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Juiz decreta prisão de delegada por elo com PCC e alerta para risco de narcoestado

A Justiça de São Paulo decreta a prisão preventiva da delegada recém-empossada Layla Lima Ayub, suspeita de ligação com o PCC, na manhã desta sexta-feira (16/1). A decisão, assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, acende um alerta sobre a infiltração do crime organizado nas estruturas do Estado e menciona o risco de o Brasil estar “a poucos passos” de se tornar um narcoestado.

Decisão expõe infiltração do crime em estruturas do Estado

O caso sai do campo policial e entra no centro do debate institucional. Layla, recém-aprovada em concurso para a Polícia Civil de São Paulo, é apontada pelo Ministério Público como peça de uma estratégia de cooptação do Primeiro Comando da Capital. O juiz da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores afirma, na decisão, que a suspeita de aliciamento de agentes públicos por facções representa ameaça direta ao Estado Democrático de Direito.

Ao justificar a prisão preventiva, Paulo Fernando Deroma De Mello destaca que a atuação de integrantes do crime organizado dentro da própria máquina estatal rompe a linha que separa governo e facção. “De fato, se comprovado que o PCC arregimentou a investigada para passar em um concurso público de delegada de Polícia, sobretudo no Estado mais populoso e com o maior quadro de policiais do país, pode-se afirmar, sem qualquer dúvida, que, se já não nos tornamos um narcoestado, estamos a poucos passos disso”, escreve o magistrado.

O termo narcoestado, usado em decisões judiciais de outros países da América Latina, descreve um cenário em que o tráfico de drogas e o crime organizado passam a ditar regras dentro do poder público. No Brasil, a citação aparece em um momento de avanço financeiro e territorial das facções, em especial do PCC, que nasce em presídios paulistas nos anos 1990 e hoje projeta influência em vários estados e fronteiras internacionais.

A prisão de Layla ocorre em São Paulo, mas as investigações cruzam fronteiras estaduais. O namorado da delegada, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, também é preso. Segundo os investigadores, ele é apontado como responsável pelo comando do tráfico de armas e drogas em Roraima, um dos corredores estratégicos do narcotráfico na região Norte, próximo à fronteira com a Venezuela e a Guiana.

Atuação irregular e audiências em favor de presos ligados ao PCC

O inquérito que leva à prisão preventiva não se limita à vida privada da delegada. Promotores relatam que, mesmo após tomar posse como delegada em São Paulo, Layla segue atuando de forma irregular como advogada, o que a lei não permite a policiais em atividade. Em pelo menos uma audiência de custódia, ela teria defendido presos ligados a organizações criminosas, incluindo o PCC.

As audiências de custódia são as primeiras apresentações de um preso a um juiz, em geral em até 24 horas após a detenção. Nesses encontros, o magistrado avalia a legalidade da prisão e define se o suspeito segue preso, responde em liberdade ou cumpre medidas alternativas. A participação de uma agente do Estado, com a caneta e o distintivo de delegada, na defesa de integrantes de facção, cria, na avaliação do Judiciário, um conflito de interesse que corrói a confiança no sistema.

Na decisão, o juiz ressalta que a eventual cooptação de uma delegada recém-empossada tem peso simbólico e prático. A Polícia Civil de São Paulo é a maior do país em efetivo e orçamento. O ingresso de alguém sob influência direta de uma facção nesse universo, ainda mais em fase inicial de carreira, abre espaço para vazamento de informações sigilosas, manipulação de inquéritos e proteção a redes de lavagem de dinheiro.

A investigação atinge também o modelo de seleção e controle interno da própria corporação. Concursos públicos costumam ser apresentados como barreira técnica contra o apadrinhamento político e o crime organizado. A hipótese de que o PCC teria investido na aprovação de uma candidata em um concurso de alto nível aciona um alerta que vai além de São Paulo e alcança outros estados e carreiras estratégicas, como Ministério Público, Defensoria e Judiciário.

Risco de narcoestado pressiona instituições e política de segurança

A expressão usada por De Mello ecoa nas estruturas de segurança. O juiz afirma que a presença de organizações criminosas em cargos-chave do Estado coloca o Brasil “a poucos passos” de se tornar um narcoestado. Na prática, esse risco significa perda de capacidade de investigação, captura seletiva da lei, desvio de recursos públicos e tomada de decisões orientadas pelo interesse de facções, e não pelo interesse coletivo.

Especialistas em segurança pública ouvidos ao longo dos últimos anos alertam que o PCC adota, de forma sistemática, três frentes de expansão: controle de presídios, domínio de rotas de tráfico e infiltração silenciosa em órgãos estatais. A prisão de uma delegada recém-empossada por suspeita de ligação com a facção reforça a percepção de que a terceira etapa ganha força. O episódio tende a intensificar cobranças por investigações internas, cruzamento de dados em concursos e monitoramento permanente de servidores em áreas sensíveis.

A repercussão política é imediata. Governos estaduais sofrem pressão para demonstrar controle sobre as corporações policiais e sobre as cadeias de comando. No plano federal, o caso alimenta o debate sobre cooperação entre estados, Polícia Federal e órgãos de inteligência para rastrear conexões entre agentes públicos e facções. O impacto sobre a opinião pública é direto: a imagem de uma delegada algemada por suspeita de servir ao PCC mina a confiança em instituições já marcadas por denúncias de corrupção e excesso de força.

Famílias de vítimas de violência e moradores de áreas dominadas pelo tráfico acompanham o caso com ceticismo. Para quem vive sob toque de recolher imposto por facções, a notícia de que criminosos alcançam cargos de comando no próprio Estado reforça a sensação de abandono. A fronteira entre polícia e crime, que deveria ser nítida, aparece, mais uma vez, borrada.

Investigações avançam e caso testa reação do Estado ao PCC

A prisão preventiva de Layla Lima Ayub abre uma nova fase da investigação. Promotores e policiais precisam agora comprovar, com documentos, mensagens, registros financeiros e depoimentos, se houve de fato um projeto do PCC para colocá-la dentro da Polícia Civil e de que forma ela teria atuado em favor da facção. O celular da delegada e de Jardel Neto Pereira da Cruz deve se tornar peça central nessa etapa, assim como quebras de sigilo bancário e telemático.

Em paralelo, corregedorias e ouvidorias tendem a revisar casos em que Layla participou, tanto como advogada quanto, mais recentemente, como delegada. Processos penais que envolveram acusados ligados ao crime organizado e que contaram com sua atuação podem ser reavaliados. A checagem busca identificar possíveis interferências na tramitação de inquéritos, no acesso a informações e na proteção de alvos estratégicos do PCC.

Autoridades da segurança pública e do sistema de Justiça enfrentam agora uma questão central: até onde vai a infiltração das facções nas estruturas do Estado e que tipo de reforma institucional é necessária para contê-la. O caso Layla Ayub, ainda em sua fase inicial, já funciona como termômetro da capacidade do Brasil de reagir ao avanço do crime organizado sobre o coração da máquina pública. A resposta que vier das próximas decisões, investigações e condenações dirá se o país se afasta do risco de narcoestado ou apenas reconhece, tardiamente, o tamanho do problema.

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