Irã condiciona diálogo com EUA a cessar-fogo no Líbano e ativos
O presidente do Parlamento iraniano condiciona, nesta sexta-feira 10 de abril de 2026, as negociações com os Estados Unidos a um cessar-fogo no Líbano e ao desbloqueio de ativos do país. O recado, divulgado às vésperas do encontro entre delegações em Islamabad, eleva a pressão sobre Washington e expõe a disputa em torno dos termos da trégua no Oriente Médio.
Pressão iraniana às vésperas da rodada no Paquistão
Mohammad Bagher Ghalibaf usa sua conta no X para formalizar o que Teerã vinha sugerindo nos bastidores. Ele afirma que as partes já concordam com duas medidas concretas, mas que nenhuma delas sai do papel até agora: um cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio de ativos iranianos congelados no exterior. Sem esses passos, avisa, não há mesa de negociação em Islamabad.
“Duas das medidas sobre as quais as partes chegaram a um acordo ainda precisam ser implementadas: um cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio dos ativos iranianos, antes do início das negociações”, escreve Ghalibaf. Em seguida, insiste que “essas duas questões devem ser resolvidas antes do início das negociações” no Paquistão. A mensagem transforma pré-condições diplomáticas em linha vermelha pública e reduz a margem de recuo de Teerã sem custo político interno.
O anúncio ocorre horas depois de o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, embarcar rumo a Islamabad. Ele lidera a delegação americana que tenta transformar um cessar-fogo de duas semanas, já em vigor desde a noite de terça-feira, em trégua permanente com o Irã. O Paquistão, governado por Shehbaz Sharif, assume o papel de mediador e hospeda as conversas na capital, repetindo a tradição de atuar como ponte entre Washington e Teerã em momentos de impasse regional.
Desde o anúncio da pausa nos combates, o Irã sustenta que o acordo vale também para o Líbano, arrastado à guerra no início de março após ataques do Hezbollah, grupo aliado de Teerã, contra Israel. Imagens de edifícios destruídos na região de Tiro, no sul libanês, como o ataque registrado nesta semana por fotógrafos da AFP, ajudam a explicar por que o front libanês vira prioridade para o governo iraniano na construção de qualquer trégua mais ampla.
Disputa sobre o Líbano e o dinheiro iraniano congelado
O governo americano rejeita a leitura iraniana sobre o alcance do cessar-fogo. A Casa Branca trata a inclusão do Líbano como um “mal-entendido” e tenta limitar o pacto ao confronto direto com o Irã. Vance reforça esse tom ao advertir que a boa vontade dos Estados Unidos tem limite. “Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa-fé, certamente estaremos dispostos a estender-lhes a mão. Se tentarem nos enganar, verão que a equipe de negociação não está tão receptiva”, afirma, antes de embarcar.
Teerã, por sua vez, apresenta o Líbano como peça central do seu plano de paz de 10 pontos entregue a Washington. Segundo o primeiro-ministro paquistanês, o pacote só se sustenta se o cessar-fogo cobrir o território libanês, onde Israel mantém operações aéreas regulares e enfrenta o Hezbollah ao longo da fronteira. A divergência sobre o que foi, de fato, acordado nos últimos dias empurra para Islamabad a tarefa de transformar declarações contraditórias em compromisso escrito.
O outro eixo da pressão iraniana mira o bolso. Sem mencionar valores, Ghalibaf cobra o desbloqueio de ativos iranianos congelados por sanções internacionais, um volume estimado por diplomatas em dezenas de bilhões de dólares retidos em bancos de países asiáticos e europeus. Até aqui, Teerã evita tratar publicamente essa exigência como condição prévia. O endurecimento desta sexta-feira indica que a equipe iraniana chega ao Paquistão com mandato claro para vincular avanço político a alívio econômico.
A suspensão das sanções econômicas aparece entre as dez demandas formais apresentadas pelo Irã, que vão de garantias de não agressão a limites para a presença militar americana na região. O desbloqueio imediato de uma parcela dos ativos serviria como sinal de confiança e fôlego à economia iraniana, fragilizada por inflação alta, moeda desvalorizada e queda nas exportações de petróleo, que ainda respondem por boa parte das receitas do país.
Risco de impasse e o que está em jogo em Islamabad
Se as condições iranianas forem aceitas, a rodada de Islamabad pode inaugurar uma fase rara de descompressão entre dois adversários que se enfrentam, direta ou indiretamente, há mais de quatro décadas. Um acordo que consolide o cessar-fogo de duas semanas e o estenda ao Líbano tende a reduzir o risco de escalada entre Israel e Hezbollah e a afastar, ao menos no curto prazo, a possibilidade de uma guerra aberta que envolva múltiplos atores regionais.
Diplomatas que acompanham o processo avaliam que um alívio parcial das sanções e o descongelamento de ativos podem redesenhar o equilíbrio de forças no Oriente Médio. O Irã ganharia espaço fiscal para aliviar a pressão interna e reforçar aliados na região, enquanto os Estados Unidos buscariam conter esse movimento com mecanismos de verificação e cláusulas de reversão. O impacto nos mercados de energia também entra na conta, já que qualquer sinal de estabilidade nos estreitos e rotas usados por navios petroleiros tende a reduzir a volatilidade do preço do barril.
A resistência de Washington em admitir formalmente a inclusão do Líbano, porém, alimenta o risco de impasse logo no início das conversas. Se os Estados Unidos recusarem as condições apresentadas por Ghalibaf, o encontro marcado para 10 de abril pode se limitar a um gesto simbólico, sem cronograma claro para uma trégua duradoura. A pressão de aliados de ambos os lados, em particular Israel e os países do Golfo, torna qualquer concessão mais custosa politicamente.
O Paquistão tenta usar seu peso como mediador para evitar esse cenário. Shehbaz Sharif insiste que o entendimento sobre o Líbano já faz parte do desenho original do cessar-fogo e trabalha para que os dois lados assumam, por escrito, essa versão. O sucesso ou o fracasso dessa costura define se Islamabad entra para a crônica diplomática como palco de uma virada ou de mais uma oportunidade perdida.
Enquanto delegações ajustam discursos e calculam até onde podem ceder, a situação no terreno continua frágil. Ataques pontuais, deslocamento de civis e destruição de infraestrutura no sul do Líbano mantêm o risco de uma retomada rápida da violência. A resposta que Teerã e Washington levarão à mesa em 10 de abril indica se o cessar-fogo de duas semanas será apenas mais uma pausa em um conflito recorrente ou o início de uma trégua capaz de redesenhar a segurança no Oriente Médio.
