JHC elogia Lula em entrega do Minha Casa Minha Vida em Maceió
O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PL), usa a tribuna para elogiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em pleno palanque federal. Nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, os dois dividem o palco na capital alagoana durante a celebração de 2 milhões de moradias contratadas pelo Minha Casa, Minha Vida e a entrega de 1.337 casas populares na cidade.
Elogio em terreno político sensível
O gesto rompe a zona de conforto da direita local. Em um gramado cercado por conjuntos recém-erguidos, JHC se dirige a Lula com deferência incomum entre líderes do PL. “Não tenha dúvidas, presidente, de que o povo saberá reconhecer todos os seus esforços”, afirma o prefeito, ao lado de ministros, parlamentares e lideranças do PT em Alagoas.
Lula participa da cerimônia que marca o alcance de 2 milhões de moradias contratadas pelo programa habitacional desde 2023, segundo o governo federal. Em Maceió, o pacote inclui as 1.337 unidades do Residencial Dr. Pedro Teixeira Duarte I e II, sete ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e 17 unidades odontológicas móveis, voltadas ao atendimento em áreas de maior vulnerabilidade.
O evento projeta uma cena improvável poucos anos atrás. Maceió é a única capital do Nordeste em que Jair Bolsonaro (PL) vence Lula em 2022. Em 2024, JHC se reelege com 83,25% dos votos válidos e promete fazer da cidade “um ponto de ressonância” da direita na região. Nesta manhã de sexta, o mesmo prefeito fala em “pacto” com o Planalto petista.
A escolha das palavras não soa casual. Com Lula ao lado, JHC afirma que o presidente tem “DNA no social” e reivindica para a cidade um lugar no mapa das prioridades federais. “Sua parceria tem sido fundamental e muito importante para que a gente dê continuidade a uma série de avanços e de sonhos que temos para a nossa cidade. Isto só é possível porque temos o olhar sensível do governo federal”, diz.
Moradia, saúde e cálculo político
O cenário material ajuda a ancorar a mudança de tom. As novas casas do Minha Casa, Minha Vida atendem famílias que deixam áreas de risco e ocupações precárias em Maceió. Em um estado marcado por desastres ambientais e déficit habitacional histórico, a entrega de 1.337 moradias e a promessa de continuidade do programa oferecem uma resposta concreta a um problema antigo.
A ampliação da frota do SAMU e a chegada das 17 unidades odontológicas móveis reforçam a agenda social do evento. Os equipamentos devem reforçar o atendimento em bairros periféricos, onde a falta de acesso a serviços básicos pressiona o sistema de saúde municipal. O governo Lula tenta, com isso, associar números e obras visíveis a uma narrativa de reconstrução de políticas públicas após o desmonte de programas sociais nos últimos anos.
Para JHC, o palanque serve também como vitrine nacional. O prefeito é apontado como potencial candidato ao Senado ou ao governo de Alagoas nas eleições de outubro. A imagem ao lado de Lula, em um evento com impacto direto na vida de milhares de famílias, sinaliza disposição para dialogar com o governo federal e ampliar pontes para além do eleitorado bolsonarista que o impulsionou.
O movimento não começa hoje. A aproximação com o Planalto ganha força quando a tia do prefeito, a desembargadora Marluce Caldas, entra na disputa por uma vaga no Superior Tribunal de Justiça. Naquele momento, aliados de JHC indicam ao entorno de Lula que o prefeito está disposto a apoiar a reeleição do presidente em troca de um alinhamento institucional mais estreito.
O encontro em Maceió cristaliza essa convergência em torno de um ativo político sensível: a política social. Ao elogiar o “olhar sensível do governo federal”, JHC tenta se afastar da polarização mais estridente e se apresentar como gestor pragmático, interessado em resultados concretos. A plateia, composta por beneficiários do programa habitacional, servidores públicos e militantes, reage com aplausos aos afagos cruzados.
Reação da direita e disputa por narrativas
O gesto não passa sem custo. Minutos depois de o vídeo do discurso circular nas redes sociais, bolsonaristas de Alagoas transformam o elogio a Lula em munição política. O vereador Leonardo Dias (PL), principal rosto da direita na capital, reage em tom duro. “O povo só tem uma coisa a reconhecer em Lula e no seu governo — o seu histórico de escândalos e corrupção envolvendo seus familiares e seu entorno”, escreve em uma rede social.
A crítica expõe a fissura dentro do próprio PL em Maceió. Enquanto JHC se senta à mesa com Lula e defende um “pacto” entre gestões municipal e federal, parte da base que ajudou a reelegê-lo se refugia no discurso de confronto direto com o petismo. O episódio explicita a tensão entre a retórica ideológica e a necessidade de assegurar recursos e obras para a cidade.
Na prática, a parceria entre prefeitura e governo federal garante não apenas as novas moradias, mas também financiamentos e convênios em áreas como saneamento, mobilidade e saúde. Em um município com forte dependência de transferências da União, romper pontes com Brasília significa abrir mão de investimentos de alto impacto. O cálculo político de JHC parte desse dado: sem alinhamento mínimo com o Planalto, promessas de campanha viram letra morta.
O elogio público a Lula, por outro lado, cobra um preço entre eleitores que ainda veem o presidente do PT como adversário irreconciliável. A disputa por narrativas já mira outubro. A direita tenta colar no prefeito o rótulo de aliado do petismo, enquanto o entorno de JHC aposta que a memória das obras e programas sociais será mais forte que o desgaste nas redes.
Alianças em teste até outubro
O evento desta sexta-feira marca mais que a inauguração de conjuntos habitacionais. Em uma cidade onde Bolsonaro vence Lula em 2022, o palanque compartilhado em Maceió antecipa o tipo de composição que deve se repetir pelo país em 2026: prefeitos e governadores de partidos de direita negociando com Brasília em nome de obras e programas.
O próximo capítulo passa pelas urnas. Caso confirme a candidatura ao Senado ou ao governo estadual, JHC terá de comprovar se o eleitor que o reelege com 83,25% dos votos aceita a guinada pragmática em direção ao Planalto. Lula, por sua vez, testa em Maceió a capacidade de furar a resistência em redutos bolsonaristas usando a combinação de tijolo, ambulância e consultório móvel.
A entrega das 1.337 moradias, das sete ambulâncias do SAMU e das 17 unidades odontológicas cria fatos concretos que atravessam a retórica nas redes. A disputa agora é para saber quem capitaliza politicamente esses resultados e até que ponto a promessa de “pacto” entre prefeitura e governo federal resiste à temporada eleitoral que se aproxima.
