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Incêndios no Sul do Chile deixam 18 mortos e 50 mil evacuados

Incêndios florestais fora de controle atingem neste domingo (18) as regiões de Ñuble e Biobío, no Sul do Chile, e deixam ao menos 18 mortos. O governo de Gabriel Boric decreta estado de catástrofe e força a retirada de cerca de 50 mil pessoas de suas casas.

Fogo avança sobre cidades e força mobilização máxima

O cenário mais crítico se concentra em áreas densamente povoadas próximas a Concepción, capital regional do Biobío. Em poucos minutos, chamas saltam de encostas cobertas por vegetação seca para bairros inteiros, engolem casas de madeira e deixam ruas inteiras em escombros fumegantes.

Em Penco, uma das cidades mais afetadas, moradores descrevem uma madrugada de correria e desorientação. Sirenes soam sem parar, luzes acabam com a queda da rede elétrica e famílias abandonam tudo para tentar chegar a pontos de encontro definidos às pressas pela Defesa Civil. “O fogo veio por cima do morro como um paredão”, relata um morador aos prantos, diante de um carro carbonizado e das ruínas da própria casa.

Na vizinha Lirquén, o único caminho possível para muita gente é a praia. Com o vento empurrando a fumaça e as fagulhas em direção ao centro urbano, centenas de moradores correm em direção ao mar, ainda na madrugada, em busca de uma faixa de areia livre das chamas. Imagens mostram famílias sentadas sobre cobertores improvisados, com crianças no colo e mochilas como único bem salvo.

O presidente Gabriel Boric acompanha a crise à distância, em contato direto com autoridades locais e equipes técnicas. Segundo ele, 14 focos de incêndio permanecem ativos ao mesmo tempo apenas neste domingo, o que obriga o governo a distribuir equipes e equipamentos por uma área extensa, muitas vezes sem acesso seguro por terra.

O estado de catástrofe decretado em Ñuble e Biobío abre espaço para a atuação imediata das Forças Armadas em apoio às operações de emergência. Militares reforçam barreiras, ajudam em evacuações, organizam centros de abrigo e apoiam a logística de envio de água, alimentos e medicamentos. O governo também impõe toque de recolher noturno em cidades mais atingidas do Biobío, como Penco e Lirquén, para liberar vias e facilitar o deslocamento de viaturas, ambulâncias e caminhões dos bombeiros.

Vidas interrompidas, casas destruídas e debate reaberto

O balanço oficial contabiliza ao menos 18 mortos até o momento, mas o próprio governo admite que esse número deve subir. Equipes de busca ainda tentam alcançar áreas isoladas, onde acessos foram bloqueados por árvores caídas, postes no chão e estruturas metálicas retorcidas.

As autoridades estimam a destruição de cerca de 300 moradias, número que, segundo Boric, pode superar com folga a marca de mil casas à medida que novas áreas são vistoriadas. As imagens de bairros carbonizados em Penco e Lirquén lembram o grande incêndio de 2024 na região de Viña del Mar, que deixou mais de cem mortos e marcou profundamente a memória do país. A recorrência de tragédias amplia a sensação de vulnerabilidade e cobra respostas mais duradouras do poder público.

Nas regiões afetadas, o impacto imediato é generalizado. Famílias perdem casa, móveis, documentos e fonte de renda em poucas horas. Pequenos comércios fecham às pressas e, em muitos casos, ardem junto com as residências. Escolas e ginásios se convertem em abrigos, com colchões dispostos em quadras esportivas e filas para receber kits de higiene, água e alimentação.

Cerca de 3,7 mil bombeiros e brigadistas florestais atuam diretamente na linha de frente, em jornadas que atravessam o dia e a noite. O trabalho é lento e exaustivo. Temperaturas altas, ar extremamente seco e vento forte criam o que especialistas definem como condição explosiva: qualquer faísca pode reacender um foco já controlado ou iniciar outro incêndio a poucos quilômetros dali.

O uso de aeronaves, peça-chave em grandes incêndios, sofre forte limitação. Rajadas intensas de vento e visibilidade reduzida pela fumaça impedem voos em vários momentos do dia, o que obriga o reforço do combate por terra. Caminhões-pipa, viaturas menores e equipes a pé tentam criar linhas de contenção para impedir que o fogo atinja novas áreas urbanas.

A tragédia reacende o debate sobre prevenção e manejo florestal no Chile. Especialistas cobram políticas permanentes de limpeza de vegetação seca em áreas de risco, fiscalização sobre o uso do solo e estratégias de adaptação às mudanças climáticas, que prolongam períodos de seca e tornam os verões mais extremos. “Não é um episódio isolado, é um padrão que se consolida”, alertam técnicos em gestão de risco ouvidos pela imprensa local.

Resposta emergencial, ajuda externa e horas decisivas

O decreto de catástrofe dá ao governo ferramentas para acelerar compras de emergência, mobilizar recursos adicionais e restringir deslocamentos em áreas críticas. Postos de comando reúnem autoridades civis, militares, meteorologistas e especialistas em desastres para revisar dados, ajustar estratégias de combate e decidir novas evacuações preventivas.

A mobilização ultrapassa fronteiras. Os Estados Unidos anunciam o envio de equipamentos e assistência técnica para apoiar o Chile no enfrentamento da emergência. O gesto reforça a cooperação internacional em desastres ambientais e ajuda a suprir parte da demanda por tecnologia e capacitação em combate a incêndios florestais de grande escala.

As autoridades chilenas agradecem o apoio externo, mas deixam claro que a prioridade imediata segue concentrada em três frentes: salvar vidas, conter a expansão dos focos mais perigosos e garantir abrigo, água e atendimento básico aos desalojados. Em Ñuble, onde a situação também é grave, o governo evita impor toque de recolher e foca em evacuações preventivas, reforço de equipes em terra e uso criterioso de aeronaves nos momentos em que o tempo permite.

A cada boletim, a pergunta que se impõe é a mesma: o que acontece nas próximas horas. Meteorologistas alertam que o calor intenso e o vento persistente devem se manter, pelo menos, no curto prazo, o que reduz a chance de alívio imediato. Sem mudança significativa nas condições do tempo, o controle total dos incêndios pode demorar dias.

O país volta a olhar para sua geografia florestal com inquietação. A crise atual pressiona governo, Congresso e setor privado a avançar em planos de prevenção, educação ambiental e resposta rápida em comunidades vulneráveis, sob o impacto ainda vivo de tragédias recentes. Enquanto o Sul do Chile segue em chamas, a principal dúvida é se o sistema político vai conseguir transformar mais esta perda em políticas capazes de evitar que o próximo verão traga um desastre ainda maior.

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