Jovem perdido 5 dias no Pico Paraná vira rosto de campanha de fast food
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O estudante Roberto Faria Thomaz, 19, que ficou cinco dias perdido na trilha do Pico Paraná após ser abandonado por uma amiga em janeiro de 2026, vira agora protagonista de uma campanha nacional de uma gigante do fast food. A marca usa a experiência extrema do jovem para associar sua imagem à ideia de resiliência e superação.
Da noite gelada da serra ao set de filmagem
Roberto deixa a cidade de Curitiba numa manhã de verão, em meados de janeiro, acreditando que faria apenas mais uma caminhada entre amigos. Ele segue para o Pico Paraná, ponto mais alto do Sul do Brasil, com 1.877 metros de altitude e trilhas que exigem preparo físico, planejamento e, sobretudo, lealdade entre os companheiros de percurso.
Horas depois de iniciar a subida, a trilha se torna mais íngreme, a neblina baixa e o grupo se fragmenta. Roberto fica para trás, se sente cansado, tenta avisar. A amiga que caminhava com ele decide seguir em frente. Ele perde o contato visual e, em poucos minutos, também o referencial de caminho. A tarde avança, o celular perde sinal e a temperatura cai de forma brusca, chegando a menos de 10 °C no topo naquela noite.
Os dias seguintes são de sobrevivência improvisada. Roberto bebe água de riachos, se protege como pode da chuva e do vento, raciona pequenos lanches que levava na mochila. Sem barraca adequada e com roupas leves, enfrenta noites sucessivas de frio intenso. O corpo emagrece, o tempo se dilata, a esperança oscila a cada barulho distante que poderia ser de uma equipe de resgate.
Ele é encontrado no quinto dia, desidratado, exausto e desorientado, em um trecho lateral da trilha. Socorristas relatam que o jovem apresenta sinais de hipotermia leve e escoriações, mas permanece consciente. A história corre pelas redações, ocupa telejornais e dispara nas redes. Em poucas horas, o nome de Roberto se torna sinônimo de resistência e de uma linha tênue entre aventura e tragédia.
Um mês depois, o cenário é outro. Em vez de mato fechado e lama, ele encara refletores, equipe de filmagem e gravações que se estendem por mais de 12 horas em um estúdio na Região Metropolitana de Curitiba. A grande rede de fast food, interessada em dialogar com o público jovem, oferece um contrato publicitário e constrói uma narrativa de renascimento, do fundo do poço à retomada da rotina. O cachê não é divulgado, mas, segundo profissionais do mercado, campanhas nacionais do tipo podem render cifras de cinco a seis dígitos para o protagonista.
História real, marketing agressivo e debate público
A campanha, prevista para circular em TV aberta, plataformas de streaming e redes sociais ao longo de 2026, aposta na ideia de que ninguém enfrenta desafios sozinho. As peças recriam, em cenários controlados, parte da experiência na montanha, com closes no rosto cansado de Roberto, trilha sonora em crescendo e o corte final para o ambiente iluminado de uma loja da rede. O slogan, que faz jogo com o verbo “aguentar” e a noção de fome, tenta unir o drama pessoal à promessa de conforto rápido oferecido pelo sanduíche.
Consultores de comunicação veem uma estratégia calculada. O caso real, ocorrido entre 10 e 15 de janeiro, oferece uma linha narrativa clara: abandono, medo, sobrevivência, resgate e reconstrução. A empresa entra no roteiro no último ato, quando o protagonista reaparece de pé, sorrindo, cercado de amigos em torno de uma mesa. O apelo à resiliência conversa com pesquisas de consumo que apontam que mais de 60% dos jovens de 18 a 24 anos valorizam marcas que contam histórias de superação, segundo levantamentos recentes do setor.
Roberto passa a ser reconhecido nas ruas, em shoppings e terminais de ônibus. Colegas de faculdade, vizinhos e desconhecidos o abordam para comentar a história. Nas redes, perfis de montanhismo e páginas de humor disputam espaço com a hashtag criada pela própria campanha, que alcança milhões de visualizações poucos dias após o lançamento. O jovem, que antes encarava a trilha como passatempo eventual, se vê de repente transformado em símbolo de coragem e, também, em ativo comercial de alto valor para uma multinacional.
O episódio reacende debates sobre responsabilidade em ambientes naturais e sobre os limites da publicidade ao explorar experiências traumáticas. Usuários questionam o papel da amiga que o deixa para trás no começo da subida e exigem mais detalhes sobre as condições da caminhada, o preparo do grupo e a estrutura de resgate da região. Outros destacam o mérito de Roberto em manter a calma durante o isolamento prolongado e defendem o direito do jovem de monetizar uma experiência que quase termina em tragédia.
Profissionais de montanhismo lembram que o Pico Paraná acumula incidentes semelhantes há pelo menos duas décadas, com desaparecimentos pontuais e resgates complexos que se estendem por dias. Relatórios de grupos de busca indicam que grande parte dos problemas envolve inexperiência, falta de equipamento e subestimação das condições climáticas. A história de Roberto, amplificada por uma rede global, funciona como atalho para um alerta antigo: ninguém deveria entrar em trilha exigente sem planejamento detalhado, combinação clara com o grupo e respeito às orientações técnicas.
Segurança nas trilhas, imagem de marca e o dia seguinte
O impacto prático se espalha por diferentes frentes. Guias e agências que atuam na região do Pico Paraná relatam aumento nas consultas desde o final de janeiro, quando o caso vem à tona. Em menos de três semanas, páginas dedicadas ao montanhismo registram crescimento relevante no número de seguidores e de mensagens sobre equipamentos mínimos, formação de grupos e protocolos de emergência. A procura por cursos básicos de trilha e orientação pode subir mais de 30% nos primeiros meses do ano, segundo estimativas de instrutores locais.
Nas redes sociais, a discussão sobre amizade em situações de risco ganha corpo. Comentários questionam se abandonar alguém na trilha não equivale a uma quebra de confiança irreparável. A amiga que segue adiante sem Roberto vira personagem indireta em memes, críticas e desabafos sobre responsabilidade afetiva e cuidado mútuo. A narrativa publicitária, ao destacar o jovem como vencedor, contrasta com o silêncio oficial sobre a relação entre os dois, o que alimenta a curiosidade e também algum desconforto.
A empresa de fast food, por sua vez, colhe engajamento expressivo. Postagens com o rosto de Roberto acumulam, em poucas horas, centenas de milhares de curtidas, compartilhamentos e comentários em diferentes plataformas. Especialistas lembram que a associação com uma história de sobrevivência pode reforçar a percepção de marca próxima do cotidiano real, em um momento em que consumidores cobram autenticidade e coerência. A aposta, porém, carrega riscos: parte do público acusa a gigante de transformar em peça de entretenimento um episódio de sofrimento extremo.
Para o jovem paranaense, o contrato abre portas e também impõe dilemas. A visibilidade repentina traz ofertas de palestras, convites para eventos e convocações para falar sobre resiliência em escolas e empresas. A experiência traumática se converte em narrativa de inspiração, repetida em vídeos de poucos minutos, entrevistas e bastidores de campanha. A linha entre memória pessoal e roteiro de marketing se torna mais tênue a cada nova postagem.
Autoridades ligadas ao turismo e à preservação ambiental avaliam usar a história em campanhas oficiais de segurança, com foco em planejamento, equipamento adequado e respeito aos limites físicos. Organizações que atuam na região estudam reforçar sinalização de trilhas, criação de pontos de apoio e sistemas de alerta mais eficientes. A discussão sobre quem paga essa conta, se o poder público, empresas privadas ou frequentadores, deve dominar o debate local nos próximos meses.
Roberto ainda lida com a própria recuperação emocional. A fama recente não apaga a lembrança de cinco noites de incerteza no coração da serra, nem a sensação de estar completamente sozinho. A história, agora em circulação em escala nacional, deixa uma pergunta em aberto: até que ponto o país está disposto a aprender com esse alerta de janeiro de 2026, antes que a próxima trilha cobrada pela montanha cobre um preço mais alto.
