Irã condiciona diluição de urânio a 60% ao fim de sanções
O Irã se declara disposto a diluir o urânio enriquecido a 60% já produzido pelo país, anunciou nesta segunda-feira (9) o chefe da agência nuclear iraniana, Mohammad Eslami. A oferta, feita em Teerã, é condicionada à suspensão das sanções econômicas internacionais e insere novo elemento nas negociações com os Estados Unidos sobre o programa nuclear da República Islâmica.
Negociação tenta destravar impasse de mais de uma década
A declaração de Eslami ocorre em meio a uma nova rodada de conversas indiretas entre Teerã e Washington, mediada por diplomatas europeus e por emissários regionais. O gesto mira diretamente o coração do impasse: o acúmulo de urânio em alto nível de enriquecimento, visto por potências ocidentais como a etapa mais sensível na rota para uma arma nuclear. O governo iraniano insiste que seu programa tem fins exclusivamente civis, voltados à geração de energia e à pesquisa médica.
Eslami apresenta a disposição de diluir o estoque de urânio a 60% como moeda concreta de troca. Segundo ele, a redução do grau de pureza só ocorre se as principais sanções financeiras e petrolíferas forem suspensas. “O urânio enriquecido a 60% pode ser diluído se nossas demandas forem atendidas, incluindo o levantamento efetivo das sanções”, afirma o chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, em referência às medidas impostas por Estados Unidos e aliados desde 2018.
O movimento remete ao acordo nuclear de 2015, conhecido pela sigla JCPOA, assinado por Irã, EUA, União Europeia, Rússia e China. À época, Teerã concorda em limitar o enriquecimento de urânio a 3,67% e reduzir seus estoques em troca do relaxamento de sanções. Em 2018, o então presidente Donald Trump rompe unilateralmente com o pacto e restabelece punições econômicas, que derrubam as exportações de petróleo iraniano e isolam o país do sistema financeiro internacional. Desde então, o programa nuclear avança em etapas sucessivas.
Ao elevar o nível de enriquecimento a 60%, Teerã dá um salto político e técnico. Usinas nucleares civis funcionam com urânio enriquecido em torno de 3% a 5%. Armamentos nucleares exigem concentrações próximas de 90%. Chegar a 60% significa reduzir consideravelmente o tempo necessário para, se houver decisão política, alcançar o patamar bélico. Esse ponto é central na pressão exercida por Washington, Israel e países europeus para limitar as capacidades iranianas.
Aposta em alívio econômico e reordenamento geopolítico
A oferta de diluição surge enquanto o Irã enfrenta inflação elevada, moeda desvalorizada e crescimento anêmico sob o peso das sanções. Desde 2018, o país perde dezenas de bilhões de dólares em receita de petróleo por ano, segundo estimativas de organismos internacionais. A suspensão parcial ou total dessas medidas poderia recolocar milhões de barris diários de crude iraniano no mercado global, com impacto direto nos preços de energia e nas receitas do governo em Teerã.
Em paralelo, os Estados Unidos buscam reduzir tensões no Golfo Pérsico e afastar o risco de confronto direto, num momento em que também lidam com crises simultâneas na Europa e na Ásia. Washington tenta calibrar a negociação para conter o programa nuclear iraniano sem parecer ceder demais a um adversário histórico. O cálculo leva em conta a pressão de Israel, que enxerga o avanço nuclear de Teerã como ameaça existencial e não esconde a disposição de agir militarmente se considerar que o tempo está se esgotando.
A diluição do urânio a 60% para níveis mais baixos, próximos aos padrões de combustível civil, teria efeito imediato na avaliação de risco feita por agências de inteligência ocidentais. O estoque hoje acumulado encurta o chamado “breakout time”, o prazo necessário para produzir material físsil suficiente para uma ogiva nuclear, estimado em poucos meses por centros de pesquisa internacionais. Ao reduzir o grau de enriquecimento, o Irã sinaliza disposição de afastar esse cenário, desde que o gesto se reflita na economia real.
Os efeitos se espalham além da mesa de negociação. Países europeus, dependentes de energia e envolvidos em suas próprias transições energéticas, acompanham de perto o potencial aumento da oferta de petróleo e gás iranianos. Monarquias do Golfo, rivais regionais de Teerã, veem na possível reabilitação econômica iraniana uma mudança no equilíbrio de forças regional. A Rússia, sob sanções pesadas desde 2022, observa com interesse qualquer rearranjo que altere fluxos de energia e alianças diplomáticas.
Próxima fase de diálogo definirá alcance do gesto iraniano
As próximas semanas devem mostrar se a proposta iraniana encontra resposta concreta em Washington. Diplomatas envolvidos nas conversas trabalham com prazos em torno de 60 a 90 dias para transformar a sinalização em compromissos verificáveis. A Agência Internacional de Energia Atômica, braço nuclear da ONU, tende a ser chamada a certificar qualquer processo de diluição do urânio e a monitorar eventual redução de estoques, passo essencial para dar credibilidade a um novo entendimento.
O anúncio de Eslami também testa a coesão interna do regime iraniano, que equilibra pressões de setores mais pragmáticos, interessados no alívio econômico, e de grupos que veem concessões como sinal de fraqueza. A resposta americana, por sua vez, será lida não apenas em Teerã, mas em capitais aliadas como Riad, Tel Aviv e Bruxelas. Entre a promessa de diluir urânio a 60% e um acordo duradouro há um terreno ainda nebuloso, no qual cada gesto técnico carrega peso político. O rumo da negociação dirá se o Oriente Médio caminha para um ciclo de distensão ou para mais um capítulo de incerteza nuclear.
