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Irã diz estar pronto para guerra, mas pressiona EUA por acordo

O chanceler iraniano, Seyed Abbas Araghchi, afirma nesta semana que o Irã está preparado para uma escalada militar com os Estados Unidos, mas insiste que prefere um desfecho diplomático. Em mensagem enviada via Telegram à Al Jazeera, ele resume o recado a Washington em duas opções: “guerra ou diplomacia”.

Escalada no discurso em meio a negociações paradas

Araghchi fala enquanto as conversas indiretas entre Teerã e Washington, mediadas pelo Sultanato de Omã, seguem suspensas. Essas negociações tratam do programa nuclear iraniano e foram interrompidas recentemente, aprofundando a incerteza em um momento em que as tensões já se acumulam no Golfo Pérsico. O chanceler diz que o país está “mais preparado do que nunca” tanto para a mesa de negociação quanto para um confronto militar.

As declarações chegam após anos de disputa em torno do direito do Irã de enriquecer urânio e de desenvolver mísseis de médio e longo alcance. Desde que os Estados Unidos deixaram o acordo nuclear de 2015, em 2018, Washington volta a impor sanções duras ao setor de energia, ao sistema financeiro e à indústria militar iraniana. Ordens recentes reforçam mecanismos para aplicar tarifas extras a países que comprem bens e serviços ligados ao Irã, ampliando o cerco econômico e elevando o custo político de qualquer aproximação com Teerã.

Na entrevista, o chanceler descreve uma equação simples, mas carregada de risco. “A possibilidade de guerra sempre existe, e estamos preparados para evitá-la”, afirma. A mensagem aos negociadores americanos, segundo ele, é direta: “Vocês têm duas opções: guerra ou diplomacia. Nossa escolha é a diplomacia”. Mesmo ao enfatizar a preferência pelo diálogo, Araghchi procura deixar claro que o país não cederá em temas centrais de sua política estratégica.

Linhas vermelhas sobre urânio e mísseis

O chanceler reitera que a primeira rodada de conversas, conduzida de forma indireta por Omã, aborda exclusivamente o programa nuclear. Ele rejeita qualquer exigência que limite o país a “enriquecimento zero”. “O enriquecimento é um direito nosso e deve continuar”, diz, reforçando que Teerã considera essa capacidade parte de sua soberania tecnológica. Para Araghchi, ataques militares não eliminam o conhecimento acumulado em mais de duas décadas. “O enriquecimento não é eliminado por bombardeios. A tecnologia não é eliminada por bombardeios”, afirma.

O Irã também fecha a porta para incluir o programa de mísseis nas discussões. Araghchi classifica esse arsenal como “exclusivamente defensivo” e afirma que questões regionais e assuntos internos não entram na pauta com potências estrangeiras. O recado é dirigido tanto aos Estados Unidos quanto a aliados europeus, que pressionam há anos por limites mais amplos ao alcance dos mísseis iranianos. O chanceler tenta, assim, delimitar o escopo das negociações futuras e proteger pilares da estratégia militar do país.

A data da próxima rodada ainda não está definida, mas Araghchi diz esperar um retorno à mesa nos “próximos dias” e afirma que Teerã está pronto para avançar rapidamente em direção a um entendimento. O objetivo, segundo ele, é chegar a um “acordo justo e abrangente”, fórmula que sugere algum tipo de alívio de sanções em troca de limites verificáveis ao programa nuclear. Esse equilíbrio é o mesmo que sustentou o pacto selado em 2015, quando o Irã aceitou regras rígidas de inspeção em troca de abertura econômica.

Mercados em alerta e risco no Estreito de Ormuz

As declarações do chanceler repercutem em um cenário de nervosismo crescente nos mercados de energia. Preços do petróleo avançam na sexta-feira, após a interrupção das conversas mediadas por Omã e a escalada no tom entre os dois países. Investidores temem que um erro de cálculo militar ou uma decisão política mais agressiva resulte em conflito aberto ou mesmo em um bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, rota por onde circula cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no mundo.

O risco não se limita à região. A possibilidade de novas sanções secundárias, com sobretaxas a países que importem bens e serviços iranianos, pressiona empresas europeias e asiáticas que ainda mantêm negócios com Teerã. A ordem americana que permite impor tarifas adicionais funciona como um aviso: qualquer aproximação econômica com o Irã terá custo financeiro e diplomático imediato. Esse ambiente reforça a volatilidade em bolsas globais e atinge, em cadeia, moedas de países emergentes, que já sentem o impacto de movimentos bruscos no preço do barril.

Araghchi tenta modular o risco ao prometer limites claros para uma eventual resposta militar. “Se os EUA atacarem, não atacaremos seu território. Responderemos às suas bases na região”, afirma. O discurso busca mostrar firmeza sem acenar com uma guerra total, que poderia arrastar países vizinhos e ampliar a destruição. Ao restringir o alvo a instalações militares americanas no Oriente Médio, o Irã sinaliza que pretende evitar, ao menos no plano retórico, uma escalada direta entre as duas potências em seus próprios territórios.

Pressão sobre diplomacia e incerteza adiante

A combinação de ameaça calculada e oferta de diálogo coloca pressão sobre Washington e países mediadores. Omã, que participa de canais discretos entre iranianos e americanos desde o início dos anos 2000, volta ao centro da equação. O sultanato tenta, mais uma vez, construir pontes onde a confiança mútua é mínima. A tarefa passa por acomodar interesses divergentes: de um lado, a exigência dos Estados Unidos por garantias robustas; de outro, a recusa do Irã em abrir mão de seu programa nuclear civil e de seus mísseis.

O próximo movimento dependerá da disposição da Casa Branca em aceitar algum grau de flexibilização nas sanções em troca de inspeções e limites técnicos. Também dependerá da capacidade de o Irã demonstrar que pode cumprir compromissos sem usar o programa nuclear como moeda de pressão a cada nova crise. Enquanto não há data confirmada para a segunda rodada de negociações, investidores, governos regionais e organismos internacionais trabalham com um cenário duplo, tão binário quanto a frase do chanceler: ou as conversas em Omã retomam fôlego, ou a retórica de prontidão para a guerra se aproxima perigosamente da prática.

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