Ilia Malinin resgata mortal para trás e redefine a patinação olímpica
Ilia Malinin, de 21 anos, executa em Milão-Cortina o primeiro salto mortal para trás legal em 50 anos na história olímpica. O americano, único atleta a acertar um Axel quádruplo em competições, transforma a sessão de equipes em laboratório para uma revolução técnica na patinação artística.
O salto que rompe um tabu de meio século
A arena em Milão se cala por um segundo quando Malinin ganha altura, gira no ar e volta ao gelo de costas. O backflip, o salto mortal para trás, fica proibido em competições oficiais desde 1976 por risco de queda e lesões graves. Em dois dias seguidos, sábado (7) e domingo (8), o patinador americano rompe o tabu diante do público olímpico.
No primeiro programa, durante a competição por equipes, ele cumpre o movimento com as duas lâminas e recebe uma explosão de gritos e celulares erguidos. No dia seguinte, arrisca mais: gira de novo e aterrissa com apenas um pé, gesto que a plateia transforma em coro de espanto. Mesmo assim, o salto não entra na conta da nota. A União Internacional de Patinação (ISU) libera o mortal para trás para uso coreográfico em 2024, mas não o inclui na tabela oficial de elementos avaliados.
Da proibição em 1976 ao laboratório de Milão
O mortal para trás entra na mira dos árbitros em 1976, quando Terry Kubicka, também americano, o exibe em Innsbruck. A ISU reage com uma punição que dura quase 50 anos: salto proibido, execução penalizada. A justificativa é clara para os dirigentes da época, que temem fraturas em sequência e pressão por saltos cada vez mais arriscados. Patinadores insistem no movimento ao longo das décadas, em exibições e até em programas competitivos, mesmo sob risco de desconto na nota.
A virada acontece em 2024. A federação admite que a proibição já não faz sentido, porque muitos atletas de elite arriscam o backflip nos bastidores e em apresentações de gala. A regra muda: o mortal passa a ser permitido como efeito coreográfico, sem valor de base, desde que respeite critérios de segurança. Malinin aproveita a brecha como poucos. “O salto mortal para trás era um sonho que eu acalentava há semanas. Estou controlando meu ritmo para economizar energia para a prova individual”, afirma após a apresentação de sábado.
Filho de ex-patinadores olímpicos do Uzbequistão, que hoje atuam como seus treinadores, ele cresce cercado pelo gelo. Na infância, divide o tempo entre a patinação e a ginástica artística, combinação que ajuda a explicar o controle no ar. Desde o fim de 2023, vence todos os campeonatos internacionais que disputa e conquista dois títulos mundiais seguidos. Em 2022, ainda com 17 anos, entra para a história ao aterrissar o primeiro Axel quádruplo em competição.
O Axel é o único salto que parte de frente e exige meia volta extra. A versão quádrupla, com quatro rotações e meia, parecia inatingível até que Malinin a domina. De lá para cá, ele repete o feito com sucesso em 12 provas diferentes, sempre sob olhar descrente de árbitros e rivais. Em um programa livre, soma ainda sete saltos quádruplos na mesma apresentação, marca que ninguém iguala até agora.
Axel quádruplo, criatividade e pressão por novas regras
O espanto com o backflip em Milão esconde um ponto técnico importante. O movimento não vale ponto, mas muda a forma como o público enxerga a patinação artística. A modalidade tenta, há anos, equilibrar a busca por notas altas com o apelo visual. Saltos complexos rendem pontuação, mas muitas coreografias ficam parecidas. Ao incluir o mortal para trás e o Axel quádruplo no mesmo repertório, Malinin mostra que é possível forçar o limite técnico e, ao mesmo tempo, oferecer um espetáculo reconhecível até para quem assiste pela primeira vez.
A ISU enfrenta um novo dilema. Se mantém o backflip fora da base de cálculo, abre espaço para números cada vez mais acrobáticos sem critérios claros de comparação. Se passa a avaliá-lo, assume o risco de provocar uma corrida por versões ainda mais perigosas. Técnicos e médicos discutem a necessidade de ampliar protocolos de segurança, criar exigências de proteção nas bordas da pista e revisar o peso relativo dos saltos em relação a giros, passos e interpretação musical.
O impacto se espalha para as escolas de formação. Academias nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia do Sul e na Europa já adaptam treinos para incluir preparação física de ginastas, com foco em eixo corporal e aterrissagem em um único pé. A tendência é que adolescentes que começam hoje no gelo aprendam desde cedo conceitos de biomecânica usados em esportes como saltos ornamentais e parkour. Malinin vira, na prática, referência técnica para essa nova geração.
Nem todos comemoram. Coreógrafos tradicionais temem que programas fiquem reféns de grandes saltos e percam nuance artística. Árbitros alertam para o risco de subjetividade maior, caso o regulamento não acompanhe a velocidade das inovações. Federações menores, com menos recursos para investir em equipes multidisciplinares, enxergam um cenário em que países ricos dominam ainda mais o topo do pódio.
O que Milão antecipa sobre o futuro do gelo
Malinin ainda não mostra em Milão-Cortina o que promete ser seu número máximo. O americano guarda o Axel quádruplo para o programa individual masculino, que começa nesta terça-feira (10). Se aterrissar o salto com limpeza diante dos juízes, fará história de novo: será a primeira vez que o elemento entra em um programa olímpico. O patinador chega como favorito claro ao ouro, embalado por uma sequência de vitórias desde 2023.
A discussão deixada por seus saltos vai além da medalha. A patinação artística precisa decidir até onde quer ir na direção da acrobacia. A liberação do backflip em 2024 abre a porta; a combinação com o Axel quádruplo escancara o caminho. O esporte pode reagir com novas regras, maior controle médico e ajustes na forma de julgar o equilíbrio entre arte e risco. Se o gelo de Milão antecipa o futuro, a pergunta agora é quantos patinadores tentarão segui-lo — e quantos conseguirão acompanhar o ritmo imposto por Ilia Malinin.
