Ciencia e Tecnologia

Implante de células-tronco testa nova frente contra Parkinson nos EUA

Médicos da Keck Medicine, em parceria com a Kenai Therapeutics, começam em fevereiro de 2026 um ensaio com implante de células-tronco no cérebro para tentar frear o avanço do Parkinson em pacientes em estágio moderado a grave. O estudo, com duração de até cinco anos, busca restaurar a produção de dopamina, substância que falta no cérebro e provoca os principais sintomas da doença.

Células reprogramadas para produzir dopamina

No centro da pesquisa está uma promessa que a medicina ainda não consegue cumprir: mudar o curso da doença de Parkinson, e não apenas aliviar seus efeitos. Hoje, remédios como a levodopa compensam a falta de dopamina por algumas horas, mas perdem eficácia com o tempo e não impedem a piora gradual dos tremores, da rigidez e da lentidão motora.

A equipe da Keck Medicine aposta em uma estratégia distinta. Em vez de oferecer dopamina de fora, tenta ensinar o cérebro a produzi-la de novo. Para isso, usa células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas pela sigla em inglês iPSCs. Essas células são criadas em laboratório a partir de tecidos adultos, como pele ou sangue, e reprogramadas para voltar a um estado semelhante ao embrionário, capaz de originar quase qualquer tipo celular.

No estudo, conduzido em parceria com a empresa Kenai Therapeutics, as iPSCs recebem instruções para se transformar em neurônios produtores de dopamina. São esses neurônios que morrem de forma progressiva na doença de Parkinson. “Acreditamos que essas células podem amadurecer de forma confiável e oferecer a melhor chance de reiniciar a produção de dopamina no cérebro”, afirma o neurologista Xenos Mason, da Keck Medicine e copresquisador do ensaio.

A intervenção é invasiva e de alta precisão. Os médicos fazem uma pequena abertura no crânio e, com auxílio de imagens de ressonância magnética em tempo real, introduzem os implantes celulares nos gânglios basais, região profunda do cérebro que coordena os movimentos. A localização exata é crucial: alguns milímetros de erro podem reduzir o efeito terapêutico ou aumentar o risco de efeitos colaterais.

Ensaio pequeno, status acelerado e alta expectativa

A terapia experimental recebe o código RNDP-001 e já conta com um empurrão do órgão regulador dos Estados Unidos. A FDA concede à tecnologia o status de fast-track, rótulo que promete acelerar etapas de revisão e, em caso de resultados positivos, encurtar o caminho até uma eventual aprovação comercial. Por ora, trata-se de um ensaio clínico inicial, com foco principal em segurança.

O estudo prevê a inclusão de 12 voluntários, todos com doença de Parkinson em estágio moderado a grave. Os procedimentos ocorrem na Keck Medicine e em outros dois centros clínicos nos Estados Unidos. Depois da cirurgia, cada participante passa por um monitoramento intensivo por 12 a 15 meses, período em que os médicos avaliam a ocorrência de eventos adversos e buscam sinais de melhora motora. O acompanhamento total se estende por até cinco anos.

O neurologista Brian Lee, neurocirurgião e principal investigador do estudo, descreve o objetivo de forma direta. “Se o cérebro puder produzir níveis normais de dopamina novamente, a doença de Parkinson pode ser retardada e a função motora restaurada”, afirma. Na prática, isso significaria menos tremores, maior estabilidade ao caminhar, redução da rigidez muscular e mais autonomia nas atividades diárias.

A aposta em células-tronco marca uma mudança de escala em relação às abordagens atuais. Desde o uso pioneiro da levodopa, na década de 1960, o tratamento do Parkinson se apoia no manejo dos sintomas, com remédios, fisioterapia e, em alguns casos, estimulação cerebral profunda. A nova estratégia tenta reparar o circuito danificado, substituindo neurônios perdidos por células jovens, cultivadas em laboratório.

O desenho do estudo também serve como sinal para investidores e outros centros de pesquisa. Um resultado positivo nessas 12 pessoas pode desencadear testes mais amplos, com centenas de pacientes, e atrair recursos para projetos semelhantes em doenças como Alzheimer, esclerose lateral amiotrófica e outras formas de degeneração neurológica.

Risco calculado, promessa global e dúvidas em aberto

Os pesquisadores evitam falar em cura, mas descrevem o ensaio como uma chance inédita de frear o avanço da doença. A Organização Mundial da Saúde estima que o Parkinson atinge milhões de pessoas no mundo e cresce com o envelhecimento da população. Uma terapia capaz de retardar a progressão por alguns anos já teria impacto direto em gastos com saúde, aposentadorias e suporte familiar.

Para os pacientes, o benefício mais concreto seria o ganho de tempo com qualidade de vida. Se o RNDP-001 funcionar como esperado, pessoas diagnosticadas na faixa dos 50 ou 60 anos poderiam preservar a capacidade de trabalhar, se locomover com independência e manter a rotina por mais tempo. A mudança reduziria a dependência de doses cada vez maiores de remédios e de procedimentos caros, como cirurgias de estimulação cerebral profunda.

O caminho até lá, porém, passa por perguntas que o ensaio ainda não responde. Ninguém sabe com precisão quanto tempo as novas células sobrevivem no cérebro humano, quanto dopamina produzem de fato e se o organismo pode reagir com inflamação ou rejeição. Outro desafio é garantir que as iPSCs não cresçam de forma descontrolada, um risco teórico em qualquer terapia de células-tronco.

Os pesquisadores planejam divulgar resultados preliminares de segurança e eficácia após o primeiro ano de acompanhamento dos voluntários. Se os dados forem favoráveis, a Kenai Therapeutics deve negociar com a FDA a ampliação dos estudos para novas fases, com amostras maiores e comparação direta com os tratamentos padrão. A partir daí, a discussão passa a envolver custo, acesso e capacidade de levar uma cirurgia complexa a sistemas de saúde fora dos grandes centros.

Enquanto os 12 primeiros pacientes entram na fase de observação, a comunidade científica acompanha de perto cada desfecho. O teste do RNDP-001 ajuda a responder se é possível, na prática, ensinar um cérebro já doente a reconstruir seus próprios circuitos. A resposta pode redefinir não só o futuro do Parkinson, mas também os limites do que se entende hoje por tratamento em neurologia.

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