Irã desafia pressão dos EUA e mantém linha dura sobre programa nuclear
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirma nesta 21 de fevereiro de 2026 que o país não vai ceder à pressão dos Estados Unidos sobre o programa nuclear. Em discurso transmitido ao vivo pela TV estatal, ele diz que Teerã não vai “curvar a cabeça” diante das exigências de Washington.
Fala dura em meio a negociações delicadas
Pezeshkian escolhe a TV estatal, principal canal de comunicação do regime com a população, para enviar um recado simultâneo a Washington e ao público interno. Ao vivo, em rede nacional, ele afirma que o Irã mantém “direitos inegociáveis” na área nuclear e não aceitará o que chama de “diktats” americanos. A declaração ocorre enquanto emissários iranianos e norte-americanos tentam, por canais diretos e indiretos, destravar novas conversas sobre limites ao enriquecimento de urânio e alívio de sanções econômicas.
O presidente fala em tom de desafio, ecoando o discurso de resistência que marca a política externa iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979. Sem citar datas ou números específicos, ele reforça que o programa nuclear tem fins “pacíficos” e enquadra as pressões dos Estados Unidos como violação da soberania do país, que hoje abriga cerca de 88 milhões de habitantes. O gesto mira o público doméstico, sensível ao impacto das sanções no cotidiano, e as capitais estrangeiras que acompanham cada sinal de avanço ou retrocesso nas tratativas.
Tensões renovadas e custo geopolítico
A fala pública endurece o ambiente de uma negociação que já caminha sobre terreno instável desde o rompimento, em 2018, do acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã e seis potências. Naquele pacto, Teerã aceitava restringir o nível de enriquecimento de urânio a 3,67% e limitar estoques a 300 quilos em troca da suspensão de sanções. Desde a saída unilateral dos Estados Unidos, o Irã amplia gradualmente sua capacidade nuclear e passa a operar acima dessas balizas, alimentando temores de que possa reduzir o chamado “breakout time”, o tempo necessário para produzir material suficiente para uma arma.
Sanções americanas e europeias seguem em vigor e atingem principalmente os setores de petróleo, gás e sistema financeiro do país. A receita com exportação de petróleo, que já ultrapassa 2,5 milhões de barris por dia em períodos de bonança, cai significativamente em alguns anos recentes, pressionando o câmbio e a inflação doméstica. Ao rejeitar abertamente a pressão de Washington, Pezeshkian indica que prefere absorver novos custos econômicos a aceitar exigências que considere humilhantes, o que torna um acordo rápido menos provável.
Equilíbrio interno e recado aos aliados
A postura firme tem também uma dimensão interna. A liderança iraniana busca manter coesa uma base política que inclui setores conservadores do establishment religioso e militar, céticos quanto a qualquer aproximação com os Estados Unidos. Ao falar em “não curvar a cabeça”, o presidente se alinha à retórica do líder supremo, autoridade máxima do regime, e tenta evitar a pecha de conciliador fraco em meio às pressões externas. Esse equilíbrio é crucial num sistema em que decisões estratégicas passam por conselhos e corpos de segurança com peso decisivo.
O discurso ainda ressoa além das fronteiras iranianas. Países que enfrentam sanções americanas, como Rússia e Síria, tendem a ler a fala como sinal de alinhamento político. Na região, aliados de Teerã, como grupos armados no Líbano, no Iraque e no Iêmen, podem interpretar o tom desafiador como estímulo à própria resistência em confrontos localizados. Do outro lado, monarquias do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, acompanham o impasse com preocupação, temendo uma escalada que afete o trânsito de navios no estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo.
Impacto direto nas negociações com os EUA
A declaração de Pezeshkian coloca pressão adicional sobre mediadores europeus e sobre organismos multilaterais envolvidos no dossiê nuclear. Um endurecimento da postura iraniana pode levar Washington a defender novas rodadas de sanções no Conselho de Segurança da ONU, o que ampliaria o isolamento financeiro do país. Um pacote mais severo tende a atingir empresas estrangeiras que ainda mantêm atividades no Irã, especialmente em setores como energia, construção e tecnologia.
Diplomatas ouvidos em caráter reservado avaliam que a fala pública reduz a margem de manobra dos negociadores iranianos em encontros à porta fechada. Qualquer concessão visível sobre limites de enriquecimento, inspeções internacionais ou prazos de verificação corre o risco de ser retratada, internamente, como recuo frente aos Estados Unidos. A consequência provável é um processo mais lento e fragmentado, com pequenos gestos de confiança, em vez de um grande acordo abrangente como o de 2015.
Risco de instabilidade regional e próximos passos
Enquanto o impasse se prolonga, a incerteza recai sobre a segurança no Oriente Médio e no mercado global de energia. Um aumento das tensões entre Irã e Estados Unidos, seja por incidentes navais no Golfo Pérsico, seja por ataques atribuídos a grupos apoiados por Teerã, tende a elevar o prêmio de risco no barril de petróleo. Oscilações de US$ 5 a US$ 10 em poucos dias não são incomuns em momentos de crise, com impacto direto sobre combustíveis e inflação em diversos países, inclusive o Brasil.
Nas próximas semanas, a atenção se volta aos sinais que podem surgir de Viena, Genebra ou de capitais regionais que costumam sediar encontros discretos entre enviados iranianos e americanos. O discurso transmitido pela TV estatal deixa poucas dúvidas sobre a linha pública de Teerã, mas não elimina a possibilidade de negociações silenciosas em torno de passos intermediários, como trocas de prisioneiros, descongelamento parcial de ativos e limites provisórios à atividade nuclear. A questão em aberto é se haverá espaço político, de ambos os lados, para transformar essa retórica de resistência em algum tipo de compromisso durável.
