Irmã de Ricardo Nunes é presa após alerta do sistema Smart Sampa

A Polícia Militar prende, na tarde desta quinta-feira (15), Janaina Reis Miron, irmã do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Ela é localizada na Unidade Básica de Saúde Veleiros, na zona sul, após ser reconhecida pelo sistema de monitoramento Smart Sampa e tem dois mandados de prisão em aberto por desacato, embriaguez ao volante e lesão corporal.
Alerta em tempo real leva à prisão na zona sul
O movimento na UBS Veleiros, no bairro do Socorro, segue a rotina de atendimentos quando, por volta das 15h20, um alerta silencioso aciona as forças de segurança. O sistema Smart Sampa, alimentado por câmeras da Prefeitura, identifica no saguão da unidade uma pessoa procurada pela Justiça e emite a notificação automática. A Polícia Militar confirma a informação, se desloca até a Avenida Clara Mantelli e realiza a abordagem sem resistência.
A mulher é reconhecida como Janaina Reis Miron, irmã do prefeito Ricardo Nunes. Contra ela pesam dois mandados de prisão relacionados a um processo que tramita desde 2025. Os policiais a levam para o 11º Distrito Policial, em Santo Amaro, onde a ocorrência é registrada e a documentação judicial é checada. A prisão, segundo a corporação, cumpre decisão da Justiça paulista, que determina o início da pena fixada em regime aberto.
Condenação por embriaguez, desacato e lesão corporal
A trajetória que leva Janaina até a UBS monitorada começa meses antes, no interior do estado. Em julho de 2025, ela é condenada a um ano e três meses de prisão, em regime aberto, por episódio ocorrido em uma rodovia de Botucatu, a pouco mais de 230 quilômetros da capital. Na ocasião, policiais rodoviários a flagram dirigindo sob efeito de álcool. Ao ser informada de que seria levada à delegacia, segundo o processo, ela parte para o confronto verbal, desacata os agentes e ameaça soltar dois cachorros contra a equipe.
O caso inclui ainda imputação de lesão corporal, ligada à dinâmica da abordagem registrada pelos autos. A defesa nega que ela estivesse embriagada e sustenta que Janaina usava medicação controlada no dia da ocorrência. A Justiça, porém, considera as provas reunidas suficientes para a condenação. A pena é estabelecida em regime aberto, mas o descumprimento de condições e o avanço do trâmite judicial resultam na expedição de dois mandados de prisão, que seguem ativos até a captura desta quinta-feira.
Smart Sampa sob holofotes e teste de credibilidade
O episódio projeta o sistema Smart Sampa para o centro do debate público. Lançado como vitrine tecnológica da gestão municipal, o conjunto de câmeras e softwares de reconhecimento passa a ser cobrado por transparência e critérios claros de uso. Na prática, o caso de Janaina oferece um exemplo concreto de como a tecnologia cruza a rotina dos serviços públicos com a atuação policial. Uma paciente que entra em uma unidade básica de saúde se torna, em questão de minutos, alvo de uma operação baseada em dados e imagens.
Em nota, a administração Ricardo Nunes afirma que a prisão “está amparada em mandados judiciais, obedeceu ao rigor da lei e foi executada seguindo os critérios de identificação do Smart Sampa”. O texto tenta se distanciar do laço familiar e reforça a mensagem de que o sistema não seleciona alvos por conveniência política. Para aliados do prefeito, o caso ajuda a sustentar o discurso de que a tecnologia funciona “para todos, sem exceção”. Críticos, por outro lado, enxergam um campo fértil para questionar o alcance das câmeras, os riscos de erro na identificação de rostos e a ausência de instâncias independentes de controle.
Família de autoridade, vigilância e disputa política
A prisão da irmã do prefeito acontece em um momento em que a segurança pública e o uso de vigilância eletrônica entram no centro da disputa municipal. A capital contabiliza investimentos crescentes em monitoramento nos últimos anos, com a promessa de redução de crimes e maior rapidez na localização de foragidos. O caso de Janaina oferece ao Palácio do Anhangabaú um argumento concreto de eficiência, mas também abre espaço para que adversários questionem prioridades e cobrem dados objetivos sobre resultados, como índices de prisões, absolvições e eventuais erros de identificação.
O episódio também pressiona o entorno político de Nunes. A condenação por embriaguez ao volante, desacato e lesão corporal envolve comportamentos que contrastam com o discurso de ordem e respeito à lei que a gestão tenta projetar. A ficha judicial da irmã não tem efeito direto sobre o mandato do prefeito, mas alimenta a percepção de que familiares de autoridades não ficam imunes ao escrutínio público. O tratamento dado ao caso, tanto pela Prefeitura quanto pelos órgãos de segurança, passa a ser medido com lupa em busca de qualquer sinal de privilégio ou interferência.
O que vem a seguir para o caso e para o sistema
Com a prisão em flagrante cumprimento de mandados, o próximo passo é o encaminhamento de Janaina ao sistema prisional e a definição de como o regime aberto será executado na prática. A defesa pode recorrer de trechos da condenação, pedir revisão de pena ou pleitear a conversão em medidas alternativas, como prestação de serviços comunitários. O histórico do processo em Botucatu e o comportamento da ré durante o cumprimento da pena devem pesar nas decisões futuras.
Para a cidade, o episódio funciona como um teste duplo. De um lado, coloca o Smart Sampa sob exame, com cobranças por relatórios públicos, auditorias independentes e regras mais claras sobre armazenamento de dados e proteção de privacidade. De outro, reforça a expectativa de que a lei alcance com o mesmo rigor parentes de autoridades e cidadãos anônimos. A forma como a Prefeitura e o governo do estado lidarem com essa combinação de tecnologia, justiça e política indica se o caso será apenas um registro policial ou o ponto de partida de uma discussão mais ampla sobre vigilância, direitos e limites do poder público em São Paulo.
