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Israel recupera corpo de último refém de 7 de outubro em Gaza

As autoridades israelenses confirmam, nesta segunda-feira (26), a identificação e a recuperação do corpo de Ran Gvili, 24, último refém mantido em Gaza após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. O policial de forças especiais morre naquele dia e tem o corpo levado ao enclave palestino, onde permanece por mais de dois anos.

Dor encerrada, guerra ainda aberta

A devolução dos restos mortais de Gvili encerra um capítulo que se arrasta por 842 dias para a família, para as forças de segurança e para a sociedade israelense. A cada nova rodada de negociações, o nome do jovem policial aparece em faixas, cartazes e atos em Tel Aviv, lembrado como símbolo dos reféns que não voltam vivos.

O anúncio vem em meio a um cessar-fogo frágil entre Israel e Hamas, firmado em outubro sob pressão de potências regionais e do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump. O governo israelense condiciona a abertura plena da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, e o avanço para a segunda fase do plano de paz em Gaza à devolução de todos os reféns, vivos e mortos.

Ran Gvili serve na Polícia de Forças Especiais israelense quando, na manhã de 7 de outubro de 2023, integrantes do Hamas cruzam a fronteira e lançam o ataque que reabre a guerra em Gaza. Segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), ele cai em combate naquele mesmo dia e tem o corpo levado ao território controlado pelo grupo palestino.

“Após um processo de identificação conduzido pelo Centro Nacional de Medicina Legal em conjunto com a Polícia de Israel e o Rabinato Militar, as autoridades notificaram a família de que seus restos mortais haviam sido identificados e seriam levados para o sepultamento”, afirma o Exército em comunicado. Em publicação nas redes sociais, a IDF informa, em inglês: “The deceased hostage SFC Ran Gvili has been identified and will be returned for burial”.

Negociações, pressões e o peso dos reféns

O corpo de Gvili deixa Gaza em um momento em que o dossiê dos reféns segue no centro da diplomacia internacional. A troca de prisioneiros, a devolução de corpos e o acesso humanitário a Gaza tornam-se moedas de negociação entre Israel e Hamas desde o primeiro cessar-fogo, ainda em 2023, e voltam ao centro da mesa com o acordo de trégua costurado em 2025.

Trump, que chama o entendimento mais recente de “primeiro passo rumo a uma paz forte, duradoura e eterna”, pressiona publicamente as duas partes por resultados visíveis. A libertação de reféns vivos ocorre em ondas sucessivas, combinada com a entrada de caminhões de ajuda e com promessas de reconstrução da Faixa de Gaza, que incluem, segundo o plano liderado pelos Estados Unidos, uma área projetada para até 180 arranha-céus.

No terreno, esse movimento convive com a devastação de bairros inteiros, deslocamentos em massa e disputa por cada gesto simbólico. A permanência do corpo de Gvili em Gaza transforma-se em um desses símbolos. Movimentos civis em Israel cobram, desde o fim de 2023, que o governo trate a devolução de corpos com a mesma prioridade atribuída aos reféns sobreviventes.

Israel sinaliza essa prioridade ao atrelar, de forma explícita, a libertação e devolução de todos os reféns, incluindo mortos, aos próximos passos do plano de paz. A passagem de Rafah, eixo da circulação de mercadorias e pessoas no sul da Faixa de Gaza, permanece sob regime de abertura parcial. Autoridades israelenses indicam que a abertura completa só ocorre após o encerramento da questão dos reféns.

Para o Hamas, a posse dos corpos reforça poder de barganha em uma mesa em que quase tudo está em disputa: controle político de Gaza, prioridade na reconstrução, presença ou não de uma força internacional e o futuro de suas próprias armas. A direção do grupo já admite, em declarações recentes, estar disposta a abrir mão da governança direta do território sob um acordo de trégua mais amplo.

O que muda com o fim da lista de reféns

A identificação de Ran Gvili fecha a contagem oficial dos reféns de 7 de outubro que permanecem em poder do Hamas ou cujos corpos ainda estão em Gaza. Do ponto de vista da segurança israelense, isso significa que o governo consegue declarar cumprida uma das metas públicas apresentadas após o ataque de 2023: trazer de volta, vivos ou mortos, todos os levados para o enclave.

Na prática, esse marco destrava pressões internas sobre o gabinete de guerra, que enfrenta críticas tanto de familiares de reféns quanto de alas mais duras da coalizão governista. Para os primeiros, cada dia de atraso nas negociações representa uma vida em risco ou um corpo longe de casa. Para os segundos, qualquer concessão ao Hamas é vista como sinal de fraqueza estratégica.

No plano diplomático, a devolução do último corpo tende a reduzir um dos argumentos usados por Israel para manter a cautela na implementação integral do cessar-fogo. Intermediadores regionais, como Egito, Catar e Jordânia, insistem que a normalização do fluxo em Rafah e o avanço para a segunda fase do acordo — que inclui maior presença de autoridades civis palestinas em Gaza — já não podem ser adiados indefinidamente.

O futuro da própria Faixa de Gaza permanece condicionado ao equilíbrio entre reconstrução e desmilitarização. O plano de reconstrução apoiado por Washington projeta bairros verticais com cerca de 180 edifícios altos, uma tentativa de acomodar, em espaço limitado, centenas de milhares de pessoas deslocadas. Esse desenho urbano só se concretiza se o cessar-fogo se sustenta e se armas pesadas deixam de circular em áreas civis.

Trump adota tom de ultimato em relação ao Hamas, dizendo que o grupo deve entregar as armas ou “será aniquilado”. Ao mesmo tempo, tenta vender o pacote de reconstrução como oportunidade histórica para transformar Gaza em vitrine de uma nova ordem regional, apoiada por países árabes aliados e ancorada em investimentos bilionários.

Trégua em suspenso e perguntas em aberto

A família de Ran Gvili se prepara agora para um enterro que mistura luto tardio e alívio por poder cumprir ritos religiosos interrompidos desde 2023. As cerimônias devem ocorrer ainda nesta semana, em cemitério militar israelense, sob forte atenção da opinião pública.

O capítulo pessoal se encerra, mas a história política permanece em aberto. O cessar-fogo entre Israel e Hamas continua descrito, mesmo por seus articuladores, como temporário e frágil. Qualquer violação na fronteira, novo lançamento de foguetes ou atraso em etapas do acordo pode reacender a espiral de violência.

A devolução do último refém morto remove um obstáculo simbólico importante, mas não responde às perguntas centrais sobre o dia seguinte em Gaza: quem governa, quem garante a segurança e quem paga a conta da reconstrução. As decisões dos próximos meses dirão se o corpo de Ran Gvili volta a Israel como sinal de encerramento de uma fase da guerra ou apenas como mais um marco em um conflito que insiste em não terminar.

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