Ilhan Omar é atacada com seringa durante comício em Minneapolis
A deputada norte-americana Ilhan Omar é atacada com uma seringa contendo um líquido de cheiro azedo durante um comício em Minneapolis, na noite de 27 de janeiro de 2026. O agressor é preso no local, e o episódio expõe a tensão crescente em torno da política migratória nos Estados Unidos.
Agressão em meio a discurso sobre imigração
A cena ocorre em poucos segundos, diante de cerca de 100 pessoas reunidas em uma assembleia pública em Minneapolis, Minnesota. Ilhan Omar, 43, fala ao microfone contra as operações do Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA, o ICE, quando um homem se levanta na primeira fila e avança com uma seringa na mão.
Identificado pela polícia como Anthony James Kazmierczak, 55, o homem borrifa contra a deputada um líquido de origem ainda desconhecida. O cheiro, segundo um jornalista da BBC presente ao evento, lembra um produto químico azedo. Seguranças contêm o agressor imediatamente e o retiram do auditório, enquanto parte do público tenta entender o que ocorreu.
Omar não apresenta ferimentos aparentes e decide permanecer no palco. Autoridades locais pedem que o encontro seja encerrado por segurança, mas a deputada recusa. “Vamos continuar… somos fortes como Minnesota”, afirma ao público, após alguns minutos de pausa. “Só me deem 10 minutos. Por favor, não deixem que eles monopolizem a conversa.”
O ataque vem logo depois de a congressista defender a abolição do ICE, agência que conduz deportações e fiscaliza imigração. “O ICE não pode ser reformado, não pode ser reabilitado. Devemos abolir o ICE de uma vez por todas”, diz, sob aplausos. Na sequência, ela cobra que a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, “renuncie ou enfrente um processo de impeachment”.
É nesse momento que Kazmierczak, ainda sentado na primeira fila, se levanta, ergue a seringa e lança o líquido em direção à parlamentar. Ao ser levado para fora por agentes de segurança, ele afirma que Omar estaria “nos colocando uns contra os outros”, sem explicar a acusação. A polícia o detém e o acusa formalmente de agressão de terceiro grau, crime que pode resultar em prisão e multa.
Tensões em Minnesota e alvo frequente de Trump
A agressão não ocorre num vácuo político. Minneapolis vive semanas de protestos contra operações federais de imigração iniciadas em dezembro, após a condenação de imigrantes somalis por fraudes em larga escala em programas de assistência social. Desde então, ações de agentes federais resultam na morte de ao menos dois cidadãos norte-americanos, o que alimenta indignação e polarização na cidade.
Omar, eleita em 2019, é uma das vozes mais estridentes do campo progressista democrata e representa justamente o distrito que concentra a maior comunidade somali dos Estados Unidos. Nascida em Mogadício e refugiada ainda criança, ela se torna a primeira somali-americana, a primeira afro-americana de Minnesota e uma das duas primeiras mulheres muçulmanas no Congresso.
Desde que assume o mandato, entra em rota de colisão direta com Donald Trump. O então presidente republicano faz da deputada um alvo recorrente em discursos e publicações nas redes sociais. Na manhã do mesmo dia do ataque, em um evento em Iowa, Trump afirma que ela “vem de um país que é um desastre”. Em outras ocasiões, diz que imigrantes devem “mostrar que amam o país — não como Ilhan Omar”, chama a congressista de “lunática radical de esquerda” e “nojenta” e chega a sugerir, em mensagem no Truth Social, que ela “deveria estar na prisão” ou ser enviada de volta à Somália.
A retórica contribui para transformar Omar em símbolo da disputa sobre imigração, identidade e pertencimento nos EUA. Em Minnesota, essa discussão é concreta: o estado abriga dezenas de milhares de somalis e vive, há anos, o choque entre políticas federais mais rígidas e autoridades locais que tentam preservar serviços e integração para imigrantes.
Depois do ataque, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, corre a se posicionar. Em nota publicada nas redes sociais, afirma que “violência e intimidação não têm lugar em Minneapolis” e que divergências políticas não podem colocar pessoas em risco. “Esse tipo de comportamento não será tolerado em nossa cidade”, escreve, elogiando a resposta rápida da polícia.
Líquido sob perícia e debate sobre segurança política
A substância usada na seringa permanece, por enquanto, como uma incógnita. A polícia de Minneapolis confirma que o material é recolhido para análise laboratorial e diz que ainda é cedo para definir sua composição ou grau de risco. Testemunhas descrevem um odor azedo e forte, próximo ao de produtos de limpeza.
Especialistas em segurança ouvidos pela imprensa local destacam que o uso de uma seringa em um evento público eleva o nível de preocupação. A imagem de uma parlamentar cercada por eleitores, à curta distância de um agressor com possível agente químico, reabre a discussão sobre o quanto congressistas devem se expor em encontros presenciais em um país marcado por ataques políticos recentes.
Nas redes sociais, Omar reage poucas horas depois do episódio. “Estou bem. Sou uma sobrevivente, então esse pequeno agitador não vai me intimidar e me impedir de fazer meu trabalho. Não deixo que valentões vençam”, escreve no X, antigo Twitter. Em inglês, ela agradece aos eleitores e reforça a ideia de resistência: “Minnesota strong”.
O evento desta terça-feira segue o formato de assembleia municipal, tradicional em comunidades americanas, e é organizado para esclarecer dúvidas sobre os recentes tiroteios fatais ligados a operações federais. A ideia é abrir um canal direto entre a deputada, moradores e lideranças locais para discutir a presença de agentes de imigração na cidade.
O ataque interrompe momentaneamente essa dinâmica, mas não encerra o encontro. Ao voltar ao púlpito, Omar insiste em tratar da pauta original, numa tentativa clara de sinalizar que não recua diante de ameaças. O gesto é recebido com aplausos e gritos de apoio.
Pressão sobre o ICE e próximos capítulos
O episódio adiciona um novo capítulo à disputa em torno do ICE, agência criada em 2003 e hoje no centro do debate sobre deportações, prisões administrativas e separação de famílias. Ao defender abertamente sua abolição, Omar se coloca à frente de um segmento da esquerda norte-americana que vê o órgão como símbolo de abusos contra imigrantes, sobretudo negros e muçulmanos.
Na prática, o ataque tende a reforçar a visibilidade de sua agenda. Grupos de direitos civis já começam a usar o caso como exemplo do ambiente de hostilidade alimentado por discursos anti-imigrantes. Para aliados de Trump e defensores de uma política migratória mais dura, porém, a fala de Omar segue sendo retratada como radical e divisiva, o que pode endurecer ainda mais o debate.
Enquanto a perícia não revela o que havia na seringa e a Justiça não decide o futuro de Anthony James Kazmierczak, a discussão se desloca para dois eixos principais: a segurança de líderes eleitos e os limites da retórica política em um cenário de polarização extrema. Em Minneapolis, onde duas mortes recentes ligadas a operações federais já abalavam a confiança nas autoridades, o ataque à deputada acrescenta uma camada extra de medo e incerteza.
Para Ilhan Omar, a intenção é transformar o episódio em combustível político. Ao manter o discurso, reiterar críticas ao ICE e se apresentar como sobrevivente de ameaças, ela tenta consolidar sua imagem de resistência em um estado que ainda busca respostas para a repressão à imigração. A pergunta que permanece, em Washington e em Minneapolis, é se o sistema político americano conseguirá conter a escalada de violência antes que novos ataques transformem a retórica em tragédia.
