Irã endurece controle e ameaça estudantes após novos protestos em Teerã
O governo do Irã emite, em fevereiro de 2026, advertências formais a estudantes e universidades de Teerã e impõe novas restrições para conter protestos. Os atos, concentrados em campi da capital, desafiam o regime em meio à crescente pressão militar dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.
Universidades sob cerco e geração em alerta
Os corredores da Universidade de Teerã, principal palco da mobilização estudantil, passam a ter presença constante de forças de segurança. Guardas armados controlam entradas, registram documentos e limitam a circulação de grupos com mais de cinco pessoas. Estudantes relatam checagens de celulares e abordagens dentro de salas de aula.
Em comunicados divulgados por canais oficiais, o Ministério do Interior adverte que “qualquer perturbação da ordem” está sujeita a punições imediatas. Reitores recebem instruções por escrito para colaborar com as autoridades e identificar organizadores de atos. Segundo um estudante de Ciências Políticas, de 21 anos, que fala sob condição de anonimato, “professores avisam que não podem nos proteger, que a ordem vem de cima e que ninguém quer perder o emprego”.
Pressão externa alimenta clima interno de confronto
As advertências do regime ganham peso num momento em que a tensão com Washington volta a subir. Nas últimas semanas, o governo Donald Trump anuncia o envio de navios e bombardeiros adicionais para o Golfo Pérsico e fala em “resposta esmagadora” a qualquer ataque iraniano contra interesses americanos. Autoridades em Teerã acusam os Estados Unidos de incentivar um “levantamento fabricado” em universidades e em bairros centrais.
Em discurso transmitido pela TV estatal, um porta-voz do governo afirma que “certos estudantes estão servindo à agenda de potências hostis” e promete agir com “firmeza e rapidez”. A retórica lembra ondas anteriores de repressão, como a de 2019, quando protestos contra o aumento de 50% no preço da gasolina terminaram em centenas de mortos, segundo organizações de direitos humanos estrangeiras. Agora, o foco não é o preço de um bem específico, mas o próprio modelo de poder no país.
Protestos se espalham e desafiam linhas vermelhas do regime
Os atos mais recentes começam como vigílias em memória de manifestantes mortos em anos anteriores. Em poucos dias, transformam-se em assembleias com centenas de jovens, que entoam palavras de ordem contra a repressão e a crise econômica. Com inflação estimada acima de 40% ao ano e desemprego juvenil superior a 25%, muitos estudantes dizem ver pouco futuro dentro das fronteiras iranianas.
Uma jovem de 19 anos, aluna de Engenharia, conta que colegas vendem computadores e livros para ajudar nas contas da família. “Quando gritamos no pátio, não é só política. É o aluguel, é a comida, é o medo de não conseguir trabalhar”, diz. A conexão entre descontentamento econômico e cobrança por mudanças políticas preocupa o governo, que tenta enquadrar as manifestações como problema de segurança nacional e não de governança.
Medidas de contenção e risco de escalada
As novas restrições vão além dos muros universitários. Em praças de Teerã, caminhões da Guarda Revolucionária estacionam próximos a estações de metrô, e vans sem identificação circulam por regiões conhecidas como pontos de encontro de estudantes. Autoridades impõem limites ao uso de internet móvel em horários de pico, derrubam aplicativos de mensagens e dificultam o acesso a redes sociais estrangeiras. Organizações independentes calculam que, em alguns bairros, a conexão cai por até 6 horas diárias.
Em paralelo, tribunais aceleram julgamentos de detidos em protestos anteriores. Advogados relatam processos concluídos em menos de 15 dias, com sentenças que incluem penas de vários anos de prisão por acusações vagas de “propaganda contra o Estado”. “O objetivo é mandar um recado preventivo”, afirma um defensor de direitos humanos que vive fora do país. “O governo tenta convencer o estudante que pensa em ir para a rua de que o preço será alto demais.”
Donald Trump explora tensão para pressionar Teerã
Do outro lado, Donald Trump transforma a crise interna iraniana em argumento político. Em discursos recentes, o republicano volta a pintar Teerã como “regime brutal” e sugere que a insatisfação popular é prova de fracasso do governo local. Conselheiros americanos apostam que uma combinação de sanções econômicas, pressão militar e apoio simbólico a manifestantes pode dobrar a liderança iraniana em futuras negociações.
A estratégia aumenta a sensação de cerco em Teerã. Integrantes do establishment iraniano veem nas falas de Trump uma forma de legitimar uma resposta dura contra estudantes, sob a alegação de que estariam agindo a serviço de uma potência inimiga. Em conversas reservadas, diplomatas europeus alertam que a escalada verbal de Washington, somada à repressão interna, cria um cenário em que qualquer incidente menor pode sair de controle em questão de horas.
Impacto regional e sinais para o resto do mundo
O endurecimento sobre as universidades iranianas repercute além das fronteiras do país. Investidores acompanham com atenção o aumento do risco político no Oriente Médio, região responsável por cerca de 30% do petróleo exportado no mundo. Movimentos bruscos no preço do barril, mesmo de 5% a 10% em poucos dias, já afetam moedas e bolsas de países dependentes da commodity, como Brasil e Índia.
Governos da Europa e da Ásia evitam críticas públicas mais duras, temendo prejudicar negociações sobre o programa nuclear iraniano e a segurança de rotas marítimas estratégicas. Em comunicados discretos, pedem “moderação” às duas partes, sem apontar diretamente responsabilidades. Associações de ex-alunos e redes acadêmicas internacionais, porém, emitem notas em defesa da liberdade de expressão nos campi e pedem que Teerã reverta as medidas mais severas.
Próximos passos e incertezas
O governo iraniano indica que não pretende recuar no curto prazo. As advertências deixam claro que novas manifestações podem levar ao fechamento temporário de faculdades e à expulsão sumária de alunos identificados como líderes. Estudantes, por sua vez, organizam-se em grupos pequenos, combinam sinais para dispersar rapidamente e planejam ações-relâmpago para driblar a vigilância.
Diplomatas em Teerã e em capitais ocidentais avaliam que as próximas semanas serão decisivas. Um aumento no número de prisões ou um episódio de violência letal em um campus pode transformar atos localizados em crise política nacional. A resposta da Casa Branca, a intensidade da presença militar americana na região e a capacidade de o regime iraniano calibrar a repressão definem se esta nova rodada de protestos termina em negociação, em recuo silencioso ou em mais um capítulo sangrento da disputa entre governo e ruas.
