas de deslocamento dos criminosos.
Resgate expõe nova face da coação contra autoridades
No início da manhã desta terça-feira, policiais localizam o cativeiro na região limítrofe entre São Paulo e Osasco. A operação é rápida e silenciosa. Samuel é encontrado vivo, sem ferimentos graves, e levado para atendimento médico e depoimento. Cinco suspeitos são presos no local e encaminhados à sede da Delegacia Antissequestro, que funciona no prédio do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, no centro da capital.
Os investigadores tratam o caso como sequestro-relâmpago com características ampliadas. Em vez de apenas saques e transferências imediatas, o grupo teria mirado também o acesso ao apartamento e a possibilidade de obter informações sensíveis. O apartamento, segundo a polícia, não apresenta sinais externos de violência, o que indica um uso calculado da autoridade do próprio juiz, sob ameaça. A linha de apuração inclui a análise de celulares, câmeras de segurança e eventuais tentativas de movimentar valores em contas bancárias.
O episódio lança holofotes sobre a segurança de magistrados e servidores de áreas sensíveis, como a tributária. O Tribunal de Impostos e Taxas julga processos administrativos que envolvem autuações fiscais, multas milionárias e disputas entre contribuintes e o Estado. Decisões tomadas ali podem alterar, em poucos votos, o destino financeiro de empresas e pessoas físicas. A condição de juiz do TIT coloca Samuel em um círculo de autoridades acostumadas a lidar com pressões, mas nem sempre preparadas para o risco de violência física fora do ambiente profissional.
Especialistas em segurança consultados pela reportagem veem no caso sinais de um padrão em transformação. Sequestradores deixam de mirar apenas empresários visíveis e passam a incluir autoridades de bastidores, com acesso a informações estratégicas. Protocolos como palavras-chave, rotas variadas e checagem de pedidos incomuns em condomínios ganham peso. “Esse caso mostra que, para alguns grupos, o alvo não é só o dinheiro imediato, mas também o ambiente íntimo e profissional da vítima”, avalia um policial ouvido sob reserva.
Pressão por novos protocolos e próximos passos da investigação
As prisões desta terça-feira fortalecem o discurso de reação ao sequestro-relâmpago em São Paulo, crime que se adapta a novas tecnologias e brechas de segurança. A atuação conjunta da Delegacia Antissequestro e do Garra reforça a aposta em resposta rápida nas primeiras 24 a 48 horas, período considerado crítico para preservar a integridade das vítimas. No caso de Samuel, a combinação entre código pessoal e ação policial coordenada encurta o tempo de cativeiro e reduz o espaço de manobra dos criminosos.
O governo paulista e as entidades que representam magistrados e auditores discutem o reforço de medidas de proteção. A agenda passa por orientação de rotina, apoio psicológico e canais diretos de contato com equipes especializadas. A experiência de Samuel deve alimentar treinamentos internos e servir de estudo de caso em cursos de formação, tanto na área jurídica quanto na segurança pública.
Os cinco suspeitos presos prestam depoimento e podem responder por sequestro, extorsão e associação criminosa. A polícia busca identificar se o grupo já atuou em outros casos com o mesmo método e se há mandantes ou informantes externos. O histórico de processos sob responsabilidade de Samuel, por envolver disputas tributárias de alto valor, também entra no radar da investigação, embora ainda não haja indicação pública de ligação direta entre decisões do juiz e o sequestro.
O caso reacende uma pergunta incômoda para o sistema de Justiça e para a segurança pública: até que ponto autoridades que lidam com decisões sensíveis estão protegidas fora do gabinete? A resposta, na prática, passa pela capacidade de transformar episódios isolados em políticas permanentes de prevenção. Enquanto isso não ocorre, a palavra secreta usada por um juiz em meio ao medo se torna símbolo da distância entre o que já se faz e o que ainda falta fazer.
