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Israel propõe pacto de paz com Líbano e põe desarmamento do Hezbollah na mesa

Israel anuncia neste sábado (11) disposição para negociar um “pacto de paz verdadeiro” com o Líbano, em meio à escalada da guerra contra o Hezbollah. As conversas diretas, inéditas em décadas, ocorrem sob mediação dos Estados Unidos e já expõem divergências sobre cessar-fogo e desarmamento do grupo libanês.

Netanyahu mira paz duradoura enquanto bombas continuam caindo

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirma que está pronto para um acordo amplo com Beirute. Ele condiciona qualquer pacto ao desarmamento do Hezbollah, principal força militar não estatal do Líbano e aliado de Teerã. “No último mês, o Líbano nos procurou diversas vezes para iniciar conversas diretas de paz”, diz. “Eu aprovei, mas sob duas condições que queremos alcançar: o desarmamento do Hezbollah e um pacto de paz verdadeiro que dure”, declara.

A fala vem em um momento de contradição no campo de batalha. Horas depois de Washington anunciar um cessar-fogo de duas semanas em sua própria frente de conflito com o Irã, Israel realiza o maior ataque desde o início da guerra no Líbano. Bombardeios-surpresa em áreas densamente povoadas matam mais de 350 pessoas, segundo autoridades libanesas. A ofensiva reforça a percepção, em Beirute e em capitais europeias, de que a paz ainda está distante, mesmo com a agenda de diálogo em Washington.

Os Estados Unidos tentam administrar vários incêndios ao mesmo tempo. De um lado, anunciam a trégua com Teerã após um mês e meio de confrontos, que incluem ameaças públicas do presidente Donald Trump de “destruir a civilização do Irã”. De outro, aceitam o papel de mediador entre Israel e Líbano, dois países formalmente em guerra e separados por uma fronteira que concentra escaramuças diárias desde o início da ofensiva israelense contra o Hezbollah.

Negociações começam sob versões conflitantes

O ponto de partida do diálogo é a reunião marcada para terça-feira (14) em Washington. De um lado da mesa estará o embaixador israelense nos EUA, Yechiel Leiter. Do outro, a embaixadora libanesa, Nada Hamadeh Moawad. Autoridades dos dois países confirmam o encontro, mas descrevem objetivos diferentes. Para a presidência do Líbano, a conversa se concentra em um cessar-fogo imediato na fronteira e na definição de calendário para negociações bilaterais, com participação ativa da diplomacia americana. Para Israel, trata-se do início de “negociações formais de paz”, sem discussão de trégua com o Hezbollah.

A embaixada israelense em Washington afirma que o governo não aceita negociar cessar-fogo diretamente com o grupo libanês. O recado mira não só Beirute, mas também Teerã, patrocinador político e militar do Hezbollah. Ao desvincular a campanha no Líbano do cessar-fogo com o Irã, Israel e Estados Unidos deixam claro que veem conflitos distintos, ainda que interligados. Em nota, autoridades israelenses dizem que a ofensiva contra o Hezbollah não faz parte da trégua entre Washington e Teerã.

Em Beirute, o governo tenta equilibrar pressão interna e externa. O país enfrenta crise econômica profunda, inflação alta e reconstrução lenta após anos de instabilidade. Uma nova rodada de bombardeios amplia o número de deslocados internos, pressiona hospitais e aumenta o custo político de qualquer concessão em mesa de negociação. A exigência israelense de desarmamento do Hezbollah atinge o centro da política libanesa, já que o grupo é ao mesmo tempo força militar, partido relevante no Parlamento e provedor de serviços sociais em regiões inteiras.

O histórico pesa sobre cada frase dita em público. Israel e Líbano travam conflitos diretos desde a década de 1970. Em 1982, tropas israelenses invadem o sul do território libanês sob o argumento de expulsar grupos armados palestinos. O Hezbollah nasce nesse contexto, com apoio iraniano, e se fortalece como movimento de resistência à ocupação. A retirada oficial de Israel em 2000 não encerra as tensões. Em 2006, uma nova guerra dura 34 dias, deixa mais de mil mortos no Líbano e dezenas em Israel, e termina sem acordo de paz.

Região calcula riscos e apostas de um pacto inédito

Uma paz formal entre Israel e Líbano muda o tabuleiro do Oriente Médio. Se o desfecho for favorável a Netanyahu, o Hezbollah perde margem de atuação militar junto à fronteira norte de Israel. Isso reduz o risco de ataques de foguetes contra cidades israelenses e pode liberar recursos hoje destinados à defesa para outras áreas da economia. Para o Líbano, um acordo que limite a guerra em seu território pode abrir portas para ajuda internacional, investimentos em infraestrutura e alívio parcial de sanções indiretas ligadas ao envolvimento do Hezbollah em conflitos regionais.

O custo político, porém, é alto. Setores do governo libanês veem o desarmamento do Hezbollah como exigência inaceitável no curto prazo. O grupo se apresenta como garantia de dissuasão contra Israel e mantém estoques de mísseis e foguetes que, segundo estimativas de especialistas independentes, chegam a dezenas de milhares de unidades. Abrir mão desse arsenal sem contrapartidas claras de segurança pode alimentar divisões internas e reacender velhas rivalidades sectárias entre sunitas, xiitas e cristãos.

Para Washington, o processo oferece oportunidade de recuperar influência na região após meses de escalada retórica com Teerã. O cessar-fogo de duas semanas anunciado por Trump interrompe ataques aéreos americanos e israelenses contra o Irã, mas não resolve a crise no Estreito de Ormuz. O bloqueio iraniano continua a provocar a maior interrupção já registrada no fornecimento global de energia, com impacto direto sobre preços de combustíveis, inflação e cadeias de produção em vários continentes. A estabilidade no eixo Israel–Líbano seria um sinal raro de contenção em um cenário dominado por riscos.

O desfecho também interessa a capitais europeias e asiáticas, dependentes do fluxo constante de petróleo que passa pelo Golfo Pérsico. Uma escalada entre Israel e Hezbollah, em paralelo à disputa no Estreito de Ormuz, aumenta a possibilidade de erro de cálculo militar e de envolvimento de outras potências. Um acordo de paz, mesmo parcial, reduz essa probabilidade e cria espaço para arranjos diplomáticos mais amplos envolvendo Irã, países do Golfo e grandes importadores de energia.

Washington vira palco decisivo para guerra e paz

Os próximos dias testam a disposição real de Israel e Líbano em transformar declarações em compromissos verificáveis. A reunião de terça-feira em Washington funciona como termômetro inicial. Diplomatas americanos tendem a pressionar por uma agenda mínima comum, que inclua mecanismos de redução de risco na fronteira, canais de comunicação direta entre militares e parâmetros para discutir, em fases, o futuro arsenal do Hezbollah.

No campo de batalha, a lógica é outra. Israel sinaliza que mantém a pressão militar sobre o grupo libanês, mesmo sob olhar atento de aliados ocidentais. Hezbollah aposta na resistência prolongada e na capacidade de absorver perdas civis sem perder apoio em suas bases. Cada novo ataque amplia o abismo entre o discurso de “paz verdadeira” e a realidade de destruição em bairros densamente povoados.

A mediação americana tenta preencher esse vazio com garantias de segurança, promessas de financiamento para reconstrução e, possivelmente, mecanismos de monitoramento internacional na fronteira, a exemplo de missões anteriores da ONU. Nenhuma dessas peças, porém, se encaixa sem decisões políticas em Beirute e Jerusalém. A dúvida que paira sobre a mesa em Washington é se os líderes de ambos os lados estão prontos para pagar o preço interno de uma paz que, pela primeira vez em décadas, pode ir além do papel.

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