Ultimas

Irã sinaliza concessões nucleares em troca de alívio de sanções dos EUA

O Irã sinaliza que aceita concessões inéditas em seu programa nuclear nas negociações com os Estados Unidos em fevereiro de 2026. Teerã oferece reduzir estoques de urânio enriquecido e abrir seu mercado de petróleo e gás para investimentos americanos em troca do fim de sanções e do reconhecimento do direito ao enriquecimento nuclear pacífico.

Negociações ganham fôlego em meio a risco de conflito

As conversas, retomadas neste mês com encontros indiretos e reuniões em Genebra, ocorrem sob a sombra de uma escalada militar no Oriente Médio. Washington reforça sua presença na região enquanto Teerã ameaça atingir bases norte-americanas se for atacado. O clima é de urgência após duas rodadas de negociação consideradas tensas por ambos os lados.

Uma autoridade iraniana sênior afirma à agência Reuters que, apesar das divergências “profundas” sobre o ritmo e o alcance do alívio das sanções, ainda “existe a possibilidade de se chegar a um acordo provisório”. A avaliação contrasta com o tom das semanas anteriores, quando diplomatas de diferentes países davam como provável um confronto direto entre os dois rivais históricos.

O novo gesto de Teerã surge poucos dias depois do fim da última rodada de conversas, na semana passada, quando o cenário parecia travado. Segundo essa autoridade, o Irã admite enviar cerca de 50% de seu urânio mais altamente enriquecido para o exterior, diluir o restante para níveis considerados menos sensíveis e participar de um consórcio regional de enriquecimento, sob supervisão internacional.

O objetivo é duplo: reduzir a desconfiança ocidental sobre um eventual desvio do programa civil para fins militares e, ao mesmo tempo, preservar o que Teerã considera um direito soberano. “Este roteiro deve ser razoável e baseado em interesses mútuos”, diz a fonte, ao defender um cronograma claro para suspender as sanções econômicas impostas pelos EUA.

Concessões nucleares e oferta de negócios em petróleo e gás

Pelo pacote em discussão, o Irã aceita enxugar de forma visível seu estoque de urânio enriquecido e submeter parte do ciclo de produção a um consórcio regional. Essa estrutura, cogitada em momentos anteriores da diplomacia nuclear iraniana, envolveria países vizinhos e, possivelmente, participação técnica de potências externas, o que ampliaria a transparência sobre o material produzido.

Em contrapartida, Teerã cobra dois movimentos concretos de Washington: o reconhecimento explícito de seu “direito ao enriquecimento nuclear pacífico”, dentro das regras do Tratado de Não Proliferação, e um plano para suspender gradualmente as sanções que atingem a economia iraniana desde a saída dos EUA de acordos anteriores. O Irã quer datas, etapas e garantias políticas para não repetir o impasse vivido nos últimos anos.

A mesma autoridade informa que o pacote inclui um elemento econômico sensível: oportunidades de negócios para empresas norte-americanas participarem como contratadas em grandes projetos de petróleo e gás. “Dentro do pacote econômico em negociação, os EUA também receberam ofertas de oportunidades para investimentos sérios e interesses econômicos tangíveis na indústria petrolífera iraniana”, afirma. O sinal atinge um ponto central da economia iraniana, ainda fortemente dependente das exportações de hidrocarbonetos.

Sanções norte-americanas sobre o setor de energia iraniano, ampliadas em diferentes rodadas desde 2018, reduziram drasticamente a capacidade de exportação do país e afastaram grupos internacionais. Um acordo poderia reabrir, em poucos anos, contratos bilionários de exploração, refino e infraestrutura de gás natural, com impacto direto sobre receitas públicas em Teerã e sobre cadeias globais de energia.

Os Estados Unidos, por sua vez, seguem sem detalhar publicamente sua posição. A Casa Branca não responde de imediato aos questionamentos sobre as novas propostas. Em Washington, o enriquecimento de urânio dentro do território iraniano ainda é visto como um potencial atalho para a construção de armas nucleares. Teerã nega perseguir esse objetivo e insiste que o programa tem caráter civil, voltado para geração de energia e uso médico.

A disputa sobre confiança não é nova. Em 2015, o acordo conhecido como JCPOA limitou o nível de enriquecimento iraniano, fixou estoques máximos e permitiu inspeções reforçadas em troca da suspensão de sanções internacionais. A saída unilateral dos EUA em 2018, durante o governo Donald Trump, levou Teerã a retomar e, em alguns pontos, acelerar seu programa. O histórico pesa agora sobre cada parágrafo discutido nas salas de Genebra.

Equilíbrio regional e teste para a diplomacia global

Analistas veem na atual rodada de conversas um teste decisivo para a capacidade de Washington e Teerã de conter a escalada militar no Oriente Médio. Um acerto provisório que reduza o estoque de urânio enriquecido e crie um mecanismo verificável de monitoramento pode aliviar a pressão sobre aliados dos EUA na região, como Israel e países do Golfo, preocupados com um eventual salto iraniano rumo à bomba.

Um entendimento também mexe com o tabuleiro econômico. O retorno gradual do petróleo iraniano a mercados hoje limitados por sanções pode influenciar preços internacionais e aumentar a competição em contratos de longo prazo. Empresas europeias e asiáticas, que já sofreram com punições secundárias ao negociar com o Irã, acompanham de perto qualquer sinal de flexibilização vinda de Washington.

A demora em fechar um texto, porém, carrega riscos. Um fracasso nas conversas abriria espaço para novas sanções no Congresso americano, reforço militar adicional dos EUA no Golfo Pérsico e possíveis ataques preventivos, diretos ou por meio de aliados. O Irã, que ameaça atingir bases norte-americanas na região em caso de ofensiva, já demonstra disposição para responder de forma assimétrica, usando seus aliados armados em países vizinhos.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, diz neste domingo, 22 de fevereiro, que espera se reunir com o enviado especial do presidente dos EUA, Donald Trump, Steve Witkoff, em Genebra, na quinta-feira, 26. Ele fala em “boa chance” de avanço, desde que os dois lados concordem em um cronograma “lógico” para suspender as punições econômicas.

Próximos encontros definem destino do acordo

Diplomatas envolvidos nas tratativas avaliam que as próximas semanas serão decisivas. Uma solução intermediária, com etapas bem marcadas de redução do estoque de urânio e alívio gradual das sanções, aparece hoje como opção mais realista do que um grande acordo definitivo. Nesse desenho, cada lado entregaria algo concreto a cada fase, sob monitoramento internacional.

Genebra volta ao centro da diplomacia nuclear global como palco da provável reunião entre Araghchi e Witkoff. Se os dois governos conseguirem transformar as novas concessões em texto claro, acompanhado de garantias políticas mínimas, o Oriente Médio pode atravessar 2026 com menos risco de choque direto entre Irã e Estados Unidos. Se a negociação descarrilar mais uma vez, a pergunta que passa a dominar corredores diplomáticos é por quanto tempo ainda a região suporta viver à beira de um ataque.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *