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Imprensa internacional vê Brasil apático após derrota para a França

A derrota da seleção brasileira por 2 a 1 para a França, em amistoso em Boston nesta quinta-feira (26), desencadeia uma onda de críticas na imprensa internacional. Veículos da Europa e da América do Sul falam em fragilidade, apatia e distância do padrão histórico que se espera do Brasil às vésperas da Copa do Mundo de 2026.

Derrota em Boston alimenta dúvidas às vésperas da Copa

O jogo, disputado em um estádio tomado por torcedores brasileiros, era tratado pela comissão técnica como teste-chave na preparação para o Mundial, que começa em menos de três meses. O placar de 2 a 1 para a França, com gol decisivo de Kylian Mbappé e atuação irregular do Brasil, reforça a sensação de que a equipe ainda não encontra um padrão sob o comando de Carlo Ancelotti.

A seleção entra em campo em Boston com a missão de medir forças com um rival direto ao título, atual vice-campeão do mundo e dono de um elenco consolidado. Sai do gramado com mais perguntas do que respostas. Em vez de celebrar evolução, o noticiário estrangeiro aponta um time vulnerável, emocionalmente instável e distante da aura de protagonista que acompanha o Brasil em Copas há quase um século.

Críticas duras expõem fragilidades do time de Ancelotti

Na Espanha, o tom é de alarme. O jornal Marca afirma que a França “expõe fragilidades” da seleção brasileira e vê um trabalho ainda em estágio inicial. “Mbappé fez um retorno triunfal à França, liderando a equipe a uma vitória convincente contra um Brasil que ainda se encontra em campo”, escreve o veículo, ao destacar que “Ancelotti tem muito trabalho pela frente”.

O As vai além e questiona a capacidade atual da equipe de sustentar o peso simbólico da camisa amarela. “Kylian alcançou o ápice de uma exibição que veio para destacá-lo. E para confirmar que o Brasil ainda está longe do que essa camisa exige. A França venceu, sem fazer nada extraordinário”, publica o diário, em análise que ecoa o sentimento de decepção pelo desempenho brasileiro.

O Mundo Deportivo classifica o Brasil como “apático” e chama atenção para o contexto da partida. A França joga por mais de 30 minutos com um jogador a menos, após a expulsão de Upamecano, e ainda assim controla o resultado. “Mbappé guiou a seleção francesa, que jogou por mais de meia hora com dez homens, à vitória contra um Brasil apático”, resume o jornal catalão.

Na América Latina, o diagnóstico é parecido. O argentino Olé destaca a diferença de estágio entre as duas seleções e associa o desempenho brasileiro ao momento de transição do elenco. “Foi um dinamismo digno da Premier League. A França tem um sistema muito mais consolidado, enquanto Ancelotti ainda está finalizando sua convocação antes de anunciar a lista final, que atualmente não inclui Neymar”, analisa o diário esportivo, que também cita a falta de reação do Brasil em boa parte do duelo.

O Clarín reforça a imagem de um gigante que não desperta. “O Brasil, um gigante adormecido que busca despertar sob o comando de um dos técnicos mais premiados da história, ainda não se mexeu”, publica o jornal, ao apontar que o time acumula resultados irregulares no ciclo de amistosos e chega à Copa com aproveitamento de 25% contra seleções campeãs mundiais.

Na França, a repercussão valoriza o resultado e o desempenho de Mbappé, mas também destaca o enredo fora de campo. O L’Équipe lembra que o capitão francês está agora a um gol do recorde histórico da seleção e chama a vitória sobre o Brasil de “importante” neste momento da preparação. “Liderada pelo capitão Kylian Mbappé, a equipe conquistou uma importante vitória sobre o Brasil (2 a 1) em um estádio de Boston lotado de torcedores brasileiros”, registra o diário esportivo.

O Le Parisien ressalta o domínio francês em boa parte dos 90 minutos, apesar do apoio maciço ao Brasil nas arquibancadas. “Pareciam sufocar os ataques brasileiros, que contavam com o apoio massivo de uma torcida muito maior que a francesa. Bremer injetou um pouco de energia nos minutos finais com um gol de bola parada. Mas a esperança ainda reside nas mesmas cores: as da França”, escreve o jornal, que calcula cerca de 9 mil torcedores a favor da seleção sul-americana em Boston.

O Le Figaro enquadra o placar como um marco da reta final de aquecimento para o Mundial. “Uma partida memorável e uma vitória de prestígio. A poucas semanas da Copa do Mundo de 2026, os Bleus derrotaram o Brasil por 2 a 1 em um amistoso perto de Boston”, avalia, ao lembrar os 76 dias que restam até a abertura da Copa.

Pressão sobre Ancelotti e reta final antes da convocação

A derrota em Boston chega num momento sensível. O Brasil cai uma posição no ranking da Fifa após o resultado e vê a França consolidar a imagem de potência pronta para disputar o título. Internamente, a comissão técnica trata o amistoso como alerta, sobretudo pela dificuldade em controlar o jogo mesmo depois de ter um jogador a mais em campo por mais de meia hora.

Os números do ciclo também pesam. Desde que iniciou a preparação específica para 2026, a seleção soma apenas 25% de aproveitamento contra campeões mundiais, o que inclui derrotas recentes para França e outros rivais de peso. O dado alimenta a percepção, expressa em diferentes línguas nos jornais de quinta-feira, de que o Brasil ainda não encontra um modelo competitivo confiável para enfrentar seleções do primeiro escalão.

Carlo Ancelotti vive um cenário raro em sua carreira. Acostumado a colecionar títulos por clubes da elite europeia, o italiano convive agora com a cobrança pública de uma torcida global, que se manifesta tanto nos estádios quanto nas redes sociais. As análises estrangeiras ampliam essa lupa, ao apontar falhas coletivas em setores-chave, da saída de bola à recomposição defensiva, além de questionar a falta de protagonismo ofensivo em jogos grandes.

O contexto pesa ainda mais pela ausência de Neymar, que segue fora da lista neste momento de definição do elenco. A transição de comando e de geração ocorre em paralelo à busca por uma nova referência técnica. Enquanto Mbappé assume o posto de líder incontestável na França, o Brasil ainda alterna tentativas e não encontra um eixo tão claro no ataque.

Croácia no horizonte e dúvidas até a lista final da Copa

A seleção volta a campo na próxima terça-feira (31), em Orlando, contra a Croácia, para encerrar a Data Fifa e o ciclo de amistosos antes da convocação final para a Copa do Mundo de 2026. O duelo surge como último espaço para ajustes finos de sistema, testes pontuais de nomes e, principalmente, para a tentativa de estancar a sensação de instabilidade alimentada pela derrota para a França.

A partida em Boston deixa marcas que vão além do placar. A visão recorrente de um Brasil “apático” e “fragilizado” coloca pressão adicional sobre jogadores e comissão técnica em um intervalo curto de tempo. Cada escolha de Ancelotti, dos titulares ao desenho tático, passa a ser observada com ainda mais rigor por torcedores, dirigentes e analistas. A resposta em campo, na Flórida, não decide um título, mas pode definir o tom com que o Brasil desembarca no Mundial: candidato em reconstrução consciente ou gigante que insiste em adiar o próprio despertar.

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