Ibrachina elimina Palmeiras da Copinha e expõe contraste de projetos
O Palmeiras é eliminado da Copa São Paulo pelo Ibrachina nos pênaltis, por 5 a 4, nesta segunda-feira (19), na Arena Barueri, e vê ruir o plano de título com a base mais cara do país. A queda nas quartas de final desencadeia crise interna, desabafo público de João Paulo Sampaio e reacende o debate sobre dinheiro, eficiência e formação de jovens no futebol brasileiro.
Queda em Barueri transforma favoritismo em constrangimento
A noite em Barueri começa como tantas outras da Copinha recente. Arquibancadas tomadas de verde, clima de superioridade técnica e expectativa de mais uma vitória do bicampeão. O roteiro, porém, desvia cedo. O Palmeiras não se impõe, sofre com a marcação intensa e vê o Ibrachina, um clube de orçamento modesto e foco absoluto em formação, jogar sem medo do peso da camisa adversária.
O tempo normal termina em 2 a 2, com sensação de alerta entre os palmeirenses. Nos pênaltis, o equilíbrio vira choque: 5 a 4 para o Ibrachina, que avança à semifinal pela primeira vez e comemora como título. Na Arena Barueri, a desilusão toma a torcida alviverde. Não era só a derrota em um mata-mata. Caía o grande favorito não apenas ao jogo, mas à própria Copinha.
Entre dirigentes e conselheiros, o sentimento é de constrangimento. A eliminação vem depois de uma década em que o Palmeiras injeta cerca de R$ 260 milhões em suas categorias de base, desde 2015, sob o comando de João Paulo Sampaio. O retorno financeiro é impressionante, com cerca de R$ 3,7 bilhões em vendas de jogadores formados no clube. O desempenho na principal vitrine sub-20 do país, no entanto, não acompanha a mesma curva de sucesso naquela noite fria em Barueri.
A base mais cara do país em crise e um desabafo público
O primeiro a verbalizar o incômodo é o próprio Sampaio, gerente da base, um dos dirigentes mais valorizados do futebol brasileiro. Em suas redes sociais, ele não poupa o time. “Não jogamos p… nenhuma. Amanhã já tem trabalho e mais trabalho”, escreve, num desabafo raro em um ambiente acostumado a celebrar títulos e recordes de venda. A frase corre grupos de torcedores, bastidores de clubes e rodas de empresários.
Sampaio está no Palmeiras desde 2015. Coordena uma rede de observadores em toda a América do Sul, recebe salário na casa dos R$ 600 mil mensais e tem multa rescisória. É tratado por Leila Pereira como peça tão estratégica quanto Abel Ferreira. Foi sob sua gestão que o clube revelou Endrick, Estêvão, Vitor Reis, Luis Guilherme, Jhon Jhon, entre tantos outros. Allan desponta como o próximo da fila, disputado por gigantes europeus.
Esse histórico de captação e venda transforma a derrota para o Ibrachina em símbolo de algo maior. O Palmeiras investe, em média, R$ 30 milhões por ano na base. Mantém estrutura de primeiro mundo, CT moderno, departamento de análise de desempenho, psicologia e nutrição. Disputa para si, a unhas e dentes, talentos que hoje são monitorados por empresários desde os 10 anos, muitas vezes já atrelados a fundos e representantes estrangeiros.
A equipe que cai em Barueri, porém, é uma versão enfraquecida do projeto ideal. Por causa do início antecipado do Campeonato Paulista, Abel Ferreira chama para o profissional um quarteto considerado chave: Larson, Luís Pacheco, Erick Belé e Riquelme Fillipi. A direção trata os garotos com cuidado, pensando em transição gradual ao time principal. A Copinha perde peças que poderiam elevar o nível técnico do sub-20.
O técnico Lucas Andrade conhece o cenário com antecedência. Sabe que terá de disputar a Copa São Paulo com elenco remendado e, ainda assim, com obrigação de chegar ao título. O time não engrena. As atuações oscilam, o desempenho incomoda internamente e a eliminação para o Ibrachina, que também já havia derrubado Atlético Mineiro e Internacional, sela a avaliação de que a campanha fica bem abaixo do investimento.
Ibrachina desafia lógica financeira e vira modelo alternativo
Na outra ponta da história, o Ibrachina surge como antítese do modelo de abundância. O clube nasce há cerca de cinco anos, ligado ao Instituto Cultural Brasil-China e a um grupo de empresários chineses que atuam na rua 25 de Março. A ideia é direta: montar um projeto de formação para revelar jovens nas periferias de São Paulo, sobretudo em Heliópolis e São Mateus, e negociá-los no futuro.
O orçamento mensal gira em torno de R$ 250 mil para manter três categorias, do sub-15 ao sub-20. O valor cobre salários, comissão técnica, alimentação, viagens, departamento médico e manutenção do pequeno estádio na Mooca, com capacidade para cerca de 600 pessoas. É uma operação enxuta, quase artesanal, que custa pelo menos dez vezes menos que a estrutura de base do Palmeiras.
A família Law comanda o clube. O presidente é Henrique Law, filho de Law King Chang, comerciante que já foi investigado por contrabando na CPI da Pirataria na Câmara Municipal de São Paulo e chegou a ser preso pela Polícia Federal. As atividades do Ibrachina hoje seguem dentro da legalidade, segundo o clube, com recursos oriundos de investidores ligados ao comércio popular.
O projeto não mantém equipe profissional. Toda a lógica se concentra em captar, formar e projetar atletas. Em campo, o resultado aparece de forma acelerada. O Ibrachina elimina Atlético Mineiro, Internacional e agora Palmeiras, e se coloca em uma inédita semifinal de Copinha, em que enfrentará o São Paulo. Nas redes sociais e programas esportivos, o nome do clube passa a circular com naturalidade, como novo ator no mercado de base.
A campanha abre um flanco de discussão incômoda para os grandes. Como um projeto que custa uma fração do que Palmeiras, Atlético ou Internacional gastam consegue competir em pé de igualdade em jogos eliminatórios? O contraste não invalida o investimento bilionário dos gigantes, mas mostra que eficiência, foco e leitura de contexto podem, em um torneio curto, nivelar diferenças econômicas brutais.
Pressão sobre a base alviverde e perguntas para o futuro
O dia seguinte à eliminação no Palmeiras é de reuniões, avaliações e sinais claros de cobrança. A direção estuda ajustes na estrutura do sub-20, discute o trabalho de Lucas Andrade e revisita processos internos. Sampaio promete “trabalho e mais trabalho” e deixa claro que o discurso de orgulho pela formação precisa, neste momento, dar lugar a autocrítica.
Leila Pereira acompanha de perto. A presidente constrói boa parte de sua narrativa de gestão na capacidade da base de gerar jogadores e receitas milionárias. A queda na competição de maior visibilidade para jovens sub-20 não abala as contas do clube, mas fere a imagem de um departamento apresentado como referência continental. Em conselhos e grupos políticos, cresce a cobrança por resultados esportivos proporcionais ao dinheiro investido.
O mercado observa. Empresários, olheiros e dirigentes de outros clubes passam a olhar o Ibrachina com mais atenção, tanto para eventuais parcerias quanto para tentativas de atração de talentos. A Copinha, mais uma vez, cumpre o papel de vitrine, mas agora também de palco de um embate simbólico entre um modelo robusto, bilionário, e um projeto minimalista voltado à eficiência.
A curto prazo, o resultado não derruba o trabalho de formação do Palmeiras, que segue exportando jogadores e arrecadando cifras que sustentam o futebol profissional. A derrota em Barueri, porém, funciona como alerta. Expõe fragilidades competitivas, tensiona o relacionamento entre base e time principal e obriga a revisão de prioridades em um calendário que encurta o espaço para a Copinha.
Enquanto a festa toma conta da Mooca e o Ibrachina se prepara para encarar o São Paulo, o Palmeiras tenta reorganizar o discurso, digerir o vexame e reafirmar seu projeto de base. A resposta virá nos próximos ciclos de formação: ou o clube consegue transformar investimento em desempenho consistente também nas categorias inferiores, ou terá de conviver com a pergunta que ecoa após a queda em Barueri. Quanto vale, de fato, ter a base mais cara do país?
