Jovem de 18 anos acusa ministro do STJ Marco Buzzi de assédio sexual
Uma jovem de 18 anos acusa o ministro Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), de assédio sexual ocorrido em 9 de janeiro de 2026, em Balneário Camboriú (SC). A denúncia descreve toques sem consentimento no mar, após encontro na casa do magistrado na praia do Estaleiro.
Relação de confiança vira centro de investigação
A acusação surge de uma relação antiga entre a família da jovem e o ministro. Em depoimento à Polícia Civil de São Paulo, ela afirma que considerava Marco Buzzi como um avô e confidente, figura presente desde a infância, próximo dos pais e especialmente da mãe, advogada conhecida por atuação nos tribunais superiores.
O episódio que hoje está sob investigação começa dois dias antes do crime atribuído ao ministro. Em 7 de janeiro, a jovem viaja com a mãe para Balneário Camboriú, a convite de Buzzi e da esposa. Elas se hospedam em uma casa do magistrado, nas proximidades da praia do Estaleiro, um dos pontos mais valorizados do litoral catarinense. O pai só se junta à família em 9 de janeiro, mesma data em que a jovem diz ter sido assediada.
Em seu relato, ela conta que o ministro sempre se colocou como conselheiro, inclusive na escolha do curso de Direito. Essa proximidade é citada para reforçar o choque com a mudança brusca de comportamento atribuída ao magistrado durante os dias na praia.
Na manhã seguinte à chegada, a jovem diz que vai à praia acompanhada de Buzzi. Vestindo apenas um biquíni, ela se senta em uma cadeira diante do condomínio enquanto checa mensagens do estágio pelo celular. Nesse momento, segundo o depoimento, o ministro questiona se ela é lésbica e “se não sentiria atração por homens, já que possui uma namorada”. Ela responde que é bissexual. A conversa marca, para a vítima, um ponto de inflexão na relação.
Em seguida, ainda de acordo com o relato, o ministro a convida para entrar no mar. A jovem estranha quando ele sugere que os dois caminhem cerca de 400 metros para longe do guarda-sol, sob o argumento de que a água estaria mais calma. Ela diz que o mar já está tranquilo perto de onde estavam, mas acompanha o magistrado.
Dentro d’água, a situação descrita pela jovem ganha contornos de assédio. Em depoimento à Polícia Civil paulista, ela afirma que “pôde sentir o pênis de Marco” em duas investidas atribuídas ao ministro. Conta ainda que ele passa a mão nas nádegas dela, tudo sem consentimento. O desconforto, segundo a vítima, é imediato. Ela relata que tenta se afastar e encerrar o banho de mar.
O caso, inicialmente mantido em sigilo restrito à família e às autoridades, passa a ter um novo capítulo quando a jovem procura formalmente a Polícia Civil de São Paulo. O depoimento é registrado e, dias depois, ela reafirma toda a narrativa à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em audiência realizada em 5 de fevereiro de 2026. A segunda oitiva dá peso institucional à acusação e leva o episódio para o centro do debate sobre conduta de membros de cortes superiores.
Reação do ministro, impacto no Judiciário e debate sobre assédio
Com a denúncia sob análise em duas frentes, policial e administrativa, o caso atinge diretamente a imagem do Superior Tribunal de Justiça. Marco Buzzi, que integra o STJ desde 2011, afasta-se de suas funções após apresentar atestado médico de 10 dias. A medida é comunicada internamente enquanto a defesa prepara a reação pública.
Em nota, o ministro nega o crime de assédio sexual e afirma que aguarda o momento adequado para apresentar provas que, segundo ele, desmontam as acusações. A manifestação não entra em detalhes, mas tenta conter o desgaste imediato. O afastamento, embora tenha caráter médico, funciona na prática como um escudo institucional enquanto o caso se desenvolve.
A presença de uma autoridade de alto escalão no centro de uma denúncia desse tipo amplia a repercussão para além da esfera criminal. Entidades ligadas à defesa de mulheres e à integridade do Judiciário cobram apuração rigorosa e transparente. Integrantes de tribunais superiores ouvidos reservadamente avaliam que o episódio pressiona o CNJ a dar uma resposta rápida, sob risco de alimentar a percepção de corporativismo.
O fato de a vítima ser jovem, ter 18 anos recém-completados, e descrever o ministro como figura quase familiar, reforça discussões sobre abuso de poder e de confiança. A praia do Estaleiro, cenário do encontro, deixa de ser apenas um ponto turístico para se tornar símbolo de um limite rompido, segundo a narrativa apresentada às autoridades.
Especialistas em direito penal e em assédio sexual ouvidos por veículos do setor jurídico lembram que toques sem consentimento, em contexto de investidas de cunho sexual, podem caracterizar crime, mesmo sem relato de penetração ou violência física evidente. A discussão agora se desloca para a capacidade do sistema de Justiça de julgar um de seus próprios integrantes com o mesmo rigor aplicado a cidadãos comuns.
Enquanto isso, a jovem segue formalmente na posição de vítima e testemunha. Ela relata às autoridades o impacto emocional do episódio e a frustração por ver desmanchada uma relação de confiança construída ao longo de anos. A família, que até então transitava com naturalidade em ambientes de cúpula do Judiciário, agora se vê no papel de acusadora de um ministro em exercício.
Investigações, possíveis punições e o que está em jogo
O caso tramita em ritmo ainda inicial, mas com potencial de produzir efeitos duradouros. Na esfera criminal, a investigação da Polícia Civil de São Paulo reúne depoimentos, mensagens e eventuais registros de deslocamento para reconstruir a linha do tempo do dia 9 de janeiro em Balneário Camboriú. As autoridades também podem buscar testemunhos de pessoas que estavam na casa ou na praia do Estaleiro naquele período.
No Conselho Nacional de Justiça, a Corregedoria analisa o depoimento prestado em 5 de fevereiro e avalia a abertura de procedimento formal contra o ministro. Em casos que envolvem magistrados de tribunais superiores, o CNJ pode recomendar desde advertência até afastamento e processo administrativo disciplinar, que, em situações extremas, pode culminar em perda de cargo, dependendo de decisão do Senado.
O episódio tende a influenciar discussões internas sobre protocolos de prevenção e resposta a denúncias de assédio envolvendo juízes e servidores. Tribunais já possuem normas sobre assédio moral e sexual, mas a participação de um ministro de corte superior expõe lacunas percebidas por movimentos de mulheres, que pedem canais mais acessíveis e proteção efetiva às denunciantes.
Organizações da sociedade civil acompanham o caso como termômetro da disposição do sistema de Justiça em enfrentar comportamentos abusivos dentro de suas próprias estruturas. A forma como o STJ e o CNJ conduzem a apuração pode definir se o episódio será visto como ponto de virada ou como mais um caso encerrado sem mudanças profundas.
Nos próximos meses, a tendência é que novos depoimentos e manifestações oficiais venham a público, ampliando a pressão sobre as instituições. A jovem mantém sua versão diante de duas instâncias distintas e o ministro promete apresentar provas em sua defesa. Entre a palavra da vítima e a reação de uma das mais altas cortes do país, o desfecho desse embate dirá até onde vai a tolerância do Judiciário com denúncias de assédio sexual dentro de suas próprias fileiras.
