Ciencia e Tecnologia

Imagem inédita revela química extrema no centro da Via Láctea

Astrônomos divulgam nesta quarta-feira (25) uma imagem inédita da região central da Via Láctea, nas proximidades do buraco negro supermassivo. O registro, obtido com técnicas avançadas de observação, expõe pela primeira vez o mapa detalhado da composição química no coração da galáxia.

Janela aberta para o coração da galáxia

O novo retrato do centro galáctico mostra uma área de poucas dezenas de anos-luz ao redor de Sagitário A*, o buraco negro com massa equivalente a cerca de 4 milhões de Sóis. A região concentra algumas das estrelas mais antigas e mais jovens da Via Láctea, envolvidas por nuvens densas de gás e poeira aquecidas por radiação intensa e pela gravidade extrema.

O que antes aparecia como um borrão brilhante em imagens anteriores agora surge esculpido em detalhes químicos. A nova observação identifica a distribuição fina de elementos como oxigênio, carbono, nitrogênio, silício e ferro, fundamentais para entender como estrelas nascem, evoluem e morrem em um ambiente tão hostil. “É como trocar um raio X borrado por uma tomografia de alta resolução”, resume um dos pesquisadores envolvidos no estudo.

O mapeamento é feito a partir da luz que chega à Terra após viajar cerca de 26 mil anos-luz, distância aproximada que nos separa do centro da Via Láctea. Ao decompor essa luz em diferentes cores, os astrônomos conseguem identificar a “assinatura” de cada elemento químico, em um processo comparado por muitos a ler um código de barras cósmico. A novidade desta vez está na precisão: a equipe consegue separar estruturas com tamanho equivalente a cerca de 0,1 ano-luz, algo em torno de 1 trilhão de quilômetros.

Essa escala permite acompanhar a vida das estrelas com outra riqueza de detalhes. Regiões de formação estelar, onde nuvens colapsam sob a própria gravidade, mostram abundâncias específicas de elementos pesados, aqueles produzidos no interior de gerações anteriores de estrelas. Já aglomerados mais antigos revelam uma química mais simples, resquício de uma galáxia ainda jovem, há bilhões de anos. “O centro da Via Láctea é um arquivo vivo da história química da galáxia”, afirma outro astrônomo do grupo.

Gravidade extrema, química complexa

O centro da galáxia é uma das regiões mais violentas do Universo conhecido. A gravidade do buraco negro supermassivo curva o espaço e acelera matéria a velocidades próximas à da luz. Campos magnéticos intensos, explosões de supernovas recentes e radiação em vários comprimentos de onda criam um laboratório natural onde a física é levada ao limite. Entender que elementos sobrevivem ali, em que quantidades e como se distribuem, ajuda a testar teorias sobre como buracos negros moldam o ambiente ao seu redor.

A nova imagem indica, por exemplo, que há bolsões de gás enriquecidos em elementos pesados em distâncias relativamente pequenas de Sagitário A*, algo entre 1 e 5 anos-luz. Isso sugere que explosões de estrelas massivas conseguem lançar material para dentro da vizinhança imediata do buraco negro antes de serem engolidas ou dispersas. Modelos clássicos previam uma “faxina” mais eficiente da região, com menos material denso acumulado tão perto.

Ao mesmo tempo, áreas um pouco mais afastadas, entre 10 e 30 anos-luz do centro, aparecem cheias de regiões de formação estelar recente. Ali, o mapeamento químico mostra presença marcante de moléculas complexas à base de carbono, associadas a nuvens moleculares densas, onde estrelas e planetas podem se formar. Para os pesquisadores, esse resultado reforça a ideia de que a presença de um buraco negro supermassivo não impede a formação de novas estrelas, mas altera o ritmo e o local onde esse processo ocorre.

Os dados servem de insumo imediato para modelos numéricos que simulam a evolução de galáxias. Com medidas mais precisas de abundância de elementos, astrônomos conseguem refinar cálculos sobre como o centro da Via Láctea troca matéria e energia com os braços espirais. Essa dinâmica influencia inclusive a órbita do Sol, que leva cerca de 225 milhões de anos para dar uma volta completa em torno do núcleo galáctico.

Novas pistas sobre a vida das estrelas

A imagem inédita abre uma frente de pesquisa voltada à vida e à morte das estrelas mais próximas do buraco negro. Ao cruzar o mapa químico com dados de movimento das estrelas, astrônomos pretendem reconstruir a cronologia de explosões de supernovas, surtos de formação estelar e períodos de maior atividade de Sagitário A*. “Cada elemento pesado que vemos ali é uma assinatura de geração anterior de estrelas”, explicam membros da equipe. “Isso nos permite contar a história da galáxia por capítulos, e não apenas em linhas gerais”.

A curto prazo, os resultados devem alimentar colaborações internacionais em grandes observatórios, tanto em solo quanto no espaço. Grupos na Europa, nas Américas e na Ásia já discutem campanhas de acompanhamento com diferentes telescópios, mirando comprimentos de onda que vão do rádio aos raios X. O objetivo é montar um retrato multidimensional do centro galáctico, no qual composição química, temperatura, densidade e campos magnéticos possam ser combinados em um único modelo coerente.

O impacto extrapola a comunidade científica. Imagens de alta resolução do coração da Via Láctea tendem a ganhar espaço em campanhas de divulgação científica, exposições interativas e materiais didáticos para escolas. Instituições de pesquisa avaliam usar o novo retrato químico como porta de entrada para discutir temas como evolução estelar, origem dos elementos e o papel dos buracos negros na história do Universo. A aposta é que o fascínio pelo centro da galáxia ajude a aproximar jovens da ciência em um momento de queda no interesse por carreiras científicas em vários países.

Os próximos anos devem trazer versões ainda mais detalhadas desse mapa do centro galáctico, com telescópios de nova geração entrando em operação até o fim da década. Cada atualização deve afinar um pouco mais a história química da Via Láctea e, por consequência, a história do lugar onde o Sistema Solar se formou há cerca de 4,6 bilhões de anos. A grande questão em aberto agora é até que ponto o buraco negro central determina o destino da galáxia, e quanto espaço sobra para o acaso cósmico no desenho final desse mapa.

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