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Irã ataca petróleo no Golfo e reabre corrida global por segurança energética

O Irã lança nesta quinta-feira (12) uma nova onda de ataques contra infraestruturas petrolíferas no Golfo, no 13º dia da guerra iniciada por Israel e Estados Unidos. Drones e projéteis atingem depósitos, navios e instalações estratégicas, paralisam o Estreito de Ormuz e voltam a empurrar o petróleo Brent acima de US$ 100 o barril.

Escalada atinge coração do mercado de petróleo

A ofensiva transforma instalações antes consideradas seguras em alvo diário. Bahrein, Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos relatam incêndios, explosões e bloqueios em áreas vitais de produção e escoamento de petróleo. O conflito, que começa em 28 de fevereiro com bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, ganha dimensão regional e ameaça o fluxo de energia que sustenta a economia global.

No Bahrein, o governo denuncia um ataque direto a depósitos de combustíveis e orienta moradores a permanecer em casa por causa da fumaça tóxica. Em Omã, imagens verificadas por agências internacionais mostram tanques em chamas no porto de Salalah, depois de um ataque com drones na quarta-feira. No leste da Arábia Saudita, o gigantesco campo de Shaybah registra novo bombardeio, também com drones, contra instalações críticas.

O alvo deixa de ser apenas a infraestrutura em terra. No Golfo Pérsico, dois petroleiros são atingidos perto da costa do Iraque. Pelo menos uma pessoa morre, e equipes de resgate procuram desaparecidos entre destroços em chamas, segundo a autoridade portuária iraquiana. A TV estatal exibe um navio tomado por fogo, em mais um sinal de que a guerra se aproxima das rotas comerciais.

Na costa dos Emirados Árabes Unidos, um porta-contêineres sofre o impacto de um “projétil desconhecido”, de acordo com a agência marítima britânica UKMTO. O ataque provoca um pequeno incêndio, contido pela tripulação, mas reforça a percepção de que qualquer embarcação que se aproxime do estreito entra em zona de risco. Três outros navios são atacados na véspera, elevando o alerta de seguradoras e armadores.

O Estreito de Ormuz, canal por onde passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás natural liquefeito, permanece praticamente travado. O tráfego de petroleiros é suspenso por companhias que não conseguem seguro ou consideram o risco inaceitável. O presidente americano Donald Trump prometeu “grande segurança” na região e afirma ter atacado “28 navios instaladores de minas” iranianos, numa tentativa de neutralizar explosivos submarinos.

Mercado reage à paralisia e à ameaça de guerra longa

A interrupção de Ormuz pesa imediatamente nos preços. O Brent do Mar do Norte supera novamente a marca de US$ 100 nesta quinta-feira, apesar da liberação histórica de reservas estratégicas anunciada na véspera. Em apenas uma semana, segundo o jornal The New York Times, o esforço militar custa mais de US$ 11 bilhões aos Estados Unidos, enquanto governos e empresas correm para recalcular riscos.

Os 32 países que integram a Agência Internacional de Energia, entre eles os Estados Unidos, decidem liberar 400 milhões de barris de reservas de emergência, numa tentativa de segurar a alta do petróleo e evitar falta de combustível. O secretário de Energia americano, Chris Wright, afirma que 172 milhões de barris entram no mercado “a partir da próxima semana”. A oferta adicional, porém, não elimina o medo de um conflito longo nas principais rotas marítimas de energia.

Trump diz que o Irã está “perto da derrota” e repete que a guerra termina “em breve”, alegando que “praticamente não resta nada para atacar” em território iraniano. Israel, aliado direto na campanha, dá outro sinal. O governo afirma que não estabelece “nenhum limite de tempo” para as operações e diz manter uma “ampla reserva de alvos”, o que alimenta a sensação de guerra aberta por tempo indeterminado.

Em Teerã, a mensagem segue na direção oposta. A Guarda Revolucionária anuncia que pretende sustentar uma campanha prolongada para forçar a retirada das forças americanas da região, com ataques contra “interesses ocidentais”. Um de seus representantes, Ali Fadavi, ameaça uma “guerra de desgaste”, capaz de “destruir toda a economia americana e mundial”. O Exército iraniano fala em atingir “centros econômicos e bancos” dos países do Golfo.

A retórica se converte em planos de ataque mais amplos. A agência iraniana Tasnim cita empresas de tecnologia dos Estados Unidos como “futuros alvos” de Teerã, entre elas Amazon, Google, Microsoft, IBM, Oracle e Nvidia. O risco se estende do campo de batalha físico para o espaço digital, com temor de ofensivas cibernéticas contra sistemas financeiros, cadeias de logística e infraestrutura de dados.

Multinacionais começam a reagir. O grupo Citi e as consultorias britânicas Deloitte e PwC retiram funcionários ou fecham escritórios em Dubai após receber ameaças diretas. A decisão expõe a fragilidade de um dos principais centros financeiros do Oriente Médio, construído justamente para intermediar o fluxo de capital ligado ao petróleo e ao comércio global.

Ormuz travado, economia mundial em suspense

A paralisação de uma rota que escoa um quinto do petróleo do planeta atinge desde grandes economias importadoras até países mais pobres, dependentes de combustível barato para manter subsídios e evitar inflação. A alta do Brent acima de US$ 100 pressiona contas públicas, encarece fretes, mexe com preços de alimentos e testa a capacidade de bancos centrais de segurar juros já elevados.

Europeus e asiáticos observam com inquietação o cerco a Ormuz. Governos recalculam estoques internos, revisam estratégias de diversificação de fornecedores e discutem novas sanções ou mediações diplomáticas. A liberação de 400 milhões de barris de reservas da AIE sinaliza disposição política, mas não substitui por muito tempo o fluxo diário que sai do Golfo. Se a interrupção se prolonga por semanas, refinarias podem disputar cargas disponíveis em outras rotas, elevando ainda mais os preços.

Países exportadores fora do Golfo, como produtores da África e das Américas, veem espaço para ganhos de curto prazo com a disparada das cotações. Empresas do setor de petróleo e gás registram valorização de ações, enquanto setores intensivos em energia, como aviação, siderurgia e transporte de cargas, calculam prejuízos. O tabuleiro cria ganhadores momentâneos, mas aumenta a percepção de que choques frequentes de oferta se tornam o novo padrão.

A diplomacia americana tenta conciliar discurso de vitória rápida com a realidade de uma operação cara, arriscada e com impacto global direto. “O Estreito de Ormuz precisa ser e será reaberto”, diz Chris Wright, em entrevista recente, ao reforçar que Washington trabalha com aliados para restaurar o tráfego marítimo. Por enquanto, porém, a combinação de ataques diários, ameaças contra bancos e empresas e retirada de executivos de Dubai indica que a região entra numa fase de incerteza prolongada.

Governos e mercados agora olham para duas frentes. No campo militar, resta saber se os bombardeios debilitam de fato a capacidade iraniana ou alimentam a “guerra de desgaste” prometida por Teerã. No terreno econômico, a dúvida é quanto tempo o mundo suporta um estreito vital travado, com reservas sendo queimadas a ritmo acelerado. A resposta a essas perguntas define não só o fim da guerra, mas também o preço da energia e o fôlego da economia global nos próximos meses.

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