Jantar de R$ 2,7 mi em Londres expõe relações de banqueiro com STF
Um jantar de luxo em Londres, em abril de 2024, reúne a cúpula dos Três Poderes em homenagem ao ministro Alexandre de Moraes. A noite termina em um after secreto, controlado por broches, que dá acesso a um espaço com mulheres apelidadas de “suicinhas”, bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Da mesa de gala ao after do broche
O roteiro da homenagem ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes começa com pompa e termina em constrangimento político. Durante três dias, em Londres, o banqueiro Daniel Vorcaro financia um pacote de luxo que inclui voos em primeira classe, jatinhos, hospedagem no hotel The Peninsula London e uma festa no clube Annabel’s, um dos endereços mais exclusivos da elite global.
O ponto alto oficial ocorre no jantar do Annabel’s, em abril de 2024. A conta chega a 400 mil libras, cerca de R$ 2,74 milhões no câmbio da época. Ao som do DJ francês Hugel e de outros artistas, entre eles o cantor britânico Seal, autoridades brasileiras circulam entre mesas decoradas e copos de uísque Macallan, rótulo que pode custar dezenas de milhares de reais a garrafa nas versões mais raras.
O evento reúne integrantes da cúpula dos Três Poderes, convidados para celebrar o papel de Moraes no comando do STF e no enfrentamento a ataques às instituições. A homenagem coincide com o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, patrocinado pelo banco Master, ligado a Vorcaro. Em mensagens privadas, o banqueiro se gaba para a então noiva, a influenciadora Martha Graeff, de discursar diante dos ministros. “Eu sou muito louco. Essa realidade. Todos ministros do Brasil, do STF, do STJ etc. E euzinho discursando”, escreve.
Depois do jantar, o clima muda de registro. Um grupo seleto recebe broches discretos, espécie de credencial física para um after party ainda mais reservado. O acesso leva à suíte presidencial do The Peninsula London, hotel de altíssimo luxo ao lado do Hyde Park e do Wellington Arch, onde diárias variam de R$ 8 mil a R$ 22 mil, dependendo da categoria do quarto.
No ambiente restrito, segundo relatos colhidos pela Polícia Federal, circulam mulheres apelidadas de “suicinhas”. A distribuição dos broches chama atenção. Convidados começam a perguntar entre si quem recebeu o acessório, quem foi chamado para a etapa seguinte da festa e quem preferiu recusar o convite. A apuração aponta que autoridades presentes rejeitam a oferta de participar do after, cientes do potencial explosivo da situação.
Relatório da PF liga festa a investigações no STF
O episódio deixa de ser apenas uma extravagância privada quando aparece descrito, em detalhes, em um relatório de 200 páginas da Polícia Federal. O documento investiga as relações entre o ministro Dias Toffoli e Daniel Vorcaro e acaba se tornando peça central para o afastamento de Toffoli da relatoria de um caso que envolve o próprio banqueiro no Supremo.
No último capítulo, a PF reconstrói a sequência da homenagem em Londres, com foco na presença de Toffoli, então relator do processo. O relatório menciona o jantar no Annabel’s, a hospedagem no Peninsula e os mimos oferecidos pelo anfitrião, como a degustação do uísque Macallan. Não há indicação de que o ministro participe do chamado “after do broche”.
O texto também registra a participação de Alexandre de Moraes, homenageado da viagem, acompanhado da mulher, Viviane. Eles aparecem na parte oficial da agenda, mas não integram o grupo direcionado ao after secreto na suíte presidencial. A PF destaca a coincidência entre a viagem institucional, o patrocínio empresarial e a oferta de regalias privadas a autoridades.
O relatório, revelado em meio a um ambiente já tenso entre Judiciário e opinião pública, alimenta a percepção de promiscuidade entre mundo político, empresariado de alto risco e instâncias máximas do Judiciário. O caso se junta a uma sequência de episódios recentes em que autoridades são flagradas em jantares, viagens e eventos bancados por empresários interessados em decisões de impacto bilionário.
A festa em Londres ganha ainda mais peso simbólico porque ocorre no exterior, em um cenário pensado para exclusividade e discrição. O Annabel’s se define como mistura de restaurante de luxo, balada, espaço de networking e “sociedade secreta” da elite. O after na suíte presidencial leva essa lógica ao limite, com uma camada adicional de segregação garantida por broches personalizados.
Ética, imagem do STF e próximos passos
A repercussão do episódio pressiona o STF em um momento em que a Corte tenta reforçar sua autoridade e responder a críticas de abuso de poder e distanciamento da realidade do país. A imagem de ministros circulando em eventos de altíssimo luxo, ainda que sem participação em áreas mais sensíveis da festa, alimenta o discurso de que existe um mundo à parte para quem ocupa o topo dos Três Poderes.
A revelação do after do broche também reabre o debate sobre os limites de relacionamento entre autoridades e figuras do mercado financeiro. Quando um banqueiro paga R$ 2,74 milhões em um jantar, mais voos em jatinhos e diárias em hotel cujo mínimo beira R$ 8 mil, a pergunta central deixa de ser o cardápio e passa a ser a contrapartida esperada. Mesmo na ausência de prova de vantagem indevida, o desgaste ético é imediato.
Para a PF, o caso em Londres compõe um mosaico mais amplo de relações que envolvem negócios, decisões judiciais e influência política. A retirada de Dias Toffoli da relatoria, após o avanço das investigações, sinaliza uma tentativa de blindar o processo de suspeitas e reduzir o risco de nulidades futuras. Ao mesmo tempo, lança sombra sobre decisões passadas em que o ministro e o banqueiro aparecem em lados convergentes.
No curto prazo, o episódio tende a alimentar pedidos de transparência sobre viagens, hospedagens e eventos custeados por terceiros para ministros de tribunais superiores e demais autoridades. A discussão inclui a adoção de regras mais claras sobre brindes, patrocínios e participação em fóruns empresariais.
O dossiê da PF ainda pode gerar novas frentes de apuração interna no STF e no Conselho Nacional de Justiça, além de ações de controle externo no Congresso. A narrativa de uma festa de altíssimo luxo, atravessada por broches seletivos e a presença de “suicinhas”, ganha força como símbolo de uma cultura de poder que opera longe dos olhos do eleitor. A resposta institucional a esse tipo de episódio dirá se se trata de um ponto fora da curva ou de um modo de relação que o país segue disposto a tolerar.
