Irã transforma ilha de Kharg em fortaleza contra ofensiva dos EUA
O Irã reforça, nas últimas semanas até março de 2026, a defesa da ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, diante da possibilidade de uma operação terrestre dos Estados Unidos. A pequena faixa de terra, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano, vira o epicentro da disputa militar e econômica entre Teerã e Washington.
Fortaleza em ilha que sustenta o petróleo iraniano
Kharg, com área equivalente a cerca de um terço de Manhattan, concentra terminais, oleodutos e tanques que mantêm a economia iraniana funcionando sob sanções e guerra. Relatórios de inteligência dos EUA, citados por fontes ouvidas pela CNN, descrevem um esforço acelerado de Teerã para transformar a ilha em uma fortaleza difícil e custosa de ser tomada.
Militares iranianos deslocam tropas adicionais, instalam sistemas de defesa aérea de curto alcance e espalham armadilhas ao redor do perímetro. Entre os equipamentos enviados estão mísseis guiados disparados do ombro, conhecidos pela sigla inglesa MANPADS, capazes de atingir helicópteros e aviões em baixa altitude. Fontes americanas relatam ainda a colocação de minas antipessoais e anticarro, inclusive na faixa costeira onde uma força dos EUA poderia tentar um desembarque anfíbio.
A movimentação responde a discussões, dentro do governo Donald Trump, sobre o uso de tropas americanas para conquistar Kharg como forma de pressionar o Irã a reabrir o estreito de Ormuz. A rota, vital para o fluxo diário de milhões de barris de petróleo, sofre ameaças desde o início da escalada militar entre os dois países. Uma autoridade americana envolvida no planejamento admite, em off, que uma tomada da ilha exigiria “uma força de desembarque robusta” e acarretaria riscos elevados.
Escalada militar e temor de baixas em larga escala
Os Estados Unidos já atacam Kharg do ar. Em 13 de março, o Comando Central afirma ter atingido 90 alvos, entre bunkers de mísseis, depósitos de minas navais e outras instalações militares. Na ocasião, Trump anuncia que a Casa Branca evita deliberadamente bombardear a infraestrutura de petróleo por “razões de decência”, numa tentativa de sinalizar que o objetivo imediato não é colapsar a economia iraniana.
O efeito prático, porém, é ambíguo. Bombardeios degradam parte das defesas aéreas e marítimas, incluindo mísseis HAWK e canhões antiaéreos Oerlikon, segundo o almirante aposentado James Stavridis, ex-comandante supremo aliado da Otan. O próprio Stavridis alerta, em entrevista, que isso não elimina o perigo. “Os iranianos são inteligentes e implacáveis. Eles farão tudo o que puderem para infligir o máximo de baixas às forças americanas, tanto nos navios no mar quanto, especialmente, quando tropas terrestres estiverem em qualquer ponto de seu território soberano”, afirma.
A Casa Branca envia ao Oriente Médio duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais, especializadas em desembarques anfíbios de resposta rápida. Juntas, elas reúnem vários milhares de militares, navios de guerra, aeronaves e embarcações de desembarque. Cerca de 1.000 soldados da 82ª Divisão Aerotransportada também devem reforçar o teatro de operações. Ao mesmo tempo, drones e aviões americanos mantêm vigilância quase constante sobre Kharg, observando mudanças no solo e na vegetação que denunciam novas áreas minadas.
Os riscos não se limitam ao campo de batalha imediato. Uma fonte israelense ouvida pela CNN afirma temer que a tomada da ilha provoque uma onda de ataques com drones e mísseis portáteis, mirando tropas americanas. “A esperança é que eles não assumam esse risco e, em vez disso, ataquem os campos de petróleo, mas não há como saber”, diz. Nos bastidores, aliados de Washington questionam se o ganho estratégico de controlar Kharg compensa o custo político e humano de uma operação terrestre.
Em Teerã, o recado também é público. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, avisa que qualquer tentativa de ocupar ilhas do país terá resposta direta. “Todos os movimentos do inimigo estão sob total vigilância de nossas forças armadas. Se eles ultrapassarem os limites, toda a infraestrutura vital desse país regional se tornará, sem restrições, alvo de ataques implacáveis”, escreve no X. Mais cedo, ele afirma acompanhar de perto o deslocamento de tropas americanas na região.
Mercado de petróleo em alerta e pressão de aliados do Golfo
Kharg concentra cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irã e funciona como pulmão de uma economia pressionada por sanções e pela guerra em curso. Um ataque terrestre que interrompa, mesmo parcialmente, as operações da ilha tem potencial para reduzir a oferta global de petróleo e elevar preços em questão de dias. Países do Golfo, grandes produtores e aliados dos EUA, sabem disso e agem em silêncio para evitar uma escalada fora de controle.
Um alto funcionário de um país do Golfo relata que governos da região pedem, de forma reservada, que Washington não ocupe Kharg com tropas terrestres. O receio é que uma presença prolongada dos EUA na ilha provoque altas baixas, gere imagens de guerra urbana e acabe desencadeando ataques iranianos contra portos, oleodutos e refinarias em todo o Golfo Pérsico. A conta política e econômica, argumenta essa fonte, recairia também sobre monarquias que dependem de estabilidade para sustentar investimentos bilionários em energia e infraestrutura.
Nessas conversas, interlocutores do Golfo pressionam por outro objetivo: o desmonte do programa de mísseis balísticos iraniano. Segundo esse funcionário, o Pentágono informa que já destruiu uma parte “significativa” da capacidade de mísseis balísticos e de cruzeiro do Irã e que está perto de concluir a lista de alvos restantes, sem indicar prazo. A mensagem é que a campanha aérea segue, mesmo sem um calendário claro de fim.
No tabuleiro militar, estrategistas americanos discutem alternativas para aumentar a pressão sobre o regime iraniano sem desembarcar em Kharg. Stavridis menciona uma delas: um bloqueio marítimo ao redor da ilha, impedindo na prática a saída de petróleo. “Isso poderia ser feito sem colocar tropas em terra”, diz. Uma operação desse tipo, porém, também carregaria o risco de confronto direto com navios iranianos e de reação assimétrica de Teerã em outras frentes.
Próximos passos e incertezas no Golfo Pérsico
No curto prazo, a tendência é de endurecimento, não de recuo. O Irã amplia defesas em camadas em Kharg, espalha minas e reforça a presença de mísseis portáteis à medida que cresce o fluxo de navios de guerra americanos na região. Em paralelo, Washington calibra o custo político de um eventual desembarque sob alta vulnerabilidade a drones, mísseis e ataques de proximidade.
A Casa Branca mantém silêncio público sobre o planejamento detalhado, e o Comando Central não comenta os relatos de reforço iraniano na ilha. O cenário, por enquanto, é de uma guerra de nervos em torno de um pedaço de terra que concentra a sobrevivência econômica do Irã e uma fatia relevante do mercado global de energia. A decisão de ordenar ou não um ataque terrestre a Kharg pode definir não apenas o rumo do conflito entre Estados Unidos e Irã, mas também a estabilidade do Golfo Pérsico e o preço do petróleo nos próximos meses.
