Juca Kfouri expõe privilégio na cela de Bolsonaro e reacende debate
O jornalista Juca Kfouri volta suas baterias para o presídio Papudinha, no Distrito Federal, e para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em crônica publicada em janeiro de 2026, ele descreve a cela de 55 m² ocupada pelo condenado e ironiza as queixas da família sobre as condições da prisão.
Uma “mini-Papuda” com cara de apartamento
A cela especial de Bolsonaro na Papudinha, unidade anexa ao Complexo da Papuda, parece mais um pequeno apartamento do que um espaço prisional comum. O ambiente inclui quarto, banheiro, lavanderia, cozinha, sala e uma área externa de 10,07 m². Há geladeira, chuveiro com água quente, armários, cama de casal, televisão e possibilidade de instalação de fogão, uma estrutura distante da realidade da maioria dos presos brasileiros.
Na coluna intitulada “O Papudo na Papuda”, publicada no UOL, Kfouri chama o espaço de “quase um latifúndio improdutivo” e destaca que o ex-presidente, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, desfruta de condições que “99,9% dos detentos no Brasil adorariam”. O contraste cresce quando se observa o mercado imobiliário: segundo dados do Secovi-SP, de janeiro a junho de 2025 foram lançadas 61,1 mil unidades residenciais em São Paulo. Destas, 60% tinham entre 30 m² e 45 m² e 25% tinham menos de 30 m². Mais de 85% dos novos apartamentos, portanto, são menores que a cela de Bolsonaro.
Kfouri usa essa comparação para enquadrar o discurso da família, que reclama do tratamento dado ao ex-presidente e chegou a falar em “tortura”. “Agora que o vagabundo está preso pede o tal esterco, reivindica, chora e se vitimiza”, escreve o jornalista, lembrando que Bolsonaro, ainda na vida parlamentar, vestiu camisa com a frase: “Direitos Humanos: esterco da vagabundagem”.
O abismo entre a cela de Bolsonaro e o sistema prisional
O texto de Kfouri ganha peso ao colocar lado a lado a Papudinha e um retrato duro do sistema prisional em São Paulo. Ele cita o Centro de Detenção Provisória do Belém, na capital paulista, onde cada cela tem 3 metros de frente por 4 de fundo, com três beliches triplos. Em cada cama dormem dois homens, cabeça com pés, e as celas abrigam entre 25 e 30 presos, o que deixa de 7 a 12 detentos no chão, na chamada “praia”. O CDP, segundo a crônica, abriga 1.400 detentos, com apenas um médico para atendê-los.
Nesse cenário, a cela de 55 m² na Papudinha se torna símbolo de privilégio e desigualdade dentro do sistema penal. Enquanto boa parte das unidades prisionais enfrenta superlotação crônica, falta de higiene e acesso precário à saúde, o ex-presidente tem quarto separado, área externa e atendimento médico permanente. Kfouri questiona até quem ficará responsável por limpar o espaço. “Quem vai varrer o chão cheio de migalhas e restos de comida que o porcalhão espalha ao comer?”, provoca.
A crônica também revisita o discurso de Bolsonaro sobre punição e encarceramento ao longo da carreira política. O ex-presidente se opôs à ampliação de direitos para presos, atacou saidinhas e prisão domiciliar e defendia que detentos deveriam “sofrer”. Kfouri lembra que Bolsonaro exaltou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, apontado como torturador na ditadura, e classifica como irônica a tentativa dos aliados de enquadrar a permanência na Papudinha como abuso ou perseguição.
Do discurso da força ao silêncio nas ruas
O texto publicado no UOL também confronta o histórico de bravatas do ex-presidente com o percurso recente do caso. Kfouri recorda que Bolsonaro prometeu que “só Deus” o tiraria da cadeira presidencial, que nunca entregaria o celular, que jamais usaria tornozeleira eletrônica e que não seria preso. Hoje, o ex-presidente cumpre pena após condenação, já entregou o telefone, aceitou a tornozeleira e foi transferido de uma cela da Polícia Federal para a Papudinha em busca de mais conforto, depois de reclamar até do barulho do ar-condicionado.
Ao narrar essa sequência, Kfouri associa a queda física e política do ex-presidente à gestão da pandemia de Covid-19, apontando responsabilidade por centenas de milhares de mortes. Lembra o bordão “chega de mimimi, país de maricas” e repete o grito “acabou, porra!”, agora na boca de democratas que, segundo ele, celebram o fim da era de bravatas. Na crônica, Bolsonaro aparece como “fanfarrão covarde”, incapaz de sustentar o discurso de dureza diante do cotidiano da prisão.
A reação nas ruas, até aqui, também compõe o quadro traçado pelo jornalista. Kfouri destaca o contraste entre as ameaças de ruptura feitas por apoiadores nos últimos anos e a ausência de mobilização expressiva após a prisão. Os aliados que prometiam convulsão social assistem a um país que segue a rotina, sem vigílias permanentes em frente ao presídio nem grandes manifestações. “Seus cúmplices que anunciavam revolta popular […] testemunham uma Nação que dorme em paz o sono dos justos”, escreve.
Pressão por transparência e debate sobre privilégios
A repercussão da crônica extrapola o universo esportivo, de onde Kfouri se tornou conhecido, e empurra para o centro do debate público a pergunta sobre o tratamento a presos poderosos. A descrição minuciosa da cela e a comparação com o CDP do Belém alimentam cobranças por transparência nas condições de encarceramento de políticos, empresários e figuras públicas condenadas. Entidades de direitos humanos apontam que a discussão não deve ser sobre reduzir Bolsonaro ao padrão degradante, mas sobre por que esse padrão ainda é regra para a maior parte da população carcerária.
O caso também reacende a disputa em torno do próprio conceito de direitos humanos. A família Bolsonaro, que durante anos associou o tema à defesa de criminosos, agora pede garantias, conforto e atenção especial ao ex-presidente. A mudança de posição serve de munição para críticos, que veem oportunismo e seletividade na forma como o grupo entende justiça. Para aliados do ex-presidente, as condições diferenciadas seriam justificadas pelo cargo que ele ocupou e pela necessidade de segurança.
Nos bastidores políticos, o episódio pressiona o governo federal e o sistema de Justiça a dar respostas sobre critérios para celas especiais, custos da manutenção desses espaços e eventuais reformas na legislação. A Papudinha, transformada em símbolo por Kfouri, passa a ser observada por parlamentares, entidades e pela opinião pública como um teste da capacidade do Estado de tratar de forma isonômica quem comete crimes, independentemente do peso do sobrenome.
As próximas semanas devem mostrar se a crítica de Juca Kfouri ficará restrita às páginas de opinião ou se se converterá em pressão institucional por mudanças. A cela de 55 m², maior que a de mais de 85% dos apartamentos lançados em São Paulo em 2025, cristaliza um dilema que o país adia há décadas: como conciliar punição, direitos básicos e igualdade de tratamento em um sistema prisional marcado por excessos e omissões. A resposta a essa pergunta definirá, em parte, o alcance real da condenação de Jair Bolsonaro.
