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Irã limita a 15 navios por dia passagem no Estreito de Ormuz

O Irã decide permitir a passagem de apenas 15 navios por dia pelo Estreito de Ormuz a partir de 9 de abril de 2026. A medida reduz o bloqueio quase total imposto desde o fim de fevereiro, mas mantém sob pressão a principal rota de escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial.

Estreito volta a funcionar, mas sob controle rígido

A decisão é anunciada por meio de autorização oficial do governo iraniano, divulgada pelas agências Tasnim e Fars. O limite diário vale para petroleiros e cargueiros que cruzam o corredor de 34 quilômetros de largura entre o Irã e Omã, ligação direta entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico.

O estreito é a artéria por onde passa não só petróleo bruto, mas também combustíveis refinados e insumos essenciais, como fertilizantes. Desde o início da guerra na região, no fim de fevereiro, Teerã praticamente fecha a passagem, o que provoca alta imediata nas cotações internacionais do petróleo e acende alertas em capitais importadoras da Europa e da Ásia.

O novo regime de controle entra em vigor num momento em que o cessar-fogo costurado com potências regionais e globais mostra sinais de desgaste. Na quarta-feira (8), o Irã volta a decretar o fechamento de Ormuz em resposta a ataques de Israel contra o Líbano. Um dia antes, um frágil acordo previa duas semanas sem ofensivas em todas as frentes, inclusive em território libanês.

O balanço dos bombardeios israelenses, divulgado pelo Ministério da Saúde do Líbano e transmitido pela agência Reuters, indica 254 mortos e 837 feridos em 24 horas. Em Teerã, a ofensiva é usada como argumento para endurecer o controle sobre a rota marítima e ameaçar o cessar-fogo. “A segurança de Ormuz reflete a segurança da região como um todo”, afirma um diplomata iraniano, segundo a agência Tasnim.

Gargalo energético pressiona mercados globais

O anúncio de que apenas 15 navios poderão cruzar o estreito por dia funciona, na prática, como um racionamento do fluxo marítimo. Antes da escalada recente, dezenas de embarcações cruzavam diariamente o corredor, em um vaivém constante de petroleiros gigantes e navios de carga. Desde a entrada em vigor do cessar-fogo, apenas dois grandes petroleiros recebem sinal verde para atravessar a rota estratégica.

Operadores de mercado calculam que o limite imposto por Teerã pode reduzir de forma significativa a oferta disponível, ainda que evite o colapso total da rota. Qualquer restrição em Ormuz costuma se traduzir em prêmios de risco e volatilidade nas bolsas de Londres, Nova York e Cingapura. O petróleo já havia disparado com o fechamento quase total do estreito no fim de fevereiro, e analistas aguardam nova rodada de alta se o gargalo persistir nas próximas semanas.

A rota é vital para exportadores como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, que dependem da passagem para escoar produção para a Ásia e o Ocidente. Países importadores da Europa e do leste asiático, intensamente dependentes de petróleo do Golfo, acompanham a situação com preocupação. O encarecimento do barril tende a pressionar inflação, custos de frete e preços de combustíveis em economias já fragilizadas por conflitos e juros altos.

O estreito de 34 quilômetros de largura, em alguns pontos, não oferece muitas rotas alternativas. Oleodutos por terra existem, mas não compensam sozinho a perda de capacidade marítima. A limitação diária também afeta o comércio de fertilizantes e insumos agrícolas, o que pode repercutir na próxima safra em grandes produtores de alimentos e elevar custos de produção em países emergentes, inclusive o Brasil.

Diplomacia em alerta e incerteza sobre o cessar-fogo

A decisão iraniana insere mais uma camada de incerteza num tabuleiro já tenso. O governo de Teerã vinha usando o estreito como instrumento de pressão militar e diplomática desde o início da guerra. Ao combinar ameaças de fechamento total, anúncios de reabertura parcial e agora um limite rígido de 15 navios, o país testa a disposição das potências em negociar garantias de segurança e concessões políticas.

Estados Unidos e aliados discutem caminhos para manter a rota aberta e já admitem, em conversas reservadas, a possibilidade de reforçar escoltas navais e ampliar sanções se o bloqueio se agravar. Em paralelo, chancelerias europeias avaliam pressões diplomáticas para que o Irã mantenha o cessar-fogo e se comprometa com um cronograma de normalização do tráfego marítimo. Até o momento, Teerã responde que qualquer passo dependerá do comportamento de Israel no Líbano e em outras frentes.

Empresas de navegação e seguradoras revisam rotas, prêmios de seguro e cláusulas de risco. Armadores calculam atrasos e estudam deslocar parte das frotas para outros corredores, mesmo com custos maiores. Para muitos, atravessar Ormuz continua inevitável, mas cada novo anúncio de Teerã torna a travessia mais cara e imprevisível.

A partir de 9 de abril, o mundo passa a monitorar não apenas o número de navios autorizado a cruzar o estreito, mas também a consistência das decisões de Teerã. O limite de 15 embarcações por dia pode ser apenas uma etapa de uma estratégia maior de pressão, ou um degrau rumo a alguma forma de acomodação. Enquanto não há clareza, o estreito mais disputado do planeta segue como símbolo de uma pergunta central: até onde o conflito no Oriente Médio vai redesenhar a segurança energética global?

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