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Jovem morre após suspeita de intoxicação em aula de natação em SP

A professora Juliana Faustino Bassetto, 27, morre no sábado (7) após passar mal durante uma aula de natação na academia C4 Gym, no Parque São Lucas, zona leste de São Paulo. A suspeita da Polícia Civil é de intoxicação por inalação de produtos químicos usados na limpeza da piscina, que também afetam outros alunos.

Aluna passa mal em aula e morre antes de chegar ao hospital

Juliana chega à academia no fim da manhã de sábado para mais uma aula de natação. Ela frequenta a unidade com o marido, Vinícius de Oliveira, que também entra na piscina. Minutos depois do início da atividade, alunos relatam cheiro forte vindo da água e do ambiente fechado. O desconforto se espalha rápido. Juliana começa a se sentir mal, deixa a piscina e desmaia.

Outros dois frequentadores apresentam sintomas semelhantes, segundo o boletim de ocorrência. Tosse intensa, dificuldade para respirar e ardência nos olhos levam funcionários a interromper a aula às pressas. A direção da C4 Gym aciona o resgate e suspende todas as atividades na área aquática. Juliana é socorrida, mas não resiste. O marido permanece internado em estado grave desde então.

Investigadores trabalham com a hipótese de que uma mistura inadequada de substâncias usadas na limpeza da piscina libere gases tóxicos dentro do espaço fechado. Produtos como cloro e outros agentes desinfetantes, quando combinados de forma errada ou em excesso, podem formar vapores irritantes para pulmões e mucosas. A perícia coleta amostras da água e do ar para análise toxicológica.

Nas redes sociais, amigos descrevem Juliana como dedicada ao magistério e à própria rotina de cuidados com a saúde. Ela se identifica como espírita, pratica ioga com regularidade e se apresenta como “mãe de pet”, sempre acompanhada da cachorra em fotos publicadas até poucos dias antes da morte. A imagem contrasta com a violência súbita do mal-estar na piscina, que transforma uma manhã de sábado em tragédia.

Comoção expõe falhas em segurança química em ambientes fechados

O caso ganha repercussão imediata em São Paulo e nas redes sociais. Moradores do Parque São Lucas relatam preocupação com o uso de produtos químicos em clubes, academias e condomínios que mantêm piscinas cobertas. Em grupos de bairro, pais de crianças que fazem aulas de natação cobram explicações. A pergunta que se repete é se acidentes assim poderiam ser evitados com regras mais rígidas.

A limpeza de piscinas depende de equilíbrio fino entre desinfecção e segurança. Profissionais da área explicam que o cloro é essencial para combater bactérias e vírus, mas se torna perigoso em altas concentrações ou quando reage com outras substâncias. Em ambientes fechados e com pouca ventilação, qualquer erro de dosagem ou de mistura pode gerar acúmulo de gás acima do tolerável para o organismo humano.

Autoridades sanitárias e especialistas lembram que não há, hoje, um controle sistemático sobre a rotina de manutenção de piscinas em boa parte das academias do país. As normas técnicas existem, mas a fiscalização costuma ser irregular e, muitas vezes, reativa, acionada apenas depois de um acidente grave. A morte de uma mulher de 27 anos em um espaço de lazer indoor expõe esse descompasso entre a teoria dos protocolos e a prática do dia a dia.

Em nota publicada no Instagram, a direção da C4 Gym lamenta a morte de Juliana e afirma prestar apoio à família e aos demais alunos afetados. A empresa diz que interrompe imediatamente as atividades na piscina ao tomar conhecimento do ocorrido e garante que segue “todas as orientações das autoridades competentes”. Até a noite desta segunda-feira (9), a academia não esclarece que tipo de produto é usado na limpeza da água nem se havia procedimento específico naquele sábado.

O velório de Juliana acontece na manhã desta segunda-feira, no Velório Avelino, no Jardim Avelino, zona leste. O enterro está marcado para as 14h, no Cemitério da Quarta Parada. Familiares evitam falar em responsabilização pública enquanto ainda aguardam o laudo da perícia, mas cobram, em conversas reservadas, que a morte da jovem não seja tratada como “fatalidade”.

Investigação mira responsabilidade e pode mudar regras em academias

A Polícia Civil abre inquérito para apurar responsabilidade criminal. A investigação busca entender quem manipula os produtos químicos da piscina, qual é a capacitação desse funcionário e se há registro atualizado de manutenção. O foco é verificar se a academia cumpre normas de segurança previstas em legislações municipais e estaduais e em resoluções sanitárias que tratam de piscinas coletivas.

A Secretaria Municipal da Saúde é comunicada do caso e deve avaliar se a unidade passa por inspeção recente. Especialistas defendem que a prefeitura e o governo do Estado atualizem parâmetros de fiscalização, criem vistorias periódicas obrigatórias e exijam registro detalhado das aplicações químicas em ambientes aquáticos fechados. A ideia é que qualquer piscina de uso coletivo, pública ou privada, comprove não apenas a qualidade da água, mas também a segurança do ar em volta dela.

Entidades do setor de academias afirmam, em conversas reservadas, que muitos estabelecimentos pequenos terceirizam a manutenção das piscinas para empresas de limpeza, o que dificulta a atribuição de culpa quando algo dá errado. Advogados ouvidos pela reportagem apontam que o Código de Defesa do Consumidor prevê responsabilidade objetiva do prestador de serviço, o que pode abrir caminho para ações civis de indenização por danos morais e materiais.

Enquanto a investigação avança, a morte de Juliana se torna símbolo de um alerta mais amplo. Frequentadores de academias começam a perguntar que produto é usado na água, se o espaço é ventilado o suficiente e qual é o plano de emergência em caso de intoxicação. A comoção não se restringe ao Parque São Lucas e alcança redes de natação infantil, clubes sociais e condomínios que exibem piscinas aquecidas como atrativo.

O desfecho do inquérito, os laudos toxicológicos e eventuais processos judiciais devem definir se o caso vai resultar em mudanças concretas nas regras para o setor. Até lá, permanece em aberto a questão que move familiares, alunos e especialistas: quantas outras piscinas, em São Paulo e no país, operam hoje sob o mesmo risco silencioso que matou Juliana?

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