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Israel mata chefe da Marinha iraniana e aumenta risco no Estreito de Ormuz

O comandante da Marinha da Guarda Revolucionária do Irã, Alireza Tangsiri, é morto em um ataque em Bandar Abbas nesta quinta-feira (26/3). A ação, atribuída a Israel, mira o cérebro da estratégia iraniana de pressionar o Ocidente pelo controle do Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial.

Golpe no centro do tabuleiro estratégico do Golfo

O ataque ocorre na principal base naval iraniana no sul do país, às margens do Golfo Pérsico. Bandar Abbas abriga o coração das operações marítimas da Guarda Revolucionária, responsável por monitorar navios estrangeiros e executar, quando ordenado, ações de intimidação ou bloqueio na rota do petróleo.

Fontes israelenses ouvidas pelo jornal The Times of Israel afirmam que a operação tem um alvo claro: desorganizar a cadeia de comando que sustenta o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz e reduzir a capacidade de Teerã de usar o gargalo como arma geopolítica. Não há confirmação sobre participação direta dos Estados Unidos, mas autoridades da região falam em coordenação estreita entre os dois aliados desde o fim de fevereiro, quando começa uma série de ataques contra lideranças iranianas.

O governo do Irã, até a última atualização, não confirma oficialmente a morte. A ausência de uma posição pública alimenta especulações em Teerã sobre a extensão dos danos à estrutura militar e sobre o momento em que o regime assumirá a perda de um dos seus principais quadros estratégicos.

Quem era Tangsiri e por que sua morte importa agora

Alireza Tangsiri assume, em 2018, o comando da Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica, força responsável pelas operações mais sensíveis do Irã no mar. Desde então, ele se torna a face visível de uma política mais agressiva no Golfo Pérsico, que inclui apreensão de petroleiros, escoltas armadas e ameaças recorrentes a navios militares dos Estados Unidos e de aliados europeus.

Nos últimos meses, em meio à escalada da rivalidade com Israel e Washington, Tangsiri radicaliza o discurso. Em declarações recentes, citadas pela imprensa local, ele afirma que instalações petrolíferas ligadas aos Estados Unidos passam a ser tratadas como “alvos militares”. Em outra fala, defende o fechamento do Estreito de Ormuz como forma de “pressionar os inimigos” e forçar concessões em negociações regionais.

Na prática, seu comando coordena ações que restringem o tráfego de embarcações consideradas hostis e elevam o custo do transporte. Corretoras internacionais relatam alta nas taxas de seguro para navios que cruzam a região desde o início do ano, reflexo do risco crescente de incidentes militares e de ataques com drones e mísseis. Qualquer movimento brusco no estreito repercute quase imediatamente no preço do barril de petróleo, que já reage com volatilidade desde a madrugada.

A ofensiva que mata Tangsiri se insere em uma campanha mais ampla. Desde o fim de fevereiro, ataques atribuídos a Israel e aos Estados Unidos eliminam figuras centrais do regime iraniano, entre elas o ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, e outros comandantes da Guarda Revolucionária. A leitura em capitais ocidentais é que cortar a cúpula reduz a capacidade de resposta rápida de Teerã, mas também aumenta a pressão interna por retaliação.

Impacto imediato no petróleo e no equilíbrio regional

A morte de Tangsiri atinge um ponto nevrálgico da economia mundial. O Estreito de Ormuz, faixa de água com pouco mais de 50 km de largura na parte mais estreita, concentra cerca de um quinto de todo o petróleo que circula pelos mares. Qualquer ruído sobre possíveis bloqueios se traduz em prêmio de risco nos contratos futuros negociados em Londres e Nova York.

Analistas de energia destacam que a eliminação do principal articulador militar do bloqueio não significa, por si, redução do perigo. O comando operacional pode sofrer um abalo temporário, mas a doutrina de usar Ormuz como alavanca política está enraizada no regime desde a Revolução Islâmica de 1979. “Mudar a pessoa não muda o cálculo estratégico”, avalia um consultor europeu de risco político, sob reserva.

Países exportadores do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, acompanham com cautela. Boa parte do petróleo que sai de seus terminais precisa atravessar o estreito antes de seguir para a Ásia, a Europa e, em menor escala, para os Estados Unidos. Um bloqueio parcial, mesmo que dure alguns dias, pode apertar a oferta em um mercado já sensível, pressionando governos que dependem de combustíveis mais baratos para segurar a inflação.

Do outro lado, Israel envia o recado de que está disposto a levar o confronto com o Irã para o coração de sua estrutura militar. A operação em Bandar Abbas mostra capacidade de inteligência e alcance operacional em uma das áreas mais vigiadas do país. O gesto pode fortalecer a posição israelense junto a aliados ocidentais, mas também alimenta o discurso interno iraniano de que o regime está sob ataque existencial.

Escalada, retaliação e a incerteza sobre o dia seguinte

Em Teerã, a morte de Tangsiri, quando oficializada, tende a ser apresentada como martírio. A Guarda Revolucionária constrói sua legitimidade sobre a ideia de resistência a inimigos externos, e a perda de um comandante de alto escalão reforça esse enredo. A pergunta que circula em embaixadas e mercados é em que forma virá a resposta.

Retaliações podem ocorrer em diferentes frentes: ataques a navios próximos ao Estreito de Ormuz, ações por meio de grupos aliados em países vizinhos ou operações cibernéticas contra infraestruturas energéticas. O risco é que uma ação mal calculada provoque uma reação em cadeia e empurre o Golfo para um patamar de conflito mais aberto, com impacto direto sobre o fluxo de petróleo e a segurança de rotas comerciais.

Governos europeus e asiáticos, grandes importadores de energia da região, intensificam consultas diplomáticas em busca de garantias mínimas de que o estreito permanecerá navegável. Ao mesmo tempo, companhias de navegação recalculam rotas e contratos, enquanto seguradoras revisam coberturas e prêmios, num movimento que pode encarecer fretes em poucas semanas.

A morte de Alireza Tangsiri, peça central na engrenagem militar iraniana no Golfo, não encerra o impasse em torno do Estreito de Ormuz. Expõe, com mais nitidez, a fragilidade de um sistema energético global que depende de uma passagem estreita em uma região em permanente tensão. A próxima decisão de Teerã, de Israel e de Washington dirá se este ataque inaugura uma nova rodada de contenção ou abre caminho para uma escalada difícil de controlar.

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