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Incêndio em porta-aviões dos EUA expõe desgaste em guerra contra Irã

Um incêndio em março destrói parte da área de lavanderia do porta-aviões nuclear USS Gerald R. Ford, no leste do Mar Mediterrâneo, e deixa cerca de 600 marinheiros sem cama. O episódio atinge o maior e mais longo desdobramento de um navio do tipo desde a Guerra do Vietnã e escancara o desgaste físico e emocional da tripulação, em meio à campanha militar do governo Donald Trump contra o Irã e operações na Venezuela.

Missão recorde, conforto mínimo

O fogo começa em meados de março, enquanto o Gerald Ford lança aeronaves contra alvos iranianos após semanas de guerra. As chamas se espalham pelo setor de lavanderia e exigem 30 horas de trabalho ininterrupto da tripulação para serem controladas, com limpeza e monitoramento para evitar que o incêndio reacenda. Ninguém fica gravemente ferido, mas a estrutura de alojamento é atingida, e centenas de militares perdem o acesso às próprias camas e à lavagem de roupas.

O incidente ocorre quando o porta-aviões de US$ 13 bilhões, o mais novo e avançado da frota nuclear americana, se aproxima de um marco incômodo: o desdobramento mais longo desde a Guerra do Vietnã, nos anos 1960 e 1970. O navio deixa a Virgínia em junho do ano anterior para uma missão que começa como treinamento pelo Atlântico, passa pelo Mediterrâneo e pela Noruega e rapidamente se transforma em ferramenta central da política externa intervencionista de Trump.

No início de 2026, o Ford atua no Caribe em apoio à operação que resulta na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro. Em seguida, recebe ordem de deslocamento acelerado para o Oriente Médio, com uma breve parada para consertar problemas nos banheiros antes de assumir posição no leste do Mediterrâneo, de onde passa a lançar ondas de aeronaves na guerra contra o Irã. É nesse contexto de uso intenso em múltiplos teatros que o incêndio expõe a vulnerabilidade material de um símbolo do poder naval dos Estados Unidos.

Dois dias depois do fogo, o navio volta a realizar missões aéreas, em um esforço para manter a rotina operacional. A embarcação segue então para a Grécia e, mais tarde, para a Croácia, em paradas rápidas de reparo. O Ford retorna ao mar a tempo de ficar disponível para o dia de ataques à infraestrutura iraniana ameaçado por Trump na semana seguinte, segundo relatos de militares e fontes que acompanham a operação.

Pressão sobre famílias e risco de evasão

A extensão da missão pesa sobre quem está a bordo e sobre quem espera em casa. A estimativa de retorno aos Estados Unidos, agora apontada para maio, já é formalmente adiada duas vezes. Famílias vivem na corda bamba, sem saber quando o navio vai, de fato, atracar. “É uma incerteza constante com a qual vivemos diariamente […] Às vezes, mal consigo dormir”, diz Amini Osias à CNN Internacional, sobre a filha que serve no Ford como eletricista de aviação.

A derrubada recente de um caça americano pelo Exército iraniano reacende o temor de quem tem parentes no front. “Poderia ter sido minha filha se ela tivesse ingressado na Força Aérea”, afirma Osias, que mistura orgulho e angústia ao falar da trajetória da jovem, de adolescente fascinada por biologia marinha a marinheira em um dos navios mais letais do mundo. Ele admite duvidar do rumo da guerra. “É realmente algo pelo qual deveríamos lutar e enviar nossos filhos? […] No fim das contas, como pai, meu dever é proteger minha filha”, diz.

O caso do Gerald Ford entra no centro de um debate maior na Marinha americana. Estudos internos mostram que, quando um navio ultrapassa seis meses de missão, problemas de retenção de pessoal e de moral se aceleram. O almirante aposentado James Stavridis, ex-comandante supremo aliado da Otan, afirma esperar “desafios para a tripulação” diante de um desdobramento tão longo. Fontes ouvidas pela imprensa americana descrevem uma taxa de evasão crescente entre pilotos e técnicos de manutenção, um contingente caro e demorado de formar.

Para tentar conter a saída, o secretário de Defesa Pete Hegseth determina, em março, uma revisão das taxas de evasão entre os Esquadrões de Caça de Ataque da Marinha. A força passa a oferecer bônus anuais de dezenas de milhares de dólares a oficiais de voo e aviadores navais. Mesmo assim, o vice-almirante aposentado Andrew “Woody” Lewis, ex-comandante da Segunda Frota, admite que “a retenção não está boa” e cita uma combinação de incerteza sobre desdobramentos, carga administrativa e impacto direto sobre famílias.

Lewis define a experiência em um porta-aviões como ambígua. “É uma maldição e uma bênção ao mesmo tempo estar em um porta-aviões”, diz, depois de 11 desdobramentos de seis meses ou mais. De um lado, as missões são “estrategicamente muito importantes”. De outro, vêm as extensões de prazo e a sensação de desconhecimento sobre o que vem a seguir: “Você enfrenta longos períodos em que não sabe o que diabos está acontecendo”.

Um cão de terapia em meio à rotina de combate

O incêndio na lavanderia e as falhas anteriores nos banheiros do Ford ilustram como os sistemas de um navio desse porte cedem sob uso intenso. Cabos que param aeronaves durante o pouso se desgastam, a água salgada invade compartimentos, consertos improvisados se acumulam. Cada ponto de tensão material aumenta a chance de incidentes em um ambiente que já opera no limite, segundo fontes que acompanham discussões internas na Marinha.

Em paralelo ao esforço técnico, o comando aposta em uma resposta incomum para as rachaduras emocionais da rotina. Desde 2023, uma labradora chamada Sage embarca como cão de terapia do navio, com posto simbólico de capitão. Ela é treinada para circular pelos conveses, detectar sinais de ansiedade, reduzir o estresse e interromper comportamentos prejudiciais. “Sage está aumentando a resiliência de seus companheiros de navio, reduzindo o estresse, quebrando barreiras e diminuindo o estigma em torno da saúde mental”, afirma Tara Fisher, porta-voz da organização Mutts with a Mission, responsável pelo programa.

Fisher descreve a cadela como um “catalisador de conversas”, capaz de incentivar marinheiros e fuzileiros a buscar apoio profissional. Sage tem kit médico próprio e equipamentos de segurança adaptados para um porta-aviões de 4.500 tripulantes e dezenas de aeronaves. A iniciativa, ainda experimental na Marinha, ganha relevância em um cenário de meses de combate, sono irregular e distanciamento prolongado de casa.

Especialistas veem no Gerald Ford um laboratório para o futuro da guerra naval americana. O sistema de catapulta eletrônica do navio permite lançar desde pequenos drones até caças pesados, flexibilidade que falta aos outros dez porta-aviões dos EUA. Essa vantagem torna o Ford indispensável nas operações no Irã e na Venezuela, mas também concentra a pressão operacional em um único casco e em uma única tripulação.

Guerra prolongada, dúvida permanente

As Forças Armadas evitam detalhar a participação do Gerald Ford na guerra com o Irã e na operação contra Maduro. A Marinha encaminha questionamentos ao Comando Central e ao Comando Sul, responsáveis pelas áreas de operação, que se recusam a comentar. O ombudsman do navio, que faz a ponte com as famílias, direciona perguntas ao escritório de assuntos públicos.

Enquanto Trump anuncia um cessar-fogo com o Irã em 7 de abril e a liderança do Ford indica a expectativa de retorno em maio, a tripulação ainda precisa atravessar semanas de mar aberto, rotinas de voo exaustivas e reparos em andamento após o incêndio. Mesmo quando o navio voltar a Norfolk, os efeitos de um desdobramento recorde não se dissipam de um dia para o outro. A Marinha terá de lidar com pedidos de baixa, problemas de saúde mental e a tarefa de preparar o próximo ciclo operacional.

O episódio da lavanderia queimada, longe da glamurização dos conveses de voo, concentra a tensão dessa fase. A maior máquina de guerra naval dos Estados Unidos segue em operação, mas o custo humano se torna mais difícil de ignorar. A pergunta que fica, para comandantes, políticos e famílias, é se a estrutura atual das missões consegue sustentar esse nível de exigência sem romper de vez o elo entre o país e aqueles que ele envia para a linha de frente.

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