Irã ameaça retaliação e alerta vizinhos contra uso de seus territórios
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, promete neste sábado (28) retaliação dura a novos ataques contra infraestrutura e centros econômicos do país. Em mensagem pública, ele alerta governos do Oriente Médio a não permitirem que inimigos usem seus territórios para conduzir guerra contra Teerã.
Escalada em meio à guerra que completa um mês
A declaração ocorre quando a guerra no Irã completa um mês e se espalha pelo Oriente Médio, após sucessivos ataques contra alvos estratégicos iranianos. A usina nuclear de Bushehr, no sul do país, é atingida pela terceira vez em menos de 30 dias, segundo a agência estatal iraniana, e cidades como Ahvaz e Isfahan registram bombardeios contra instalações econômicas e energéticas.
Em uma rede social, Pezeshkian tenta traçar uma linha vermelha clara. “Já dissemos muitas vezes que o Irã não realiza ataques preventivos, mas retaliaremos fortemente se nossa infraestrutura ou centros econômicos forem alvejados”, escreve o presidente. Na mesma mensagem, em persa e em inglês, ele fala diretamente aos governos vizinhos: “Se vocês querem desenvolvimento e segurança, não deixem que nossos inimigos conduzam a guerra a partir de suas terras”.
A formulação não é inédita na retórica iraniana, mas ganha peso diante do avanço da guerra para além do território do país. Nas últimas semanas, ao menos um ataque com míssil lançado a partir do Irã deixa um morto em Tel Aviv, e tropas e bases militares em países do Golfo entram em estado de alerta máximo. A fronteira entre pressão diplomática e confronto direto se estreita a cada dia.
Diplomatas ouvidos reservadamente descrevem a fala de Pezeshkian como um recado a capitais que abrigam bases militares estrangeiras, em especial dos Estados Unidos e de aliados ocidentais. O temor em Teerã é que novas ofensivas contra instalações energéticas, portos e centros industriais partam de territórios de terceiros, arrastando mais países para a linha de fogo.
Paquistão se consolida como mediador
No mesmo dia em que sobe o tom contra ataques futuros, Pezeshkian afaga um dos principais interlocutores regionais. Em conversa telefônica de cerca de uma hora com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, o presidente iraniano agradece o papel de Islamabad como mediador entre Teerã e Washington.
Segundo comunicado do gabinete presidencial, Pezeshkian elogia “o apoio e a solidariedade do povo muçulmano do Paquistão com o Irã” e cita explicitamente os “esforços louváveis de alguns países amigos e vizinhos, incluindo o Paquistão, para pôr fim à guerra imposta”. A expressão “guerra imposta” é usada com frequência por autoridades iranianas para descrever conflitos em que Teerã se vê como alvo de agressões externas.
Sharif, por sua vez, reafirma a linha de Islamabad. De acordo com o mesmo comunicado, o premiê condena a ação militar contra o Irã, “em particular os recentes ataques israelitas à infraestrutura económica iraniana nas cidades de Ahvaz e Isfahan”. Uma fonte paquistanesa de alto escalão diz à CNN que a conversa ocorre em clima tenso, mas pragmático, com foco em construir uma saída negociada antes que a escalada atinja ponto sem retorno.
O papel do Paquistão não é trivial. Com cerca de 240 milhões de habitantes, arsenal nuclear e fronteira terrestre de mais de 900 quilômetros com o Irã, o país se apresenta como ponte entre Teerã e capitais ocidentais. Desde o início da guerra, Islamabad organiza rodadas discretas de conversas com emisários dos Estados Unidos, da União Europeia e de países árabes, tentando reduzir o risco de um confronto regional aberto.
A aproximação também responde a interesses próprios. Qualquer ampliação da guerra ameaça rotas comerciais, gasodutos e corredores de transporte que ligam o sul da Ásia ao Golfo Pérsico. Um conflito prolongado encarece o petróleo, pressiona moedas locais e alimenta tensões internas em países que já lidam com inflação alta e instabilidade política.
Tensões regionais e riscos para a economia global
A promessa de retaliação iraniana promete reconfigurar cálculos militares e diplomáticos em boa parte do Oriente Médio. Governos com bases estrangeiras em seus territórios, como Catar, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, passam a ser pressionados a demonstrar até que ponto aceitam que operações contra alvos iranianos sejam lançadas de seus solos.
Analistas veem nessa postura uma tentativa de Teerã de “internalizar” o custo da guerra para os vizinhos. Ao advertir que responderá com força a qualquer novo ataque a infraestrutura e centros econômicos, o Irã sugere que bases ou plataformas usadas para esses ataques também podem se tornar alvo. Mesmo sem mencionar países específicos, o recado atinge a todos que dependem de proteção militar externa.
O alerta à região ocorre em um momento em que o Estreito de Ormuz, rota de cerca de 20% do petróleo transportado por mar no mundo, volta ao centro das atenções. Qualquer interrupção prolongada nessa passagem estreita entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã tem potencial para elevar o preço do barril em dois dígitos em poucas semanas, segundo estimativas de casas de análise da região. Empresas de seguros marítimos já revisam prêmios de risco para cargas que passam pela área.
Mercados financeiros reagem de forma imediata a cada novo ataque a instalações energéticas ou nucleares iranianas. O bombardeio repetido à usina de Bushehr, abastecida com tecnologia russa, levanta dúvidas sobre a segurança de estruturas que abastecem milhões de pessoas com energia elétrica e concentram material sensível. Um dano grave, ainda que limitado ao território iraniano, teria efeito global na percepção de risco nuclear.
Para a população civil, a escalada significa noites mais longas em abrigos, deslocamentos forçados e incerteza sobre serviços básicos. Hospitais em grandes cidades iranianas relatam aumento de atendimentos de emergência após cada onda de ataques. Nas periferias de Teerã, famílias começam a deixar bairros mais próximos de instalações militares e industriais, temendo que uma retaliação transforme fábricas e depósitos em alvos imediatos.
Negociações, dilemas e um conflito em aberto
Os próximos dias testam o alcance real das ameaças e das promessas feitas em público. De um lado, Pezeshkian endurece o discurso e tenta dissuadir novos ataques com o aviso de que a resposta será “forte”. De outro, depende de canais discretos, como a mediação do Paquistão, para construir uma saída que não exponha o governo a acusações internas de fraqueza.
Washington, Tel Aviv e capitais árabes avaliam se intensificam as ofensivas para forçar concessões de Teerã ou se apostam em uma pausa tática para explorar o caminho diplomático aberto por Islamabad. Cada novo míssil lançado, seja do lado iraniano ou de seus adversários, torna mais cara politicamente qualquer recuo.
Diplomatas que acompanham as tratativas alertam que uma janela de oportunidade pode se fechar em questão de semanas. Se não houver sinal claro de contenção até o fim de abril, o risco de que a guerra se transforme em confronto regional de grande escala cresce de forma exponencial. Nesse cenário, o aviso de Pezeshkian aos vizinhos deixa de ser apenas recado político e passa a ser medido em quilômetros de fronteira, bases militares e rotas comerciais sob ameaça.
Enquanto a diplomacia testa seus limites, milhões de pessoas no Irã e em países vizinhos esperam por uma resposta simples que ainda não veio: quem, afinal, está disposto a pagar o preço de parar a guerra antes que ela se torne maior do que todos os envolvidos?
