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Israel intensifica ataques ao Hezbollah no Líbano e agrava crise

Israel lança novos ataques aéreos contra alvos do Hezbollah em Beirute e no sul do rio Litani na madrugada de 4 de março de 2026, após disparos de projéteis do grupo libanês contra seu território. A ofensiva eleva o número de mortos no Líbano para ao menos 74 desde o início da semana, segundo o Ministério da Saúde libanês, e aprofunda o medo de uma guerra regional aberta.

Escalada em Beirute em meio à guerra mais ampla

Uma explosão forte corta a madrugada em Beirute antes mesmo de o Exército israelense anunciar a nova rodada de ataques. Poucos minutos depois, o governo em Tel Aviv confirma que mira instalações e lançadores do Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã e protagonista de confrontos com Israel há décadas.

Os bombardeios se concentram na capital e em áreas ao sul do rio Litani, faixa que corre entre 20 e 30 quilômetros ao norte da fronteira israelense. A região, historicamente dominada pelo Hezbollah, volta a ser palco de ataques intensos. Moradores relatam prédios parcialmente destruídos, ruas cobertas de estilhaços e o som constante de drones e caças no céu.

O Ministério da Saúde do Líbano informa que 74 pessoas morrem desde segunda-feira, 2 de março, em decorrência dos ataques israelenses. Hospitais já pressionados por anos de crise econômica operam perto do limite, com falta de leitos, energia instável e equipes exaustas. Autoridades locais alertam para o risco de colapso do sistema de saúde se a ofensiva continuar neste ritmo.

A nova rodada de ataques não acontece isolada. Desde sábado, 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel iniciam uma campanha militar contra o Irã, em meio a tensões renovadas sobre o programa nuclear iraniano. Teerã reage atingindo países do Oriente Médio que abrigam bases dos EUA, como Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Iraque, e abre mais uma frente na região.

O conflito ganha um contorno ainda mais dramático no domingo, quando a mídia estatal iraniana anuncia que o líder supremo Ali Khamenei está entre as vítimas de ataques realizados por forças norte-americanas e israelenses. A morte do aiatolá, figura central do regime desde 1989, desencadeia uma retórica de vingança sem precedentes por parte de Teerã.

Impacto humano e risco de guerra regional

O efeito imediato dos bombardeios em território libanês aparece nas ruas. Milhares de famílias fogem de bairros próximos às áreas atingidas e se espalham por praças, estacionamentos e calçadas de Beirute e de cidades ao sul. Muitas dormem ao relento, sem acesso regular a água, banheiro ou assistência médica.

A crise humanitária, que já se arrasta desde a explosão no porto de Beirute em 2020 e do colapso econômico que se seguiu, ganha nova dimensão. Organizações de ajuda alertam para a falta de abrigo adequado e para o risco de desabastecimento de alimentos e remédios em poucas semanas, caso os corredores logísticos sejam interrompidos. O Líbano, que abriga mais de 1 milhão de refugiados sírios, tem capacidade reduzida para absorver mais deslocados internos.

Do ponto de vista militar, Israel justifica a ofensiva como resposta direta aos projéteis disparados pelo Hezbollah contra seu território. As Forças de Defesa de Israel afirmam que não podem tolerar uma “ameaça contínua” ao norte do país e prometem atingir “qualquer infraestrutura usada pelo grupo”. O Hezbollah declara que os ataques de foguetes representam apoio à resistência contra Israel e ao Irã, sob o argumento de que a aliança entre Tel Aviv e Washington “ultrapassa todas as linhas vermelhas”.

Em Teerã, o presidente Masoud Pezeshkian afirma que o país considera a retaliação “um direito e dever legítimo” após os ataques que matam Khamenei. O governo iraniano promete a “ofensiva mais pesada” da história contra Israel e Estados Unidos, sem detalhar prazos ou alvos. O tom é reforçado por generais da Guarda Revolucionária, que prometem “respostas proporcionais” em várias frentes do Oriente Médio.

Do lado americano, o presidente Donald Trump sobe o tom e adota a mesma linguagem de escalada. “É melhor que eles não façam isso, porque se fizerem, nós os atingiremos com uma força nunca antes vista”, declara, ao comentar a ameaça de retaliação iraniana. Na véspera, ele já havia prometido ataques “ininterruptos durante toda a semana ou pelo tempo que for necessário” para alcançar o que chama de “paz em todo o Oriente Médio”.

O envolvimento direto de Washington, Teerã e Tel Aviv transforma o confronto entre Israel e Hezbollah em peça central de um tabuleiro mais amplo. Países europeus enviam navios e jatos para a região, em nome da proteção de rotas energéticas e de aliados locais. Em capitais como Paris, Londres e Berlim, cresce o temor de que um erro de cálculo ou um ataque de grande porte dispare uma guerra aberta entre potências regionais.

Próximos passos e incertezas no Oriente Médio

Numa região já marcada por conflitos sobrepostos, os ataques no Líbano operam como gatilho de novas incertezas. A fronteira norte de Israel volta a ser tratada como possível segundo front de guerra, ao lado da campanha contra o Irã. Analistas militares alertam que uma ofensiva terrestre contra o Hezbollah exigiria milhares de soldados e poderia repetir a experiência traumática da guerra de 2006.

No Líbano, a classe política tenta evitar um colapso completo do Estado. O governo, fragilizado por anos de crise e por uma economia em frangalhos, conta com apoio limitado das potências ocidentais, que pressionam por reformas internas ao mesmo tempo em que acompanham a escalada militar. Qualquer avanço israelense mais profundo em território libanês pode reacender disputas internas e fortalecer ainda mais o Hezbollah como ator político e militar.

Nas próximas semanas, a atenção internacional se volta para dois eixos. De um lado, a capacidade de Israel e Hezbollah de conter a escalada e evitar ações que extrapolem a lógica de represália pontual. De outro, a resposta concreta do Irã após a morte de Khamenei e a promessa de uma ofensiva histórica contra Israel e Estados Unidos.

Diplomatas na região trabalham com cenários que vão de uma trégua informal, sustentada por pressão de potências como Rússia, China e países europeus, até a abertura de uma guerra em múltiplas frentes que envolveria Líbano, Síria, Iraque e o Golfo Pérsico. A madrugada de explosões em Beirute indica que a janela para descompressão é cada vez mais estreita. A pergunta que se impõe, em meio a ruínas e deslocamentos forçados, é se ainda há tempo político para interromper uma escalada que já ultrapassa fronteiras e começa a redesenhar o mapa de poder no Oriente Médio.

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