Jaguaretama cancela Carnaval 2026 por seca grave e morte de secretário
A Prefeitura de Jaguaretama, no Vale do Jaguaribe, cancela o Carnaval de 2026 e anuncia que vai direcionar os recursos da festa para ações contra a seca. A decisão, divulgada nesta terça-feira (20), também leva em conta o luto pela morte do secretário de Infraestrutura e Urbanismo, José Abílio Rodrigues Xavier, ocorrida em 16 de janeiro.
Decisão une crise hídrica e luto recente
O anúncio é feito pelo prefeito Marcos Cunha (PSB) em vídeo publicado nas redes sociais no fim da manhã. Ele lembra que o Município já reconhece situação de emergência em áreas atingidas pela estiagem desde 2025 e diz que a previsão de um “inverno irregular e fraco” em 2026 torna insustentável manter a programação de Carnaval, que ocorreria entre 13 e 17 de fevereiro, com o domingo festivo marcado para 15 de fevereiro.
No vídeo, o prefeito vincula a decisão ao clima de comoção causado pela morte de José Abílio, aos 57 anos, em 16 de janeiro. Trinta dias depois da perda, a data do domingo de Carnaval coincide com o marco de um mês do falecimento. “Juntando isso com o falecimento do nosso amigo Abílio Xavier, lembrando que dia 15 agora, domingo de Carnaval, no caso 15 de fevereiro, completa-se 30 dias de falecimento do nosso secretário. Juntamente, toda a gestão pública decidiu por um motivo de força maior, cancelar essa festa”, afirma Cunha.
O gestor ressalta que o planejamento da folia já estava em andamento, com contratação de artistas e estrutura em discussão. Ele afirma, no entanto, que a combinação entre estiagem severa e luto interno muda a ordem de prioridades. “Lembrando sempre, a gente vai ter outros eventos. Ao longo do ano, nós vamos ter grandes festas que já estavam programadas, o Carnaval já estava programado, mas os planos de Deus são outros”, diz.
O Município não detalha valores previstos para a programação de Carnaval, mas, em cidades do mesmo porte, orçamentos de festas de médio porte podem alcançar centenas de milhares de reais em quatro noites de evento, incluindo cachês, som, iluminação, segurança e estrutura de trânsito. Em Jaguaretama, a orientação agora é redirecionar cada contrato possível para obras e serviços ligados à segurança hídrica.
Recursos migram da folia para poços e adutoras
Na mesma gravação, Marcos Cunha explica que a prioridade imediata é ampliar a oferta de água em comunidades rurais e distritos mais afetados pela seca. A prefeitura planeja contratar maquinário para perfuração de poços profundos e acelerar a construção de adutoras, tubulações que levam água de mananciais até as casas. A estimativa interna é que, com o redirecionamento, seja possível viabilizar novas frentes de obra já no primeiro semestre de 2026.
Jaguaretama integra o Vale do Jaguaribe, região que há anos depende de açudes em níveis críticos e de carros-pipa em períodos mais duros de estiagem. A combinação de chuvas irregulares e reservatórios esvaziados pressiona o orçamento municipal. Com a declaração de emergência ainda em 2025, a cidade passa a ter acesso facilitado a medidas de apoio estadual e federal, mas precisa comprovar contrapartidas e organização das próprias contas.
A decisão de cortar o Carnaval repercute entre comerciantes que contam com o aumento de fluxo de visitantes, sobretudo bares, restaurantes, pequenos hotéis e ambulantes. Parte deles teme queda de faturamento em fevereiro, mês historicamente forte para o turismo interno. No discurso oficial, a gestão argumenta que a preservação de serviços básicos, como abastecimento de água e manutenção de estradas vicinais, garante condições mínimas para que a economia local continue funcionando ao longo do ano.
A prefeitura também decreta luto de três dias pela morte de José Abílio, responsável por comandar justamente a área de Infraestrutura e Urbanismo. A ausência do secretário, que acompanha de perto obras viárias e intervenções em sistemas de abastecimento, pesa na avaliação de prioridades. A gestão admite que a reorganização da pasta deve atrasar parte do cronograma de obras urbanas, mas afirma que as ações emergenciais ligadas à seca seguem como foco.
Em conversas reservadas, aliados do prefeito relatam que a equipe técnica já vinha discutindo cortes em eventos desde o fim de 2025, diante da piora dos indicadores de chuva. A morte de Abílio acelera a decisão e dá à medida um caráter também simbólico, de respeito à trajetória do secretário e de resposta às cobranças por responsabilidade fiscal em ano de restrição hídrica.
Outras cidades seguem caminho e festa perde espaço
O movimento de Jaguaretama não é isolado no Ceará. Em 5 de janeiro, a Prefeitura de Tauá, no Sertão dos Inhamuns, anuncia o cancelamento do Carnaval de 2026 pelas redes sociais. A prefeita Patrícia Aguiar (PSD) afirma que a meta é garantir “equilíbrio financeiro” e preservar investimentos em saúde, educação e outros serviços essenciais. “Realizar um evento de grande porte neste momento não seria compatível com a nossa meta de manter as contas em dia e os investimentos em áreas prioritárias”, diz a nota.
Em Tauá, a administração alega que o custo de uma programação de cinco dias, com atrações regionais e estrutura de grande porte, comprometeria a capacidade de pagamento de fornecedores e servidores ao longo do ano. A opção é reforçar as áreas de saúde básica, transporte escolar, merenda e folha de pagamento, em um cenário em que prefeituras cearenses enfrentam queda de repasses e aumento de despesas obrigatórias.
As decisões de Jaguaretama e Tauá revelam um ajuste de rota que atinge uma das festividades mais tradicionais do calendário. Em vez de disputar artistas e montar palcos com som de grande porte, as gestões preferem mostrar austeridade e tentar traduzir esse discurso em apoio político. Prefeitos e prefeitas apostam que o eleitor entende melhor um Carnaval cancelado do que torneiras secas ou unidades de saúde sem insumos em março e abril.
Especialistas em contas públicas veem nesse tipo de medida um recado ao Tribunal de Contas e ao Ministério Público, que ampliam a vigilância sobre gastos festivos em municípios endividados ou em emergência climática. Ao priorizar obras de abastecimento de água, prefeituras esperam reduzir o risco de punições por descumprir o mínimo constitucional em áreas como saúde e educação, tema que ganha peso na disputa por recursos federais.
Pressão da estiagem deve pautar 2026 nos municípios
Em Jaguaretama, o teste começa agora. A população aguarda detalhes sobre quantos poços profundos serão perfurados, quais comunidades receberão as primeiras adutoras e em que prazos as obras saem do papel. Sem metas claras, o corte do Carnaval corre o risco de se transformar apenas em um gesto simbólico, sem retorno concreto para quem enfrenta filas por água em carros-pipa.
O prefeito Marcos Cunha promete divulgar, ainda no primeiro trimestre, um cronograma de intervenções hídricas com datas e metas físicas. A expectativa é que, até 15 de fevereiro, quando se completa um mês da morte de José Abílio e a cidade sentiria o auge da folia, parte desses projetos já esteja licitada. O desafio é conciliar a burocracia de obras públicas com a urgência de famílias que contam baldes e cisternas em litros.
O gesto de abrir mão do Carnaval em nome da água e do luto coloca Jaguaretama e Tauá sob observação de outros gestores municipais. Se as medidas se traduzirem em poços funcionando, torneiras cheias e serviços em dia, o exemplo pode servir de modelo em anos de estiagem cada vez mais frequente. Se ficarem apenas no discurso, a conta recai novamente sobre quem paga impostos e espera, ano após ano, que a seca deixe de ser argumento e passe a ser prioridade real de governo.
