Irã prepara contraproposta nuclear enquanto Trump fala em ataque
O Irã corre para finalizar uma contraproposta nuclear aos Estados Unidos nos próximos dias, enquanto Donald Trump admite avaliar ataques militares limitados. As declarações, feitas em fevereiro de 2026, ampliam o risco de escalada militar no Oriente Médio e pressionam aliados a escolher lado.
Diplomacia sob relógio e ameaça
O movimento de Teerã e de Washington ocorre em meio a um cenário de negociações intensas e prazos políticos apertados. De um lado, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, tenta mostrar disposição para um entendimento. Do outro, o presidente dos EUA usa o risco de ação militar como instrumento de pressão, enquanto o Conselho de Segurança da ONU ouve apelos para que prevaleça a diplomacia.
Araqchi afirma, em entrevista exclusiva ao programa “Morning Joe”, da MS NOW, que trabalha em um rascunho de contraproposta após encontros com representantes americanos nesta semana. Ele diz esperar que o texto esteja pronto para revisão pelos principais dirigentes iranianos em dois ou três dias, com nova rodada de conversas possível dentro de cerca de uma semana. O chanceler admite que qualquer ação militar “complica seriamente” a busca por um acordo.
Nos bastidores em Nova York, a pressão aumenta após a divulgação de uma carta do embaixador iraniano na ONU a António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. A correspondência, agora distribuída ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral, registra a posição oficial de Teerã e tenta enquadrar as ameaças americanas como risco à paz internacional. Diplomatas descrevem sessões reservadas de consulta, nas quais delegações europeias repetem o apelo por diálogo e alertam para efeitos imediatos sobre a segurança regional.
Washington, ao mesmo tempo, sinaliza que prepara o terreno para uma escalada controlada. Dois oficiais americanos ouvidos pela agência Reuters relatam que o planejamento militar atinge estágio avançado. Entre as opções discutidas estão ataques cirúrgicos a indivíduos e instalações específicas, além de cenários mais amplos que incluem pressionar por mudança de liderança em Teerã, caso Trump ordene.
Trump estabelece publicamente um prazo de 10 a 15 dias para que o Irã aceite um “acordo justo” ou enfrente “coisas realmente ruins”. O aviso vem na esteira do reforço do contingente militar americano no Oriente Médio, que inclui o envio adicional de navios, aeronaves e sistemas de defesa. Em conversas com repórteres na Casa Branca, fora das câmeras, o presidente confirma que avalia um “ataque limitado” para aumentar a pressão sobre o governo iraniano.
Tensões internas, direitos humanos e impacto global
O cálculo político em Washington se mistura à situação interna do Irã. Trump tenta separar a população da liderança e volta a criticar a repressão a protestos recentes em Teerã. Ele afirma que “32.000 pessoas foram mortas em um período relativamente curto de tempo”, número que não pode ser verificado de forma independente. O presidente ainda diz que o temor de um ataque americano levou o regime a abandonar, duas semanas antes, um suposto plano de executar 837 pessoas.
“Eu avisei: se vocês enforcarem uma pessoa, até mesmo uma pessoa, vocês serão atingidos imediatamente”, declara Trump, sem apresentar provas públicas das informações. Monitoramentos de organizações de direitos humanos indicam um quadro grave, porém em escala distinta. A HRANA, grupo sediado nos EUA que acompanha abusos no Irã, registra 7.114 mortes verificadas e mantém outras 11.700 em revisão. As divergências de números alimentam a disputa de narrativas entre Washington e Teerã, mas não reduzem a preocupação com violações sistemáticas.
A escalada verbal se reflete diretamente nos mercados globais de energia. Investidores acompanham cada declaração sobre o Golfo Pérsico, rota por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. Qualquer operação militar perto do estreito de Ormuz, ponto estratégico da região, pode provocar alta imediata no preço do barril e pressionar economias dependentes de importação, como países da Europa e da Ásia.
Aliados dos Estados Unidos tentam ganhar tempo. Fontes diplomáticas relatam esforços para organizar canais paralelos de diálogo com o Irã, inclusive por meio de governos europeus ainda comprometidos com os termos originais do acordo nuclear assinado em 2015. A estratégia busca oferecer a Teerã garantias econômicas mínimas em troca de limites verificáveis ao programa atômico, reduzindo o espaço para uma ruptura completa.
No Irã, a liderança enfrenta pressão simultânea da rua e do establishment religioso e militar. A crise econômica, agravada por sanções americanas, alimenta protestos recorrentes desde o fim de 2025. A preparação da contraproposta precisa equilibrar o desejo de aliviar o cerco financeiro com a resistência interna a qualquer gesto que pareça capitulação diante dos EUA. O conteúdo final do documento, portanto, se torna um teste de sobrevivência política para o governo iraniano.
Próximos passos sob risco de erro de cálculo
As próximas duas semanas se desenham como janela crítica. De um lado, o Irã promete apresentar sua contraproposta em questão de dias e sinaliza disposição para continuar conversando. De outro, Trump mantém a retórica de prazo rígido de 10 a 15 dias e insiste que “é melhor negociarem um acordo justo”. Entre esses dois relógios, diplomatas na ONU tentam construir uma ponte mínima que impeça que o impasse deslize para um confronto direto.
Qualquer incidente em torno de bases americanas, navios no Golfo ou instalações nucleares iranianas pode funcionar como gatilho para uma reação em cadeia. Mesmo ataques descritos como “limitados” carregam o risco de erro de cálculo e de resposta assimétrica por parte de Teerã, seja por meio de aliados regionais, seja com ações no ciberespaço. A ONU reforça o apelo para que as partes reduzam o tom e aproveitem a oportunidade aberta pela contraproposta em elaboração.
O desfecho ainda é incerto. Se o documento iraniano trouxer concessões consideradas suficientes por Washington e pelos principais aliados europeus, a crise pode perder temperatura e abrir espaço para uma negociação mais estável sobre o programa nuclear. Se for visto como insuficiente ou provocativo, aumenta a probabilidade de que as ameaças de Trump se convertam em ação militar, com efeitos imediatos no Oriente Médio e além. A pergunta que domina bastidores em Nova York, Teerã e Washington é simples e permanece sem resposta: quem recua primeiro, e a que custo.
