Irã e EUA fracassam em tentativa de cessar-fogo mediada pelo Paquistão
Irã e Estados Unidos encerram neste sábado (11) uma maratona de 21 horas de negociações no Paquistão sem acordo de cessar-fogo. A proposta buscava reabrir o Estreito de Ormuz e conter um conflito que já matou cerca de 3,3 mil pessoas em território iraniano.
Maratona diplomática acaba em impasse
O encontro em Islamabad, capital paquistanesa, reúne o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf. Paquistão tenta desde segunda-feira (6) costurar uma saída para a crise e oferece uma proposta em duas etapas: uma trégua imediata, seguida de um acordo mais amplo para encerrar a guerra e reabrir completamente o Estreito de Ormuz, rota por onde escoa parte decisiva do petróleo mundial.
As conversas se estendem por quase um dia inteiro, a portas fechadas, em um hotel sob forte esquema de segurança. Delegações entram e saem de salas de reunião, enquanto assessores negociam redações de parágrafos sensíveis do texto. No centro da discórdia, a exigência americana de garantias claras de que o Irã não desenvolverá uma arma nuclear nem a capacidade de produzi-la em curto prazo.
Vance aparece diante de jornalistas ao fim da rodada para explicitar a linha vermelha de Washington. “Precisamos de um compromisso claro de que o Irã não buscará desenvolver uma arma nuclear nem os meios que permitiriam obtê-la rapidamente”, afirma. A delegação iraniana rejeita o formato proposto e considera que os EUA tentam transformar um cessar-fogo emergencial em um novo capítulo da disputa sobre o programa nuclear do país.
Teerã não comenta em detalhes os termos em discussão, mas interlocutores admitem que qualquer assinatura que limite publicamente suas capacidades nucleares é politicamente tóxica em meio a uma guerra. Sem consenso sobre esse ponto, o esboço de trégua perde sustentação e as 21 horas de negociação terminam sem anúncio conjunto, sem foto oficial e sem calendário para um novo encontro.
Crise prolonga guerra e ameaça o fluxo de petróleo
A ausência de acordo mantém fechada, ou sob forte restrição, uma das artérias energéticas do planeta. O Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, concentra boa parte do fluxo de petróleo que abastece a Ásia, a Europa e, indiretamente, o Brasil. A possibilidade de escalada militar na região alimenta a alta das cotações do barril e amplia a volatilidade de contratos futuros, que orientam preços de combustíveis no varejo em prazos de semanas.
O conflito atual começa no fim de fevereiro, com ataques americanos contra alvos iranianos após uma sequência de incidentes no Golfo e em bases aliadas dos EUA. Em pouco mais de um mês e meio, o saldo estimado chega a cerca de 3,3 mil mortos no Irã, entre militares e civis, segundo dados compilados por autoridades locais e agências internacionais. Hospitais operam no limite em grandes cidades, enquanto o governo iraniano mobiliza seu aparato de propaganda para sustentar apoio interno à resposta militar.
Washington tenta usar o impacto econômico global como argumento de pressão. A equipe de Vance chega a Islamabad com o objetivo de vincular a reabertura de Ormuz a garantias de segurança mais duradouras. Para a Casa Branca, um cessar-fogo sem travas adicionais ao programa nuclear iraniano apenas empurra o problema para frente e deixa aliados do Golfo vulneráveis a novos choques.
Teerã rebate e acusa os EUA de instrumentalizar o tema nuclear para manter um regime de sanções e isolamento. A posição de Qalibaf reflete esse cálculo. Aceitar a cláusula exigida por Washington significaria, na prática, renunciar a um trunfo estratégico sem contrapartidas claras, algo difícil de defender na arena doméstica iraniana após semanas de bombardeios e milhares de mortos.
Enquanto seu vice negocia no Paquistão, Donald Trump mantém agenda em outro cenário. O presidente dos EUA passa o sábado em Miami, onde assiste a uma luta de UFC. Questionado sobre o futuro das conversas com o Irã, adota um tom de desdém calculado. Diz que, de sua perspectiva, “não faz diferença se um acordo for alcançado ou não com o Irã”. A frase é interpretada por diplomatas como recado ao público interno americano e sinal de que Washington está disposto a assumir o custo de uma guerra prolongada.
Negociações travadas e incerteza adiante
O fracasso em Islamabad aprofunda a sensação de impasse em capitais que dependem diretamente do petróleo que cruza Ormuz. Governos na Europa e na Ásia pressionam discretamente por uma solução que estabilize o fluxo, mas evitam se colocar abertamente contra Washington ou Teerã. As grandes petroleiras revisam projeções, antecipam compras e avaliam redirecionar parte do transporte para rotas mais longas e caras, o que tende a se refletir no bolso dos consumidores.
Sem cessar-fogo, o risco é de intensificação dos ataques nas próximas semanas. Analistas militares alertam para a possibilidade de erros de cálculo em um corredor estreito e congestionado como o Golfo Pérsico. Um único incidente grave com navios de países terceiros pode arrastar novos atores para o centro da crise e dificultar ainda mais qualquer iniciativa de mediação.
O próprio Paquistão, que aposta na diplomacia como forma de ganhar relevância regional, sai da rodada sob pressão. O governo em Islamabad promete continuar o esforço e tenta manter abertas as linhas de comunicação com os dois lados. A proposta em duas fases permanece como base de conversa, mas perde força diante da rigidez das posições sobre o programa nuclear.
Diplomatas envolvidos nas negociações admitem, em caráter reservado, que um novo encontro só deve ocorrer se houver sinal claro de mudança de cálculo em Washington ou em Teerã. Por ora, nenhum dos lados parece disposto a dar o primeiro passo. A guerra segue, o número de mortos no Irã tende a aumentar e o mundo acompanha, atento ao próximo movimento em uma crise que começa em fevereiro e ainda não tem horizonte de fim.
