Esportes

Irã decide não disputar Copa de 2026 após morte de Khamenei

O Irã anuncia, nesta quarta-feira (11), que não vai disputar a Copa do Mundo de 2026. A decisão vem após a morte do líder supremo Ali Khamenei, em operação militar dos Estados Unidos, principal país-sede do torneio. A retirada abre uma crise inédita para a Fifa às vésperas do Mundial.

Retirada política em plena era dos megatorneios

O anúncio parte do ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, em meio a um país em luto e sob forte pressão interna por uma resposta ao ataque americano. O Mundial de 2026 começa em 11 de junho, com jogos em Estados Unidos, México e Canadá, e teria a seleção iraniana no Grupo G, ao lado de Egito, Bélgica e Nova Zelândia.

A decisão, embora ainda não formalizada junto à Fifa, é tratada em Teerã como ponto sem volta. A morte de Khamenei, figura central no regime desde 1989, transforma a participação no torneio em solo americano em questão de honra nacional. No governo iraniano, a leitura é de que disputar a Copa em um país que assume a autoria do ataque seria um gesto de normalidade diplomática impossível neste momento.

Nos bastidores da Fifa, o clima é de alarme. O regulamento da Copa prevê que, em caso de retirada por “força maior”, o Comitê Organizador decide as medidas cabíveis. O texto, no entanto, não antecipa um cenário em que a desistência se mistura a um conflito aberto entre um país participante e o principal anfitrião do torneio.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, insiste em público na ideia de que o Mundial “une as pessoas” e evita confrontar diretamente Teerã ou Washington. Em reuniões recentes, relata a interlocutores que tenta manter todas as seleções classificadas no torneio. Nos Estados Unidos, Donald Trump, presidente do país-sede, afirma que a seleção iraniana é “naturalmente bem-vinda” à Copa, numa tentativa de afastar a imagem de boicote imposto.

Grupo desequilibrado, multa milionária e corrida por vaga

A saída do Irã produz um efeito dominó esportivo e financeiro. Se a desistência for confirmada, o Comitê Disciplinar da Fifa pode aplicar multa mínima de 250 mil francos suíços, cerca de R$ 1,6 milhão, para retiradas até um mês antes da partida de abertura. Em caso de prejuízos adicionais a patrocinadores, transmissões e operações, o valor pode subir.

No campo esportivo, a entidade trabalha com duas alternativas imediatas. Uma delas é manter o Grupo G com apenas três seleções: Egito, Bélgica e Nova Zelândia. A medida simplifica a logística, mas altera o equilíbrio técnico e reduz o número de partidas previstas, com impacto direto em bilheteria e direitos de transmissão.

A outra opção é substituir o Irã por outra equipe da Ásia. Iraque e Emirados Árabes Unidos aparecem como favoritos. O Iraque ainda disputa a Repescagem Internacional e mantém uma chance de classificação direta. Se os iraquianos avançarem por essa via, a vaga aberta no grupo asiático poderia ser herdada pelos Emirados. Esse movimento também reacende a possibilidade de ampliar o número de classificados via repescagem, hoje disputada por seleções como Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname e Congo por duas vagas no Mundial.

A manobra exigiria uma revisão fina do calendário de junho e julho, em um torneio já inflado, com mais seleções e mais jogos do que qualquer edição anterior. Cada mudança no chaveamento implica renegociação de horários de TV, deslocamento de torcedores e ajustes de segurança em cidades que preparam a Copa há anos.

Para a seleção iraniana, o custo vai além da multa. O país perde a vitrine esportiva mais valiosa do planeta, com audiência em bilhões de pessoas e contratos de patrocínio amarrados ao ciclo de 2026. Jogadores que atuam na Europa e na Ásia veem escapar a chance de disputar um Mundial no auge da carreira. Empresários temem que a ausência fragilize negociações futuras de atletas iranianos em grandes ligas.

Pressão sobre a Fifa e Copa sob sombra da geopolítica

A retirada do Irã é a primeira de uma seleção classificada em plena era moderna da Copa. A última vez que países desistiram do torneio foi em 1950, quando Escócia, Turquia, Índia e França não viajaram ao Brasil por falta de recursos ou prioridade a campeonatos locais. Desde então, conflitos políticos orbitam o Mundial, mas raramente o impedem.

Há precedentes em fases preliminares. Para a Copa de 1970, a Coreia do Norte se recusa a enfrentar Israel em campo neutro após a Guerra dos Seis Dias, e abandona as Eliminatórias. O próprio Irã já é excluído de qualificatórias no passado ao se recusar a jogar em campo neutro durante a guerra com o Iraque. Nenhum desses casos, porém, envolve um boicote direto ao país-sede em um momento tão próximo da competição.

Com a contagem regressiva de três meses até o pontapé inicial, a Fifa tenta evitar que o caso iraniano se transforme em precedente para futuras crises diplomáticas. Dirigentes temem abrir espaço para que governos usem a Copa como instrumento de pressão política, escolhendo participar ou não de acordo com o cenário geopolítico do momento.

Nos Estados Unidos, o dossiê Irã entra na pauta de segurança e de comunicação do Mundial. Autoridades precisam calibrar o discurso entre firmeza militar e hospitalidade esportiva, enquanto torcedores iranianos espalhados pela diáspora avaliam se mantêm viagens já planejadas. Em Teerã, grupos mais moderados alertam que o isolamento esportivo tende a reforçar radicais, não o contrário.

A Fifa ainda não anuncia uma decisão final sobre o destino do Grupo G nem sobre punições ao Irã. A resposta deve sair em semanas, a tempo de reorganizar tabela, logística e venda de ingressos. O Mundial que se apresenta como o mais global da história entra, assim, na reta final com uma pergunta incômoda: até onde o futebol consegue resistir quando a política decide entrar em campo?

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