Israel lança 100 ataques aéreos em 10 minutos contra Beirute
Israel desencadeia nesta quarta-feira (8) uma ofensiva de 100 ataques aéreos em dez minutos contra pelo menos nove bairros de Beirute, capital do Líbano. As investidas têm como alvo posições do Hezbollah e deixam um rastro imediato de destruição em áreas residenciais. O número de mortos e feridos ainda não é divulgado por autoridades libanesas.
Ofensiva relâmpago atinge bairros densamente povoados
A sequência de explosões corta a madrugada de Beirute em poucos minutos e atinge subúrbios, regiões ao sul e áreas ao leste da capital, segundo a agência AFP. A rede Al Jazeera relata bombardeios contra prédios residenciais, mesquitas, veículos e até cemitérios, em um ataque coordenado que transforma diversos quarteirões em escombros. Imagens da imprensa local mostram fachadas arrancadas, carros queimados e ambulâncias tentando avançar por ruas cobertas de destroços.
O Exército israelense confirma pouco depois ter atacado uma centena de alvos do Hezbollah em todo o território libanês. Em comunicado, militares descrevem o bombardeio como “o maior ataque coordenado” contra o movimento pró-iraniano desde o início da guerra americano-israelense contra o Irã, em 28 de fevereiro. Israel afirma que em um intervalo de 10 minutos atinge simultaneamente postos de comando e estruturas consideradas militares do grupo islamista.
Cessar-fogo parcial aumenta tensão e expõe disputa regional
A ofensiva ocorre poucas horas depois do anúncio de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão. O acordo prevê a inclusão do Líbano na trégua, mas Israel rejeita essa parte do entendimento e mantém o país como frente ativa do conflito. Na prática, a decisão isola ainda mais Beirute e amplia o risco de que o território libanês se consolide como palco secundário da disputa entre Washington, Teerã e Tel Aviv.
O Hezbollah, que recebe apoio político e militar do Irã, não reivindica nenhuma operação contra Israel desde 1h da madrugada, 22h de terça-feira no horário de Brasília, momento que coincide com o anúncio da trégua entre americanos e iranianos. Apesar dessa pausa nas ações declaradas do grupo, Israel mantém a avaliação de que o movimento segue como ameaça estratégica. O ministro da Defesa, Israel Katz, diz em vídeo que as forças armadas executam “um ataque surpresa contra centenas de terroristas do Hezbollah em centros de comando por todo o Líbano”. Segundo ele, trata-se do “maior golpe sofrido pelo Hezbollah desde a Operação Pagers”, ofensiva de 2024 em que explosivos foram plantados em aparelhos de comunicação usados por integrantes do grupo.
Destruição, deslocados e avanço militar em solo libanês
As incursões israelenses no Líbano desde 2 de março provocam mais de 1,5 mil mortes e empurram mais de um milhão de pessoas para o deslocamento interno, principalmente do sul do país e da periferia sul de Beirute, considerada reduto do Hezbollah. O novo ataque acelera esse movimento e reforça a sensação de que nenhuma área da capital é totalmente segura. Meios de comunicação estatais libaneses relatam novos bombardeios em localidades do sul, incluindo a região de Tiro, atingida pouco depois de Israel ordenar a evacuação da área.
O porta-voz do Exército israelense em árabe, coronel Avichay Adraee, amplia a zona de risco e determina que moradores entre a fronteira com Israel e o rio Zahrani, cerca de 40 quilômetros ao norte, deixem suas casas. Ele afirma que “a batalha continua”, sinalizando que novas operações podem ocorrer em curto prazo. Tropas israelenses já ocupam parte do sul do Líbano, o que acentua o temor de uma campanha terrestre mais profunda. O Exército libanês, com capacidade limitada diante da superioridade militar israelense, pede aos deslocados que aguardem antes de tentar voltar às cidades de origem.
Cidade em ruínas e diplomacia sob pressão
A paisagem em Beirute, quase 16 anos depois da explosão que devasta o porto em 2020, volta a ser marcada por prédios mutilados e sirenes ininterruptas. A diferença agora é que a destruição se espalha por múltiplos bairros ao mesmo tempo, fruto de uma ofensiva planejada para concentrar 100 ataques em apenas dez minutos. Hospitais já pressionados pela crise econômica libanesa ajustam alas de emergência para receber vítimas, enquanto autoridades ainda não divulgam balanços oficiais de mortos e feridos.
O impacto regional também se torna imediato. Ao rejeitar a inclusão do Líbano no cessar-fogo firmado com aval de Estados Unidos, Irã e Paquistão, Israel reforça a leitura de que busca manter pressão máxima sobre o Hezbollah. A estratégia coloca em xeque a eficácia de qualquer trégua parcial e força potências envolvidas na mediação a reverem os termos do entendimento. Cada novo ataque amplia o custo humanitário e político da ofensiva e torna mais difícil o retorno à mesa de negociações.
Escalada aberta e incerteza sobre limites do conflito
A ofensiva desta quarta-feira consolida o Líbano como frente ativa da guerra que, desde 28 de fevereiro, envolve diretamente Israel, Estados Unidos e Irã. A destruição em Beirute e no sul libanês coloca pressão adicional sobre um país já fragilizado por crise econômica, colapso institucional e sucessivas ondas de deslocamento interno. Comunidades que fogem de áreas bombardeadas se juntam a centenas de milhares de libaneses que vivem desde 2020 entre a reconstrução lenta e o medo de novos confrontos.
Diplomatas na região admitem em conversas reservadas que não está claro até onde Israel pretende avançar nem qual será a resposta de Teerã e de grupos aliados, como o Hezbollah. O cálculo de risco passa por uma pergunta central, ainda sem resposta: até que ponto a comunidade internacional aceitará uma escalada que atinge em cheio civis libaneses antes de pressionar por um cessar-fogo que inclua, de forma explícita, o território do Líbano?
