Irã fecha Ormuz no 1º dia de trégua enquanto Israel intensifica ataques no Líbano
Petroleiros deixam de cruzar o Estreito de Ormuz e Israel lança os maiores ataques ao Líbano desde o início da ofensiva terrestre nesta quarta-feira (8), primeiro dia do cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã. A combinação de bloqueio em uma rota que concentra cerca de 20% do petróleo mundial e bombardeios intensos contra o Hezbollah expõe, já nas primeiras horas da trégua, o alcance limitado do acordo e o risco de uma nova escalada regional.
Trégua começa sob ameaça no Estreito de Ormuz
O cessar-fogo entra em vigor à meia-noite, após anúncio do presidente americano, Donald Trump, e do governo iraniano. Horas depois, navios-tanque que cruzam o Golfo Pérsico recebem um alerta em canal de rádio internacional: a travessia por Ormuz está fechada e qualquer embarcação que tentar entrar no estreito será “alvejada e destruída” sem autorização da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês). A mensagem, confirmada pela corretora de navios SSY ao serviço BBC Verify, circula entre tripulações que já navegam em ritmo reduzido desde que o Irã decidiu fechar a rota em resposta a ataques americanos e israelenses.
A agência iraniana Fars, ligada à IRGC, relata que dois petroleiros conseguem passar na manhã desta quarta-feira com permissão de Teerã, mas afirma que o trânsito é então interrompido. A agência estatal IRNA vai na mesma direção e atribui o bloqueio à continuidade dos ataques israelenses ao Líbano, onde o Hezbollah, aliado estratégico do Irã, enfrenta uma ofensiva terrestre. A leitura em Teerã é que, sem cessar-fogo que inclua o território libanês, não há motivo para normalizar o fluxo de petróleo na passagem mais sensível da região.
A Casa Branca rebate a versão iraniana. Em coletiva, a porta-voz Karoline Leavitt diz que a informação sobre o fechamento é “falsa” e afirma que, nos bastidores, os relatos são de aumento no tráfego. “Houve um aumento no trânsito de navios nesta quarta”, afirma, sem apresentar dados públicos. Ela insiste que o presidente “espera” que o estreito esteja aberto “imediatamente” e alega que foi isso que Trump ouviu em conversas privadas com interlocutores regionais.
Permitir a passagem de petroleiros por Ormuz é uma das peças centrais do acerto anunciado na véspera. Na terça-feira (7), Trump ameaça que “uma civilização inteira morreria na noite de terça” se o Irã não reabrisse o estreito, enquanto ordena a suspensão, por duas semanas, dos bombardeios americanos contra alvos iranianos. O acordo é costurado com mediação do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que anuncia a trégua imediata e convida as partes para uma rodada de negociações em Islamabad na sexta-feira (10).
Israel mantém ofensiva no Líbano e amplia saldo de vítimas
No mesmo dia em que o cessar-fogo começa a valer entre Washington e Teerã, o Líbano volta ao centro do conflito. As Forças de Defesa de Israel (IDF) descrevem como os “maiores ataques” em todo o país desde o início da operação contra o Hezbollah uma série de bombardeios lançados em apenas dez minutos. Segundo o porta-voz Avichay Adraee, cerca de 100 quartéis-generais e infraestruturas militares do grupo xiita são atingidos simultaneamente em diferentes áreas, incluindo os subúrbios do sul de Beirute, o Vale do Bekaa e regiões montanhosas.
O Ministério da Saúde do Líbano informa à agência Reuters que 89 pessoas morrem e mais de 700 ficam feridas nos ataques desta quarta. Hospitais em Beirute operam no limite, com corredores lotados, enquanto o Ministério pede que moradores evitem sair às ruas para liberar espaço às ambulâncias. A emissora Lebanon 24 fala em superlotação do sistema de saúde, e o canal pró-Hezbollah Al Manar relata múltiplas mortes em bairros residenciais densamente povoados.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, usa a rede X para acusar Israel de ampliar “agressões” contra civis desarmados e cobra ação internacional. “Todos os amigos do Líbano são convocados a nos ajudar a impedir essas agressões por todos os meios disponíveis”, escreve. Ele afirma que os bombardeios demonstram “total desrespeito” ao direito internacional e pede que a paz regional inclua de forma explícita o território libanês.
A disputa sobre o alcance da trégua se torna imediata. O mediador paquistanês declara pela manhã que o cessar-fogo também vale para o Líbano, onde Israel mantém tropas em solo contra o Hezbollah. Poucas horas depois, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu corrige o rumo em Tel Aviv: “O cessar-fogo não inclui o Líbano”, afirma, ao confirmar a continuidade da operação. A Casa Branca acompanha a posição israelense e deixa claro que a trégua é estritamente entre Estados Unidos e Irã.
Para o governo israelense, separar os cenários é essencial. O ministro da Defesa, Israel Katz, diz que o país insiste em “mudar a realidade no Líbano” e em “remover ameaças aos moradores do norte de Israel”. A liderança em Jerusalém repete que não deixará o território libanês enquanto considerar o Hezbollah uma ameaça existencial. Nas ruas de Beirute, essa distinção diplomática tem pouco efeito prático: moradores se refugiam em abrigos improvisados enquanto novas sirenes ecoam na fronteira norte de Israel e no interior do próprio Irã, alvo de lançamentos de mísseis na noite anterior.
Pressão sobre petróleo, mercados e negociações
O impasse em Ormuz acontece em uma rota que, antes do fechamento ordenado por Teerã, concentrava cerca de 20% do petróleo que chega ao mercado global. Cada dia de incerteza sobre o fluxo de navios aumenta a pressão sobre preços internacionais de energia e alimenta volatilidade em bolsas e moedas de países dependentes de importações. Para governos europeus, que já enfrentam custos elevados de energia, a combinação de trégua frágil e bloqueio parcial funciona como um lembrete do poder de barganha do Irã.
Os mercados ainda tentam decifrar qual versão sobre o estreito prevalece: a de Teerã, que fala em interrupção da passagem de petroleiros em retaliação aos ataques no Líbano, ou a de Washington, que afirma ver “aumento” no tráfego. Na prática, armadores e seguradoras tendem à cautela. A ameaça explícita da IRGC de destruir embarcações que cruzarem o estreito sem autorização oficial eleva custos de seguro, redesenha rotas e pode atrasar entregas em um momento de demanda sustentada por petróleo.
Enquanto isso, Trump tenta vender o cessar-fogo como vitória estratégica. Na rede Truth Social, afirma que os Estados Unidos “já atingiram e superaram todos os objetivos militares” e que agora discutem “alívio de tarifas e sanções” com Teerã. Ele ameaça taxar em 50% todos os bens exportados para os EUA por países que venderem armas ao Irã, medida que atinge diretamente fornecedores emergentes de equipamentos militares no Oriente Médio e na Ásia.
Do lado iraniano, o Conselho Supremo de Segurança Nacional divulga um plano de dez pontos que, segundo a mídia estatal, inclui o fim completo da guerra no Irã, Iraque, Líbano e Iêmen, o compromisso total com a retirada de sanções, a liberação de ativos congelados e compensações integrais pelos custos de reconstrução. O documento ainda afirma que o país “se compromete plenamente a não buscar a posse de armas nucleares” e apresenta a trégua como vitória que será “consolidada nas negociações políticas”.
A Casa Branca contesta essa versão. Trump diz que o plano de dez pontos divulgado por veículos iranianos vem de “pessoas que não têm nada a ver” com as negociações e promete que “falsários” serão desmascarados após investigação federal. Para Washington, apenas uma proposta, discutida a portas fechadas, é aceitável. O contraste alimenta a sensação de que, mesmo em pausa militar, a guerra de versões e de informação segue ativa.
Negociações sob desconfiança e risco de escalada
As delegações de Estados Unidos, Irã e países mediadores se preparam para a reunião prevista em Islamabad com um histórico recente pouco animador. As duas rodadas anteriores de negociação, no ano passado, terminam com nova escalada militar durante as conversas. Correspondentes como Khashayar Joneidi, da BBC News Persa em Washington, descrevem um “déficit de confiança” profundo, agravado pelo impasse em Ormuz e por divergências sobre o programa nuclear iraniano e o alcance do enriquecimento de urânio.
Um grupo de países ocidentais, entre eles Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos e Espanha, publica nota pedindo uma “paz rápida e duradoura” no Irã e defendendo que “todas as partes” cumpram o cessar-fogo de duas semanas, inclusive no Líbano. O apelo contrasta com a posição formal de Washington e Tel Aviv e expõe fissuras entre aliados sobre a melhor forma de conter o Hezbollah sem implodir o frágil arranjo com Teerã.
No Pentágono, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirma que as tropas americanas “permanecem onde estão” e “prontas para retomar a qualquer momento” os ataques contra o Irã caso a trégua seja violada. No Golfo, comandantes da IRGC mantêm o controle operacional sobre o estreito que se tornou, mais uma vez, termômetro de risco geopolítico. Em Beirute, médicos tentam dar conta de feridos que chegam sem parar, enquanto o governo pede aos cidadãos que deixem as ruas livres para as ambulâncias.
Os próximos dias mostram se o bloqueio em Ormuz é usado por Teerã como moeda de troca para obter garantias sobre o Líbano ou se se transforma em crise de abastecimento global. Também revelam se Israel aceita algum tipo de limitação à ofensiva contra o Hezbollah em nome da trégua maior com o Irã. Até lá, o cessar-fogo que promete duas semanas de respiro convive com foguetes, ameaças e navios em espera, numa região em que qualquer erro de cálculo pode reabrir a guerra em escala total.
