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Influencer Felipe Heystee vira réu por golpe do amor de R$ 208 mil em SP

O influenciador digital Luís Felipe de Oliveira, conhecido como Felipe Heystee, vira réu por estelionato em São Paulo após denúncia do Ministério Público. A Justiça aceita a acusação em março de 2026, após identificar um golpe do amor virtual que dura mais de dois anos e causa prejuízo de cerca de R$ 208 mil a uma vítima.

Golpe do amor em tempo real nas redes sociais

O caso expõe o encontro entre fama na internet e velhas práticas de estelionato, agora travestidas de romance digital. Segundo a denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP), Felipe cria um perfil falso em redes sociais e aplicativos de mensagens, se passando por mulher, para se aproximar emocionalmente de um homem. A conversa começa como flerte, evolui para intimidade diária e se transforma em relacionamento exclusivo, ainda que restrito à tela do celular.

O vínculo afetivo, de acordo com o MPSP, é a peça central do golpe. O influenciador passa a explorar a fragilidade emocional da vítima, constrói confiança e ganha espaço para pedidos crescentes de ajuda financeira. Em pouco mais de dois anos, a relação virtual se converte em uma sequência de transferências bancárias e pagamentos variados, sempre amparados por desculpas urgentes, problemas familiares, emergências médicas ou oportunidades de negócios que não poderiam ser perdidas.

Ao fim desse período, o prejuízo atinge quase R$ 208 mil, valor rastreado pelas investigações e agora colocado no centro da ação penal. A denúncia, assinada pelo promotor Renan Mendes Rodríguez, sustenta que Felipe não age por impulso, mas de forma planejada. O texto descreve manobras de sedução, controle emocional e insistência calculada, combinadas com o uso de múltiplos perfis falsos para reforçar a narrativa criada ao redor da vítima.

O nome artístico Felipe Heystee, associado até aqui a vídeos descontraídos e conteúdos virais, ganha outra dimensão no processo. O influenciador soma mais de 2,3 milhões de seguidores no TikTok e quase 2 milhões em perfis no Instagram. A promotoria afirma que ele se vale dessa visibilidade para dar aparência de sucesso e credibilidade ao personagem que interpreta fora das telas, no contato privado com quem passa a ser alvo do golpe.

Estelionato digital, histórico de golpes e bloqueio de bens

O Ministério Público aponta que o caso não é isolado. A denúncia destaca que Felipe já aparece em outras ocorrências de fraudes virtuais e acumula histórico de golpes em plataformas on-line. Além de aplicar o chamado “golpe do amor”, ele publica vídeos em que detalha táticas e ensina, de forma indireta ou explícita, maneiras de obter dinheiro de forma fraudulenta. “O acusado utiliza sua visibilidade na internet para fins ilícitos”, afirma o promotor na peça enviada à Justiça.

A 1ª Vara Criminal de Cotia recebe a denúncia e transforma o influenciador em réu por estelionato cometido por meio de fraude eletrônica, modalidade que aumenta o alcance e dificulta a defesa das vítimas. A decisão também atende a um pedido central do MPSP: o sequestro e bloqueio de bens e valores em nome de Felipe Heystee, até o limite do prejuízo causado, para tentar garantir futura reparação. Na prática, isso significa congelar contas, veículos e outros ativos que possam estar vinculados ao influenciador.

O bloqueio funciona como uma resposta imediata a um tipo de crime em que o dinheiro costuma circular com rapidez e desaparecer antes de qualquer sentença. Ao mesmo tempo, a medida sinaliza a outros influenciadores e produtores de conteúdo que o uso criminoso da própria imagem pública pode ter reflexos patrimoniais concretos. A denúncia amplia a discussão sobre responsabilidade de figuras que transformam a vida digital em negócio, inclusive quando atravessam a fronteira da legalidade.

O caso ocorre em um ambiente já saturado de relatos de golpes que misturam romance, promessas de parceria e pedidos urgentes de dinheiro. O chamado “golpe do amor” se espalha com a popularização de aplicativos de encontros, mensageiros instantâneos e redes voltadas para vídeos curtos, em que a construção de uma persona sedutora é parte da lógica da plataforma. A acusação contra Felipe Heystee insere o fenômeno em outro patamar, ao associar a prática a um influenciador com audiência de milhões.

Alerta ao público e próximos passos da investigação

A transformação do influenciador em réu reforça um recado a usuários de redes sociais: a intimidade construída por telas não impede a prática de crimes tradicionais. A promotoria sustenta que o caso evidencia o risco concreto de manipulação afetiva como instrumento de ganho financeiro. A vítima, nesse modelo, não é apenas alguém desatento, mas uma pessoa submetida a rotina de pressão emocional, isolamento e promessas de futuro que raramente se cumprem.

Especialistas em segurança digital ouvidos em casos semelhantes apontam que perfis muito bem construídos, com fotos atraentes, linguagem ajustada e referências coerentes, tendem a reduzir a desconfiança inicial. Situações em que o parceiro virtual evita encontros presenciais, insiste em conversas exclusivamente on-line e introduz pedidos de dinheiro após fase intensa de sedução são sinais clássicos de alerta. A investigação em Cotia, porém, mostra que até esses sinais podem ser relativizados quando o autor do golpe acumula fama na internet e se apresenta como alguém bem-sucedido.

Com a ação penal em curso, a Justiça passa agora à fase de instrução, em que serão ouvidas vítima, testemunhas e o próprio Felipe, caso ele decida prestar depoimento. A defesa do influenciador é procurada pela reportagem e, até o momento, não se manifesta sobre o caso. O espaço segue aberto para posicionamento.

O processo deve servir de termômetro para futuras investigações sobre conteúdos que incentivem práticas fraudulentas na rede. Promotores e delegados acompanham o caso de perto, atentos a possíveis novos relatos de vítimas e a conexões com outros perfis que teriam seguido as orientações divulgadas pelo influenciador. A forma como a Justiça lidará com a combinação de fama, pedagogia do crime e fraude emocional tende a definir os limites da responsabilização de criadores de conteúdo em ambientes digitais nos próximos anos.

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