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Irã desafia pressão dos EUA e promete reação feroz a eventual ataque

O governo iraniano resiste à pressão dos Estados Unidos e promete uma reação “feroz” a qualquer ataque americano. O impasse se cristaliza nesta segunda-feira (23), em Teerã e Washington, enquanto cresce o risco de uma ofensiva militar limitada autorizada por Donald Trump. A diplomacia segue em curso, mas autoridades dos dois lados admitem que a janela para um acordo se estreita rapidamente.

Tensão em alta entre Teerã e Washington

Em conversas reservadas com aliados, diplomatas americanos descrevem um cenário em que um primeiro ataque, restrito a alvos militares iranianos, já não é tratado como hipótese remota. O enviado especial dos EUA para o Oriente Médio intensifica reuniões desde o fim de semana, mas opera sob um prazo político apertado imposto pela Casa Branca. Pessoas próximas ao processo falam em “semanas, não meses” para uma decisão de Trump.

Em Teerã, a resposta pública é calculada para mostrar firmeza e evitar qualquer sinal de fraqueza interna. Autoridades ligadas ao núcleo duro do regime dizem que um ataque, mesmo limitado, cruzaria uma “linha vermelha”. “Uma agressão dos EUA terá uma resposta feroz e imprevisível”, afirma um alto funcionário iraniano, sob condição de anonimato. A mensagem é dirigida tanto a Washington quanto à própria população, que convive com a retórica de confronto há mais de quatro décadas.

Diplomacia sob pressão e risco de mudança de regime

Na capital americana, conselheiros de Trump sustentam que as tentativas de negociação fracassam desde o fim de 2025, quando uma rodada em Genebra termina sem acordo sobre o programa nuclear e o apoio iraniano a grupos armados na região. O governo americano aumenta sanções setoriais em janeiro de 2026, atingindo bancos, companhias de transporte e o setor petroquímico, responsável por cerca de 30% das exportações iranianas. Até agora, o impacto econômico não produz a mudança de comportamento esperada por Washington.

No círculo mais próximo do presidente, ganha força o discurso de que somente uma “demonstração de força” pode forçar Teerã a ceder. Assessores falam, em conversas em off, na possibilidade de uma ofensiva desenhada para abalar a estrutura de poder iraniana e, no limite, contribuir para a queda da atual liderança. Trump, segundo relatos de membros do governo, não descarta esse cenário, embora em público ainda diga buscar uma “grande barganha” com o Irã.

Histórico de confronto e peso estratégico do Irã

A crise atual se apoia em um histórico de desconfiança que remonta a 1979, quando a Revolução Islâmica rompe laços com Washington e transforma o país em adversário declarado dos EUA. O acordo nuclear assinado em 2015, que limita o enriquecimento de urânio em troca de alívio de sanções, chega a reduzir a tensão, mas Trump decide abandonar o pacto em 2018. Desde então, o relacionamento entra em uma espiral de sanções, ataques por procuração e incidentes no Golfo Pérsico.

O Irã ocupa posição estratégica em uma região que concentra cerca de 30% da produção mundial de petróleo. Qualquer conflito que envolva diretamente o país ameaça rotas marítimas no estreito de Ormuz, por onde passam, em média, 20% das exportações globais de óleo. Investidores acompanham o impasse com nervosismo: em alguns dos episódios mais agudos de tensão recente, o barril do tipo Brent chegou a subir mais de 10% em poucos dias.

Mercados em alerta e impacto regional

No Oriente Médio, governos aliados dos Estados Unidos adotam tom público de cautela, mas calculam, em privado, os custos de um confronto. Bases americanas instaladas em países como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos podem se tornar alvo de retaliações iranianas em questão de horas. Israel acompanha de perto qualquer movimento, atento ao papel de Teerã no financiamento e no armamento de grupos hostis em sua fronteira.

Em capitais europeias, cresce a percepção de que uma nova guerra no Oriente Médio teria efeitos humanitários e políticos duradouros. Organismos internacionais já projetam cenários com fluxos adicionais de refugiados e deslocados internos, caso bombardeios atinjam áreas urbanas iranianas. A própria população do país vive entre a ansiedade econômica, causada pelas sanções, e o temor de ver cidades como Teerã, Isfahan e Mashhad sob risco de ataques aéreos.

O que está em jogo para Washington e Teerã

Para o governo Trump, o embate com o Irã funciona também como demonstração de liderança em política externa em um ano de forte disputa interna nos EUA. A Casa Branca tenta equilibrar o discurso de firmeza com a rejeição de parte do eleitorado a uma nova guerra de longo prazo, após décadas de presença militar no Iraque e no Afeganistão. Assessores buscam construir uma narrativa de operação rápida, cirúrgica e de efeito político imediato.

Em Teerã, a liderança vê na resistência à pressão americana uma questão de sobrevivência do regime. Qualquer recuo significativo pode ser explorado por opositores internos, que tentam capitalizar o descontentamento com a inflação crescente, a desvalorização da moeda e o desemprego em alta entre jovens. O governo aposta em um discurso nacionalista, que apresenta a crise como mais um capítulo de uma disputa de 47 anos com Washington, e tenta convencer a população de que suportar a pressão hoje evitará um futuro ainda mais incerto.

Próximos passos e riscos de escalada

Negociadores experientes alertam que fases como a atual, em que as partes testam limites e alternam ameaças públicas e recados privados, costumam ser as mais perigosas. Um erro de cálculo, um ataque mal atribuído ou um incidente em uma rota marítima pode funcionar como gatilho para uma escalada rápida, difícil de controlar. A presença de navios americanos e unidades da Guarda Revolucionária iraniana em áreas próximas aumenta o risco de choque direto.

Nas próximas semanas, a atenção se volta a qualquer sinal de recuo retórico ou abertura concreta de negociação. Sem uma saída diplomática que reduza a pressão sobre Teerã e ofereça a Washington um resultado apresentável, a ameaça de uma ofensiva militar limitada continua na mesa. A dúvida, para chancelerias e analistas, é se os dois lados ainda enxergam algum interesse comum em evitar que essa crise entre definitivamente para a lista de conflitos abertos do Oriente Médio.

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