Iranianos tomam ruas de Teerã em apoio a Khamenei após cessar-fogo
Milhares de iranianos ocupam as ruas de Teerã nesta terça-feira (7) em apoio ao líder supremo Ali Khamenei, horas após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Irã e Estados Unidos. A multidão promete seguir as orientações do aiatolá e manter a mobilização caso o acordo fracasse.
Ruas cheias, bandeiras no alto e recado ao Ocidente
O centro da capital iraniana vira palco de uma demonstração orquestrada de lealdade política e fervor nacionalista. Manifestantes agitam bandeiras do Irã, exibem retratos de Khamenei e entoam palavras de ordem contra Washington e Tel Aviv. Em diversos pontos, pequenas fogueiras consomem bandeiras israelenses e americanas, gesto simbólico que se repete desde o início da guerra, em fevereiro.
Entre cartazes e gritos, uma frase se destaca e ecoa a lógica da mobilização. “O que nosso líder disser será feito”, afirma uma mulher, coberta pelo véu preto tradicional, enquanto observa um grupo de jovens queima uma bandeira dos Estados Unidos. Ela não fala em trégua definitiva, mas em obediência. “Se ele achar apropriado, teremos um cessar-fogo. Caso contrário, estamos prontos para permanecer nas ruas e lutar para sempre”, acrescenta, resumindo o sentimento de desconfiança que atravessa o ato.
A manifestação ocorre poucas horas depois de Donald Trump, presidente dos EUA, anunciar a suspensão dos bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas, sob a condição de reabertura do Estreito de Ormuz. O estreito responde, em tempos normais, por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo. O governo iraniano havia fechado a passagem em reação aos ataques coordenados de Estados Unidos e Israel, iniciados em 28 de fevereiro.
Teerã se move, portanto, em duas frentes. Nas ruas, o recado de prontidão para o confronto permanece. Nos bastidores, o regime tenta transformar o cessar-fogo em vitória política. Logo após o anúncio americano, o Conselho Supremo de Segurança Nacional divulga, pela mídia estatal, uma longa declaração na qual descreve o desfecho como “vitória” e apresenta um plano de dez pontos para encerrar a guerra na região.
Cessar-fogo frágil e disputa por narrativa
O cessar-fogo entra em vigor em um clima de extrema tensão, marcado por ataques relatados no Golfo e em Israel ainda após o anúncio de Trump. O presidente americano chega a ameaçar, poucas horas antes da trégua, que “toda uma civilização morrerá esta noite”, caso o Irã não cedesse e não reabrisse Ormuz antes do prazo, de cerca de 90 minutos, que ele mesmo havia imposto a Teerã.
A reviravolta na noite de terça-feira expõe uma disputa intensa por narrativa. Enquanto Trump apresenta o acordo como prova de que os EUA já “atingem e superam todos os objetivos militares”, a emissora estatal iraniana classifica o gesto como uma “derrota inegável, histórica e esmagadora” para Washington. No comunicado, o Conselho de Segurança Nacional sustenta que a “vitória no campo de batalha” agora se consolida “nas negociações políticas”.
O plano iraniano, divulgado em linhas gerais, inclui o fim total das hostilidades não apenas no Irã, mas também em frentes onde Teerã atua por meio de aliados, como Iraque, Líbano e Iêmen. O documento reivindica ainda a retirada das sanções americanas, a liberação de ativos iranianos congelados e o pagamento de compensações pela destruição de infraestrutura. Em troca, Teerã promete não buscar a posse de armas nucleares, um dos pontos mais sensíveis da agenda com Washington.
A população que ocupa as ruas não discute detalhes técnicos de sanções ou programas nucleares. O que se vê é a tradução visual da mensagem oficial: o Irã não se dobra, apenas escolhe o momento da trégua. Para muitos manifestantes, o cessar-fogo de 14 dias representa apenas uma pausa tática. Eles demonstram disposição para voltar à confrontação caso percebam que os Estados Unidos não cumprem as condições fixadas pelo regime.
Apoio a Khamenei, pressão interna e incertezas
O ato em Teerã reforça a autoridade de Ali Khamenei em um momento em que o país tenta equilibrar desgaste econômico, pressões internas e ameaça militar externa. Ao exibir ruas cheias, o regime sinaliza a aliados e rivais que mantém base social ativa e mobilizável. O recado vale tanto para Washington quanto para capitais da região, de Riyad a Tel Aviv.
Há efeitos imediatos no tabuleiro diplomático. O Paquistão, que vem mediando contatos entre as partes, se apresenta como possível sede para novas negociações. Islamabad tenta explorar a janela de duas semanas para levar iranianos e americanos à mesa, com um encontro previsto para 10 de abril. Nenhum dos lados, porém, confirma detalhes públicos sobre o formato das conversas.
A trégua temporária também repercute no mercado de energia, ainda que de forma contida. A perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz reduz, ao menos por ora, o risco de choque abrupto na oferta de petróleo que circula pela região. Analistas alertam, contudo, que qualquer incidente militar durante essas duas semanas pode recolocar o fluxo sob ameaça e reacender a escalada de preços.
Internamente, o governo iraniano usa a declaração de “derrota esmagadora” dos EUA para consolidar apoio em meio ao cansaço acumulado por anos de sanções e isolamento. A imagem de um Trump que recua sob pressão alimenta o discurso nacionalista. A mobilização desta terça-feira mostra que parte da população abraça essa leitura e vincula o cessar-fogo à resistência do país, não à concessão.
Duas semanas para testar a trégua
O calendário torna-se elemento central da crise. Trump promete suspender ataques por 14 dias. Nesse período, espera que o Irã mantenha o estreito aberto e avance em um acordo mais amplo. O governo iraniano, por sua vez, trata as duas semanas como tempo para transformar ganhos militares em dividendos políticos e econômicos.
O próximo movimento ocorre nos salões de negociação, não nas ruas de Teerã. O encontro proposto em Islamabad pode definir se o cessar-fogo se converte em processo de paz ou apenas em intervalo antes de nova rodada de ataques. Enquanto isso, as imagens de bandeiras em chamas e de multidões leais a Khamenei funcionam como lembrete de que qualquer erro de cálculo pode reacender, em poucas horas, uma guerra que o mundo ainda não consegue enxergar como definitivamente encerrada.
